Sylvain Solioz
Sylvain Solioz

‘Ainda vejo o caminhão nos atacando’, diz marido de brasileira morta no atentado em Nice

Um ano após o ataque terrorista, suíço Sylvain Solioz conta as dificuldades de lidar com o luto e ressalta que o trabalho das autoridades para combater o terrorismo não é suficiente

Jéssica Otoboni, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2017 | 11h56

Há um ano, moradores e turistas que passeavam à noite pela avenida Promenade des Anglais, na cidade francesa de Nice, foram surpreendidos pelo caminhão dirigido pelo tunisiano Mohamed Lahouaiej Bouhlel. Com ajuda de cúmplices, o terrorista lançou o veículo contra os pedestres que participavam das comemorações do Dia da Bastilha, depois desceu e abriu fogo contra a multidão, deixando 86 mortos e 450 feridos.

O agressor trocou tiros com policiais e morreu, mas as feridas que ele causou na vida das pessoas que perderam parentes próximos naquele dia jamais cicatrizaram.

Sylvain Solioz, suíço de 35 anos, era casado com a brasileira Elizabeth Cristina de Assis Ribeiro, de 30 anos, uma das vítimas do ataque. Hoje, o assistente de carpinteiro mora na cidade suíça de Yverdon-les-Bains, cuida das filhas Djulia, de 5 anos, e Kimea, de 1, e tenta lidar diariamente com a tristeza.

“Sinto-me um milagre e todos os dias são de luto”, conta Solioz ao Estado. Além de Elizabeth, ele também perdeu a filha Kayla, de 6 anos. No dia 14 de julho de 2016, a família curtia as férias em Nice quando foram atingidos pelo caminhão. O suíço conseguiu salvar a si mesmo e apenas duas filhas.

Questionado sobre a criação delas sem a mãe, Solioz responde: “É muito duro me forçar a batalhar pelas duas filhas que consegui salvar”.

Traumas

Com relação aos traumas causados pelo trágico episódio, o suíço relata que, apesar do tempo, o choque permanece. “Tenho pesadelos. Ainda vejo o caminhão nos atacando”, descreve. Ele e as duas filhas sobreviventes chegaram a ficar internados no hospital da Fundação Lenval, em Nice. Autoridades suíças disseram na época que eles estavam “em estado de choque”.

Segundo informações da agência de notícias France-Presse, ao menos 3 mil pessoas receberam acompanhamento psicológico na cidade desde o ataque. Dentre elas, especialistas afirmam que há mais de 1 mil crianças. Mesmo os que não chegaram a se ferir, lidam com o abalo causado pelo medo ou por terem visto corpos mutilados.

O atentado em Nice foi o último de grandes proporções registrado na França, seguido por alguns ataques menos expressivos que deixaram um número de mortos consideravelmente menor e alguns feridos. O alvo do grupo jihadista Estado Islâmico nos últimos meses parece ter mudado para o Reino Unido, que já registrou ações próximas ao Parlamento britânico, em um show de música em Manchester e na saída de uma mesquita em Londres.

No início de julho, o Parlamento da França prorrogou o estado de emergência por mais seis meses, status que será mantido até o dia 1.º de novembro. A medida está em vigor desde os atentados do dia 13 de novembro de 2015, nos quais 130 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas.

Ainda assim, Solioz afirma que o trabalho das autoridades para combater o terrorismo não é suficiente. “Eles não fazem muita coisa e são muito tolerantes. No dia 14 de julho do ano passado em Nice, por exemplo, não havia muita segurança.”

Mesmo diante do terror presenciado pelos europeus, Solioz afirma que “está bem” em termos de segurança na Suíça, mas mudar para o Brasil estava nos planos antes da morte de Elizabeth. A ideia da família ainda é morar no Rio de Janeiro, “se o dinheiro der”. O suíço conta que já esteve três vezes no Brasil, em visita à região de Olaria - onde nasceu a brasileira - e do Complexo do Alemão. 

Auxílio

Alguns dias após o atentado, autoridades suíças disseram que iriam apoiar financeiramente a família de Elizabeth e, inclusive, estavam estudando a possibilidade de um suporte aos parentes nos meses seguintes.

Solioz afirma que não foi exatamente isso que aconteceu, mas recebe uma pensão (€ 600) para cada filha. “Não tive tanta ajuda, a não ser por parte da minha família”, disse.

Já a prefeitura de Nice, segundo ele, propôs todo tipo de ajuda, como "o envio de € 1 mil" para arcar ao menos com as passagens de avião.

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