Ajuste argentino pode ser drástico

Os "Murphy Boys", como são chamados os assessores do novo ministro da Economia, Ricardo López Murphy, fizeram nesta segunda-feira uma pausa na atarefada preparação do pacote de medidas econômicas de ajuste fiscal e de reforma do Estado para tomar posse oficialmente de suas respectivas secretarias. Alguns dos secretários de López Murphy confirmaram que o anúncio do pacote ainda levará alguns dias, e será anunciado, pelo menos de forma parcial na quinta-feira, exatamente dois dias depois da chegada prevista de uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI). Tanto o ministro como seus secretários, mantêm estrito segredo sobre o conteúdo do pacote. No entanto, com uma metáfora, López Murphy deixou claro que sua tônica será o ajuste: "Não sou um Deus, não tenho a possibilidade de fazer multiplicarem-se os pães e peixes." Entre as medidas especuladas está a polêmica privatização do Banco de La Nación, que enfrenta a aberta oposição dos parlamentares da Frepaso, partido que junto com a UCR do presidente Fernando De la Rúa forma a coalizão de governo "Aliança". Além disso, o ministro estaria planejando a terceirização da cobrança de impostos. A equipe do novo ministro - o "dream team" da city financeira de Buenos Aires - é composta quase que integralmente por economistas da ortodoxa liberal Fundação de Investigações Econômicas Latino-americanas (FIEL). A cerimônia de posse foi na Casa Rosada, o palácio presidencial. A cartilha da FIEL prega um drástico ajuste da máquina do Estado, e os "Murphy boys" não negam que colocarão em prática esse pensamento. O recém-empossado Secretário de Reforma e Modernização do Estado, Manuel Solanet, preferiu não responder especificamente se realizariam a controvertida privatização do Banco de la Nación, o maior banco estatal argentino, mas disse que estavam "analisando todas as alternativas de privatizações". A reforma do Estado, segundo Solanet, "será feita no prazo mais breve possível". O novo secretário não quis falar sobre a dimensão da reforma, mas deu uma pista. "Leiam o que escrevi nos últimos anos." Seus escritos propõem a demissão de 90 mil funcionários públicos dos atuais 270 mil, além da eliminação de quase uma centena de secretarias e sub-secretarias federais. Logo após a cerimônia, López Murphy disse aos correspondentes brasileiros que não há motivos para que no Brasil exista preocupação pelas medidas econômicas que vá tomar. Sobre o Mercosul, o ministro afirmou que o governo "continuará a seguir os acordos internacionais que foram assinados. Isso é natural". No entanto, pouco antes da cerimônia de posse, em declarações em off, um economista muito próximo a López Murphy fez uma avaliação entre a importância do Mercosul e da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), lamentando que "o Mercosul seja uma economia mais fechada do que a ALCA". Segundo este economista, "à Argentina conviriam estratégias mais abertas". No entanto, não negou que "a Argentina tem notáveis vantagens com o Mercosul, não só pela proximidade geográfica com o Brasil. No entanto, a Argentina deverá discutir uma maior abertura para a região com o Brasil e os Estados Unidos". Presente à posse, o secretário-geral da União Industrial Argentina (UIA), Ignacio De Mendiguren, disse ao Estado que ainda esperam uma reunião com López Murphy, que já recebeu o setor financeiro. De Mendiguren afirmou que, se as medidas do ministro forem de ajuste, não serão favoráveis ao setor industrial. "Gostaríamos do anúncio de políticas ativas", disse. Essa também é a esperança do setor agropecuário, representado na posse pelo presidente da Sociedade Rural Argentina, Enrique Crotto, que lamentou ao Estado a eliminação da secretaria de Agricultura, transformada em subsecretaria. Para o economista Juan Alemann, ex-secretário da Fazenda, os "Murphy boys" terão que mostrar resultados no segundo trimestres, "senão lhes irá muito mal". Nesta terça-feira, o novo ministro passará por seu primeiro grande teste nos mercados, quando leiloará US$ 850 milhões em Letras do Tesouro, divididas em US$ 350 milhões com 182 dias de prazo, e US$ 500 milhões com prazo de 364 dias. O subsecretário de Finanças, Julio Dreizzen, calcula que as taxas a serem conseguidas serão inferiores a 8%.

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