Ajuda dos EUA para sobreviventes em Mianmar é incerta

Americanos dizem que ainda aguardam autorização para entrar no país; ONU envia primeira remessa

BBC Brasil,

08 de maio de 2008 | 08h25

O embaixador dos Estados Unidos na Tailândia, Eric John, disse que os Estados Unidos ainda estão à espera da autorização do governo de Mianmar para enviar um avião com suprimentos para pessoas atingidas pelo ciclone Nargis, que devastou o país no sábado. John disse que os Estados Unidos e a Tailândia tinham entendido, antes, que teriam sido autorizados a proceder com o envio. Ainda não está certo se o governo militar de Mianmar voltou atrás ou se houve um mal-entendido.   Veja também:   País recebe 1º grande envio de ajuda internacional   Ao menos 80 mil morreram em um só distrito   100 mil podem ter morrido em Mianmar, diz diplomata   A confusão se segue à intensa pressão da comunidade internacional para que a junta militar que governa o país facilite o envio de ajuda emergencial. Fontes da junta militar que governa Mianmar confirmaram nesta quinta-feira que o número de mortos com o ciclone já chegou a 80 mil. Na véspera, diplomatas americanos em Mianmar afirmaram ter recebido informações de que o número de vítimas pode chegar a 100 mil.   Segundo a BBC, os militares podem estar hesitando a aceitar a ajuda dos EUA porque sempre suspeitaram de qualquer tentativa de interferência externa - e há muito tempo os Estados Unidos vêm pedindo o fim do regime militar no país. Na noite de quarta-feira, a Secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, disse que o governo birmanês deve facilitar a ação das agências internacionais. "Isso deveria ser uma coisa simples", disse ela. "Não é uma questão de política. É uma questão de crise humanitária", disse Rice.   Se Mianmar permitir que ajuda de outros países chegue rapidamente, o país poderá receber uma das maiores operações de ajuda realizadas recentemente. Na manhã desta quinta-feira, o Programa para Alimentação das Nações Unidas disse que aviões carregados com suprimentos ainda aguardam autorização para entrar no país.   Em entrevista à BBC, um porta-voz da organização disse que levar ajuda às vítimas está sendo "um desafio". "Esperamos que os aviões possam chegar ainda hoje e o desafio será passar pela burocracia, conseguir tirar os suprimentos do aeroporto, colocá-los em caminhões e conseguir chegar até às áreas do Delta", disse Chris Kaye, baseado em Yangun, principal cidade do país e uma das mais afetadas pela tragédia. "O ideal, é claro, seria conseguir helicópteros, mas por enquanto o processo de negociação não avança muito", acrescentou ele.   Ainda segundo a ONU, uma equipe de quatro autoridades da organização chega nesta quinta ao país para avaliar a situação nas regiões mais castigadas. Chris Kaye ainda disse à BBC que gostaria de poder "trabalhar de mãos dadas" com o governo local, assim como aconteceu em outras ocasiões, como o tsunami.   Uma grande parte da região ao redor do delta de Irrawaddy, no sul do país, permanece debaixo d'água, aumentando a disseminação de epidemias. Muitas estradas ainda estão bloqueadas, e os sobreviventes começam, aos poucos, a emergir de uma cena catastrófica, famintos e vulneráveis a doenças, segundo relatos que chegam do país. Até 1 milhão de pessoas estariam desabrigadas na região de Irrawaddy, segundo a Unicef.   Corpos em decomposição   O correspondente da BBC em Mianmar, Paul Danahar, disse que os sobreviventes estão cercados por corpos em decomposição enquanto lutam para conseguir comida e água potável. "As ondas vieram com tanta violência que arrancaram as minhas roupas. Eu fiquei nu pendurado em uma árvore", disse um adolescente morador do distrito de Labutta, um dos mais atingidos pelo Nargis.   "A tempestade caiu sobre a nossa cidade e uma onda gigante chegou depois levando tudo para o mar", disse um outro jovem. Esse é o maior desafio para a junta militar desde 1989, quando o movimento pró-democracia esteve em seu ápice. Os militares estão no poder desde 1962.   O primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, fez um apelo aos generais. "Esqueçam a política. Esqueçam a ditadura militar", disse Rudd. "Vamos apenas levar ajuda a essas pessoas que estão sofrendo e morrendo enquanto falamos, por causa da falta de apoio.". O embaixador dos Estados Unidos na Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês), Scot Marciel, disse esperar que Mianmar "aceite a ajuda dos Estados Unidos."

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