Airbus tenta manter empregos apesar da crise

O crime do dia 11 de setembro não massacrou somente duas torres e alguns milhares de inocentes. Ele atingiu também o céu. A partir daquela data fatídica, as companhias aéreas anunciaram a eliminação de 80 mil empregos nos Estados Unidos e de 18 mil na Europa. Na França, o tráfego de passageiros diminuiu 26% nos vôos para a América e 19% nas linhas para o Oriente Médio. Dentro da França, a redução do tráfego aéreo foi de 12%. Conseqüência automática: os construtores de aviões estão no marasmo: se a Embraer, desafiando os maus ventos, fez até festa em São José dos Campos para a inauguração da fábrica de um Embraer 170, líder de uma nova família de aviões para cerca de 100 passageiros, essa empresa - a quarta da aeronáutica civil mundial a partir de agora - demonstrou audácia e também talento, pois vem importunar as duas gigantes, Boeing e Airbus. A agressividade da Embraer contrasta com a pusilanimidade ou a fraqueza das duas grandes. Principalmente com a Boeing, que reduziu suas "asas". A empresa de Seattle não anunciou, desde os atentados, que ia reduzir 30 mil de seus empregos? A razão desses cortes drásticos: os cálculos levam a crer que, em 2001, ela só entregará 522 aparelhos em vez dos 538 previstos. E sobretudo, em 2002, a Boeing não deverá mais produzir 500 aviões como esperava, mas 400 e talvez até mesmo 350. Paralelamente, a empresa de Seattle abandona seu projeto de um avião de linha (Sonic Cruiser) com uma velocidade próxima à velocidade do som. A Airbus segue uma linha radicalmente diferente: nada de pânico. Nada de cortes drásticos no número de trabalhadores que emprega. Tenta manter. Observa. Quer evitar anúncios de desastre. Por que essa diferença estratégica? É possível dizer que são "culturas de empresa" opostas: na América, são brutais, sem palpitação do coração. Cortam. Fazem uma limpeza. Recusam-se a carregar o peso dos "semi-desocupados" quando a conjuntura se cobre de trevas. Na França, o modelo "econômico" leva mais em conta o "social": quando se faz um corte no número de empregos, é "muito a contragosto e com sofrimento", chega-se até a colocar uma empresa em perigo para preservar o emprego. Além disso, mesmo que tenha sido sacudida pelo 11 de setembro, a conjuntura da Airbus é mais favorável que a da Boeing. A Airbus tenta, então, não fazer uma "limpeza" de seus trabalhadores. Poderá contentar-se em "congelar" as novas contratações previstas para 2001. É verdade que as entregas para o ano 2001 não deverão sofrer muito: passarão de 330 unidades para 320. Em compensação, no próximo ano (2002) o vento soprará mais forte. A Airbus avalia que sua produção deverá se fixar não em 400 aviões, como previa, mas somente em 300. Reduções do número de empregados vão se impor, então? A Airbus espera evitá-las, graças a artifícios como, por exemplo, prolongamento das festas de fim de ano, multiplicação de "pontes" durante o primeiro semestre de 2002. Vê-se que a direção da Airbus recusa-se a entrar em pânico. Pretende se manter calma, poderosa, dominante. No entanto, não se dissimula que tempestades poderão comprometer essa bela serenidade. Alguns analistas financeiros falam com um certo medo. Por exemplo, os especialistas em previsão Schroder Salomon e Smith Barbey prevêem que, nos anos 2003 e 2004, a necessidade do Airbus poderá ser reduzida a 250 aparelhos e até mesmo a apenas 200. A Airbus não nega que haja abismos, buracos negros, perigos. Mas prefere não antecipar e tentar, em um primeiro momento, enfrentar o ciclone conservando consigo todos os seus trabalhadores. Deixa para rever a periodicidade de suas rotas mais tarde. Leia o especial

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