Ajuda internacional é distribuída com dificuldade em Mianmar

Estradas ruins, falta de cooperação do governo do país e o colapso nas comunicações atrapalham distribuição

The New York Times,

06 de maio de 2008 | 17h03

Agências de ajuda internacional começaram a distribuir alimentos ao centro comercial e principal cidade de Mianmar, Yangon, nesta terça-feira, 6, mas há a incerteza de que a assistência chegue aos desabrigados nas áreas remotas da vasta delta do rio Ayeyarwady.   Veja também: Ciclone Nargis pode ter matado mais de 22 mil, diz Mianmar Ong diz que mais de 50 mil podem ter morrido Bush pede Mianmar aceite ajuda dos EUA Imagens dos estragos causados pelo Nargis   Estradas ruins, falta de cooperação do governo militar do país e o colapso nas comunicações são fatores que podem atrasar os esforços de ajuda das agências para a população do delta do rio, que parece ter sido a área mais afetada pelo ciclone de sábado. Mesmo antes do furacão, muitas cidades e vilas na região só eram acessíveis por barcos e helicópteros.   A lista de países que prometeram enviar ajuda à região cresce, mas parece haver um desacordo em como lidar com o autoritário governo militar de Mianmar, que talvez esteja desconfiado da interferência internacional.   "Se a situação fosse outra, nós poderíamos mobilizar alguns helicópteros agora", disse Tony Banbury, diretor regional do Programa Mundial de Alimentação (WFP) da ONU. "Nós percebemos que o governo pode não querer helicópteros internacionais sobrevoando seu país, para melhor ou pior."   Dois vizinhos de Mianmar enviaram suprimentos imediatamente - a Tailândia despachou um avião carregado com alimentos e remédios para Yangon e a Índia enviou dois navios com comida, cobertores, roupas e remédios. Os Estados Unidos anunciaram que poderão enviar US$ 250 mil dólares em ajuda, mas disse que o envio está condicionado a uma resposta se equipe americana de desastres terá permissão para entrar no país.   Durante o anúncio de Washington na segunda-feira, a primeira-dama americana, Laura Bush, disse estar preocupada pela hipótese de Mianmar não aceitar a ajuda. Ela também chamou o governo militar de "muito ineficiente."   Canadá, China, União Européia e Japão prometeram ajuda sem exigir nenhuma condição.   O ministro do Exterior da Austrália, Stephen Smith, disse que seu governo está pronto para oferecer assistência humanitária evitando julgamentos sobre o governo militar, alegando que a prioridade para o país é ajudar "as milhares de pessoas desabrigadas". "Eu não acho que estamos aptos para fazer esse tipo de julgamento agora, dadas as dificuldades de comunicação", afirmou, segundo a agência Associated Press.   Falta de coordenação   Banbury, do WFP, alertou que a ajuda prometida a Mianmar estava "descoordenada". "É ótimo que estejam enviando alguns tipos de suprimentos, mas distribuí-los será um desafio", disse.   O furacão de sábado derrubou árvores e destruiu residências em Yangon, mas o principal estrago foi no baixo delta - região que era um pântano e foi modificado enquanto o país era colônia britânica, tornando-se uma das maiores áreas produtoras de arroz do mundo. É uma região excepcionalmente fértil, mas difícil de atravessar.   "Obviamente ninguém pensou nas consequências ambientas disso tudo", disse Michael Adas, professor de História na Universidade de Rutgers e autor do livro The Burma Delta, que aborda a transformação do delta na fértil região de cultivo de arroz. Entre as pessoas mais vulneráveis estão aquelas que se mudaram para as ilhas e penínsulas proeminentes do Mar de Andamão.   "Eles construíram suas vidas em torno da água", disse said Aung Din, dissidente birmanês que vive nos Estados Unidos. "Agora a água está inundando eles."   Esperava-se que o país exportasse cerca de 100 mil toneladas de arroz neste ano, uma pequena quantidade se comparada ao comércio internacional de 30 milhões de toneladas e uma cifra minúscula diante do consumo mundial do alimento, de 410 milhões de toneladas. Ben Savage, diretor de um dos mais antigas empresas de corretagem de arroz do mundo, a londrina Jackson Son & Co., disse que os estragos do ciclone provavelmente não afetarão a cotação internacional.   Número de mortos   Turnell, da Universidade de Macquarie, estima que a população total do delta esteja entre 15 e 20 milhões. Mas, devido a falta de infra-estrutura e o grande número de vilarejos isolados, ele diz acreditar que a completa extensão dos estragos do furacão poderá nunca vir à tona.   "Nós nunca saberemos quantos morreram", afirmou. "O país não tem um censo completo desde 1937."

Tudo o que sabemos sobre:
MianmarfuracãoNargis

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.