Ajudar os migrantes é o dever de todos

A UE não deve ser abandonada por outros países e organismos em seu esforço para enfrentar o tráfico humano

MATTEO, RENZI, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2015 | 02h04

O Mar Mediterrâneo, berço de nossa civilização, está se tornando um leito de morte para milhares de homens, mulheres e crianças desesperados, sem nome. Essas pessoas tiveram vidas cheias de dor, desespero e esperança, que as levaram a ser vítimas do tráfico humano. As vozes de mães que perderam seus filhos no mar assombrarão nossas consciências. Precisamos dar fim a esta carnificina.

Após o último incidente - mais de 800 migrantes que viajavam entre a Líbia e a Itália pereceram no fim de semana quando seu barco naufragou -, líderes europeus, que se reunirão hoje a meu pedido, devem reformular nossa resposta ao aumento da migração ilegal e o tráfico humano por meio da África e do Mediterrâneo antes da próxima tragédia.

A localização e o papel geopolítico da Itália fez do país um ator importante nesta luta. Nossos esforços de patrulhamento e resgate salvaram milhares de vidas. Testemunhamos o horror de embarcações de tráfico decrépitas e superlotadas afundarem no Mediterrâneo, afogando seus passageiros. E essas embarcações representam apenas o ponto final dos fluxos migratórios ilegais em massa comandados por redes brutais do crime organizado.

O desgosto da Itália por este drama em curso vai além de nosso papel nas operações. O tráfico humano tripudia sobre os valores e riquezas que nosso mar legou para a civilização. Há milênios, nossos ancestrais viviam ao longo destas costas celebrando a diversidade, riqueza e plenitude de suas identidades. A Itália e sua cultura são em grande parte o produto desses valores e do trabalho que eles instigaram.

Meu país não fechará os olhos para esta história. A Itália não permitirá que esses princípios sejam derrotados. Somos todos parcialmente responsáveis pelo surgimento do tráfico - embora há muito que externei meus temores, consciente do risco de cada derramamento de sangue que estamos agora testemunhando. A resposta da comunidade internacional foi insuficiente.

A União Europeia gasta aproximadamente 40 milhões por ano - de um orçamento de aproximadamente 145 bilhões - na operação Triton de patrulhamento aéreo e marítimo do Mediterrâneo. Isso é dramaticamente inadequado. A UE precisa começar a alocar os recursos apropriados.

A Itália não é o destino final desejado da maioria dos migrantes, mas contribuímos com uma parte muito grande dos esforços europeus de patrulhamento e de busca e salvamento, bem como recursos para prover comida, atendimento médico e abrigo inicial. A Itália empenhou sua capacidade total. Esta não pode ser a tarefa de um único país, por mais bem equipados e determinados que estejamos.

A contribuição da UE é de fundamental importância, mas também é insuficiente. A UE não deve ser abandonada por outros países e organismos internacionais em seu esforço para enfrentar esse fenômeno definidor de nosso tempo. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse no início da semana: "O Mediterrâneo está rapidamente se tornando um mar de miséria para milhares de migrantes". A migração diz respeito a todos e precisamos contribuir para enfrentá-la.

A Itália apoia as seguintes propostas, que eu encorajo o Conselho Europeu a aprovar hoje.

As operações marítimas atuais da UE no Mediterrâneo precisam ser reforçadas com pelo menos a duplicação de seus recursos e ativos. Precisamos ampliar seu raio de ação além de patrulhamento e controle de fronteiras, para um leque mais amplo de tarefas que lhes permitam realizar um mandato mais eficaz.

As operações navais da UE no Chifre da África combateram com sucesso a pirataria - e uma iniciativa similar precisa ser desenvolvida para combater eficazmente o tráfico humano no Mediterrâneo. As embarcações do tráfico precisam ser inutilizadas. Os traficantes são os mercadores de escravos do século 21, e devem ser levados à Justiça.

Precisamos de novas ferramentas, além de recursos adicionais, para uma coordenação eficaz entre Estados-membros da UE e agências para responder aos requerentes de asilo, abrigando os necessitados e devolvendo os migrantes irregulares. Precisamos de mais agentes internacionais na África lidando diretamente com questões de migração. E precisamos ser capazes de efetivamente transferir os que pedem asilo de um país da UE para outro com base em onde eles pode obter a melhor proteção.

As causas fundamentais para centenas de milhares de pessoas buscarem desesperadamente uma vida melhor, mesmo que tenham de colocar em risco a vida, precisam ser enfrentadas com maior rigor. Embora a África esteja oferecendo cada vez mais oportunidades a seus povos, também está colocando novos desafios. Conflitos, Estados falidos e epidemias ainda representam importantes ameaças.

As economias avançadas, a começar pela UE, precisam investir tanto em termos políticos quanto econômicos no crescimento, desenvolvimento e estabilidade do continente africano. O futuro da África representa, em último recurso, nosso futuro.

Numa região muito complexa, a Líbia representa um desafio crucial. Pelo menos 90% dos migrantes que chegam ao solo italiano passam por esse país. A Líbia é presa não só de uma instabilidade endêmica, mas também do terrorismo internacional. O Estado Islâmico opera no país, contribuindo para o caos da guerra civil.

Em paralelo, aumentei Nem todos os passageiros de embarcações de traficantes são famílias inocentes. Nosso esforço de contraterrorismo no Norte da África precisa evoluir para se antecipar a essa ameaça que cria um terreno fértil para o tráfico humano e interage perigosamente com ele. Precisamos continuar os esforços políticos e diplomáticos para a reconstrução da Líbia.

As consultas e a colaboração com aliados da Itália, mais recentemente por ocasião de meu encontro em Washington com o presidente Barack Obama, para identificar uma resposta eficaz contra o terrorismo.

Não seremos acuados pelo medo. Nosso caminho para prosperidade, justiça e liberdade continuará guiado pela luz dos valores originários do Mediterrâneo em benefício de todas as pessoas que cheguem em paz a todas as costas de nosso mar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PRIMEIRO-MINISTRO DA ITÁLIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.