AP Photo/Fernando Llano
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Aissami, de confidente de Maduro a membro do submundo do crime

Segundo dossiê secreto do serviço de inteligência venezuelano, ministro do Interior e sua família têm ligações com narcotraficantes e ajudaram militantes do Hezbollah a entrar na Venezuela

Nicholas Casey THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2019 | 05h00

Ele é um dos líderes mais poderosos do governo venezuelano, um linha-dura que derrotou protestos, enfrentou rebeldes e tem sido uma presença constante ao lado de Nicolás Maduro, o autoritário presidente da Venezuela.

Mas, durante anos, Tareck El Aissami, um dos mais próximos confidentes de Maduro, também tem sido alvo de abrangentes investigações da agência de inteligência de seu país por seus laços com o submundo do crime.

Segundo um dossiê secreto compilado por agentes venezuelanos, Aissami e sua família ajudaram a infiltrar militantes do Hezbollah no país, fizeram negócios com um traficante e protegeram 140 toneladas de substâncias químicas que, segundo se acredita, seriam usadas para a produção de cocaína - ajudando a torná-lo um homem rico enquanto seu país enfrenta a desordem.

Com a economia em farrapos e as pessoas famintas, a Venezuela está no meio de uma luta desesperada pelo controle do país. Os documentos de inteligência oferecem uma janela incomum para o quanto os serviços de segurança do país se tornaram frágeis e nervosos, particularmente em razão da corrupção nos níveis mais altos do governo.

Aissami, um ex-vice-presidente que agora é o ministro da Indústria de Maduro, há muito tempo está no foco dos investigadores americanos. Ele foi indiciado em março em um tribunal federal de Nova York e punido há dois anos pelo Departamento do Tesouro, acusado de trabalhar com chefões do narcotráfico.

Ele e Maduro ignoraram as acusações como parte de uma guerra de propaganda projetada pelo governo Trump para derrubar o regime esquerdista da Venezuela.

Mas a agência de inteligência da Venezuela - que Aissami já chegou a controlar - levantou ainda mais preocupações sobre ele e sua família por mais de uma década, juntando seus temores em um dossiê com documentos, descobertas de investigações e transcrições de entrevistas com narcotraficantes.

O dossiê, entregue ao jornal The New York Times por um ex-funcionário de alto escalão da inteligência venezuelana e confirmado de maneira independente por um segundo, tem depoimentos de informantes acusando Aissami e o pai dele de recrutar membros do Hezbollah para ajudar a expandir as redes de espionagem e de tráfico de drogas na região.

O Hezbollah é considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos e autoridades americanas dizem que o grupo há muito tempo está presente na América do Sul, onde ajudou a lavar dinheiro de drogas. Em 2008, o Departamento do Tesouro puniu outro diplomata venezuelano, acusando-o de levantar dinheiro para o Hezbollah e de ajudar seus membros a viajar para o país.

Mas Aissami e seu pai, Carlos Zaidan El Aissami, um imigrante sírio que trabalhou com o Hezbollah em visitas que fez a seu país, também pressionaram para levar o Hezbollah à Venezuela, segundo o dossiê.

Informantes disseram a agentes de inteligência que o pai de Aissami estava envolvido em um plano para treinar membros do Hezbollah na Venezuela, "com a meta de expandir as redes de inteligência por toda a América Latina e, ao mesmo tempo, trabalhar para o narcotráfico”, dizem os documentos.

Aissami colaborou com o plano, acrescenta o dossiê, usando seu poder para liberar autorizações de residência e emitir documentos oficiais a militantes do Hezbollah, permitindo que eles ficassem na Venezuela.

Se o Hezbollah chegou a montar sua rede de inteligência ou rotas de drogas na Venezuela não é abordado no dossiê. Mas ele afirma que os militantes do Hezbollah se estabeleceram no país com a ajuda de Aissami.

Ele também atuou como facilitador para o submundo de outras formas. Os documentos dizem que seu irmão, Feraz, entrou no negócio com o traficante mais famoso da Venezuela, Walid Makled, e possui quase US$ 45 milhões em contas bancárias na Suíça.

Aissami tinha ligações com o traficante também, dizem os documentos, observando que ele emitiu grandes contratos com o governo para uma empresa ligada a Makled.

E enquanto o país caminhava rumo ao colapso econômico, forçando milhões a fugir da Venezuela e da perigosa escassez de alimentos e remédios, Aissami tornou-se um homem rico, segundo o dossiê.

Usando um homem de apoio atualmente sob sanções nos EUA, Aissami adquiriu um banco americano, partes de uma construtora, uma participação em um shopping panamenho, terras para um resort de alto luxo e inúmeros projetos imobiliários venezuelanos, incluindo uma “mansão milionária” para seus pais, de acordo com os documentos.

Uma das pistas levou a uma estrada solitária perto da fronteira da Venezuela com o Brasil.

Um oficial da Guarda Nacional entrevistado sobre um ataque em 2004 disse aos promotores que havia um conjunto de “armazéns que estavam em estado de decadência, parecendo abandonados”.

Mas o local não estava vazio. Ele estava sendo usado para armazenar produtos químicos, incluindo 140 toneladas de ureia, uma substância usada para fabricar cocaína, de acordo com os documentos da inteligência venezuelana.

A ureia era uma substância controlada na Venezuela e seus proprietários não podiam inicialmente fornecer as licenças referentes aos produtos químicos suspeitos, disseram os documentos. Um investigador da polícia disse aos promotores que, embora a ureia supostamente devesse ser vendida como fertilizante, a explicação era suspeita, pois não havia agricultura na região. Além disso, havia o dono dos produtos químicos: Makled, o traficante de drogas.

A apreensão foi o começo do fim para o traficante venezuelano, procurado para extradição pelos EUA. A DEA (agência antidrogras dos EUA) começou a montar o caso contra ele por manipular drogas com a ajuda de funcionários de alto escalão. Makled foi capturado seis anos depois e condenado em 2015 a uma sentença de 14 anos na Venezuela por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

Mas aparentemente esquecido foi o outro homem no caso: Haisam Alaisami, outro parente de Aissami, que disse aos promotores que ele era o representante legal da Makled Investments, empresa de Makled. Duas pessoas que conhecem a família identificaram-no como primo de Aissami.

Outros ramos da família Aissami também queriam fazer negócios com a Makled. Algum tempo antes de 2010, Makled foi abordado pelo irmão de Aissami, Feraz, para fornecer um grande volume de dinheiro para uma empresa de importação com sede no Panamá, de acordo com um resumo da inteligência sobre o dossiê. O dinheiro do traficante era destinado à compra de um petroleiro a ser usado em um contrato com a companhia estatal de petróleo.

Os dois irmãos Aissami parecem estar profundamente envolvidos no negócio, segundo documento. Feraz e um parceiro de negócios eram os rostos públicos da empresa, enquanto Tareck, em seu cargo de ministro do Interior do país, assinou lucrativos contratos com o governo, incluindo um contrato sem licitação para fornecer suprimentos para o sistema prisional da Venezuela, segundo o relatório da inteligência.

Uma terceira figura ligada ao negócio trouxe mais suspeitas sobre a empresa importadora: López, o homem que os oficiais americanos disseram ter ajudado a rede de tráfico de drogas de Aissami e serviram como testa-de-ferro.

O relatório de inteligência também inclui os extratos bancários de contas do HSBC vinculados ao irmão de Aissami, Feraz, que totalizaram quase US$ 45 milhões - dinheiro que diz estar ligado a Makled, o traficante de drogas.

O HSBC fechou as contas da Feraz depois que Makled foi preso por acusações de tráfico de drogas, segundo os documentos da inteligência.

O dossiê conclui com depoimentos de informantes sobre os laços da família com o Hezbollah, delineando o esforço para recrutar militantes que poderiam estabelecer uma rede de drogas e de informações em toda a América Latina. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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