Ajuda aos insurgentes líbios

Há mais de um mês que a França está em guerra na Líbia. Está fora de cogitação, porém, utilizar a palavra "guerra". Trata-se simplesmente de uma "missão", concebida por Londres e Paris, sob o patrocínio da ONU e com a ajuda de outros países ocidentais, como Estados Unidos e Itália, para impedir que o tirano Muamar Kadafi, que martiriza seu país há 40 anos, massacre a população líbia, que, por ocasião da "primavera árabe", desafiou a ditadura.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

No entanto, quer se fale ou não de "guerra", o resultado está aí, inquietante. O que se anunciava como uma operação relâmpago, graças à qual o "ridículo" exército de Kadafi seria dissolvido, se prolonga até o momento.

Embora os bombardeios aéreos tenham salvado Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia, quanto ao resto, é só fracasso. Longe de esmagar as tropas de Kadafi, os batalhões improvisados dos insurgentes sofrem, em especial na cidade litorânea de Misrata, bombardeada pelos canhões do ditador.

Diante das evidências, os países que quiseram essa operação negam a realidade. A França, com sua costumeira ousadia, nos impinge, dia após dia, um romance segundo o qual a intervenção decidida pelo presidente Nicolas Sarkozy e pelo "filósofo" (como dizem) Bernard-Henri Lévy, é um sucesso.

Certo. Ao mesmo tempo, porém, as capitais europeias, Londres, Paris e Roma, anunciam que uma nova estratégia será utilizada. Isso não será confessar o fracasso da "guerra relâmpago" idealizada por Lévy e Sarkozy? Que nova estratégia é essa?

O mandato da ONU, muito restritivo por sinal, exclui qualquer intervenção no solo das tropas aliadas. Perfeito. No entanto, como o mês de abril comprovou, os ataques aéreos são incapazes de reduzir as tropas de Muamar Kadafi.

Portanto, "conselheiros militares" franceses, ingleses e italianos, 40 ao todo, serão enviados aos insurgentes na Líbia. Eles não participarão dos combates, mas ajudarão a rebelião a se organizar no terreno.

Essas medidas serão suficientes? Alguns duvidam. De mais a mais, elas inquietam a opinião pública em vários países aliados. Em Londres, uma expressão faz furor. A propósito da operação franco-britânica, fala-se de uma "mission creep" (uma mudança gradual de objetivos em uma campanha militar).

Lembrança do Vietnã. Imediatamente, nos vem à lembrança que meio século atrás, a desastrosa guerra americana do Vietnã havia debutado segundo o mesmo modelo: uma "mission creep", no caso, o envio ao Vietnã de "conselheiros militares" americanos.

Esses ensaios, esses fracassos e esses fiascos são ainda mais lamentáveis porque se formava um consenso sobre a necessidade da intervenção. Afinal, não se poderia deixar o "bufão sanguinário" de Trípoli degolar seu próprio povo.

É a execução que é lamentável. Decidida secretamente por Sarkozy, pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, e Bernard-Henri Lévy, de improviso e sem o parecer de profissionais, diplomatas ou militares, a coisa foi malfeita.

Sarkozy nem sequer submeteu sua decisão ao Parlamento da França. Exatamente por isso que a responsabilidade do presidente francês e de seu filósofo é pesada.

No futuro, se outras violações dos direitos humanos surgirem em uma ditadura, as democracias hesitarão em intervir por lembrança do "fiasco" líbio.

Durante a guerra de 1914, o então premiê francês Georges Clemenceau disse que a guerra era uma coisa séria demais para ser confiada aos militares.

Hoje, seria preciso modificar um pouco o pensamento e dizer: "A guerra é um assunto sério demais para que sua decisão seja deixada para um presidente da república e um filósofo." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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