Ajuda a vítimas tibetanas testa governo chinês

Resposta a sismo de Qinghai, região de maioria tibetana, rebateria acusações de discriminação

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

A imprensa oficial chinesa repetiu à exaustão nos últimos dias o fato de que o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao cancelaram compromissos internacionais para poderem estar na China e acompanhar os trabalhos de socorro em Qinghai.

Para Pequim, é fundamental mostrar que o governo está fazendo tudo para mitigar o impacto do terremoto que ocorreu em uma região habitada quase exclusivamente por tibetanos.

 

Veja imagens do terremoto na China

"Se o governo fizer qualquer coisa errada, o menor escorregão, isso poderá ser usado contra ele e provocar acusações de discriminação", disse ao Estado Andrew Fischer, que estuda o Tibete.

A questão tibetana é uma das mais sensíveis para o governo chinês, que enfrentou há menos de dois anos uma série de protestos e conflitos na região, que deixaram quase 200 mortos.

A área atingida pelo terremoto está no plateau tibetano e é culturalmente idêntica à delimitada pelas fronteiras do Tibete. Dos 5,4 milhões de tibetanos que vivem na China, metade está espalhada pelas províncias de Qinghai, Sichuan, Gansu, Yunnan e Xinjiang. Em Qinghai, há cerca de um milhão de tibetanos.

Diferença cultural. Segundo Fischer, é fundamental que autoridades entendam as tradições das vítimas, para as quais a religião é central. "Se o governo não respeitar a importância do funeral tibetano e a liderança espiritual dos monges, imagino que alguns tibetanos verão isso como um sinal persistente de subordinação e discriminação."

Quase todos os integrantes das equipes de resgate são chineses han, a etnia majoritária na China. Eles não falam tibetano, o que provoca problemas de comunicação com as vítimas, que não falam mandarim.

A diferença cultural foi um dos fatores que levou ao grande salto no número oficial de mortos na sexta-feira. A estimativa passou de 791 a 1.144 entre a manhã e a noite. Um dos fatores para a mudança foi o fato de que muitas famílias levaram seus mortos diretamente aos templos e não às autoridades locais, que são principalmente hans.

Na avaliação de Fischer, é provável que o governo seja criticado pela pobre qualidade das construções das casas de Yushu, que levou ao desabamento de 85% das casas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.