AFP PHOTO / POOL / Khaled ELFIQI
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Al-Jazeera no Catar

Arábia Saudita e outros emirados do Golfo Pérsico, como Omã e Kuwait, exigem o fechamento da Al-Jazira, apoiados pelo presidente dos EUA, Donald Trump

Gilles Lapouge *, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2017 | 05h00

Em Doha, a capital do minúsculo e riquíssimo Catar, no Golfo Pérsico, uma grande quantidade de cartazes nas ruas convoca os habitantes à “resistência”. Mas resistência contra quem? Contra os vizinhos árabes que, comandados pela Arábia Saudita, decidiram cercar o Catar, acorrentá-lo, isolá-lo do mundo, para punir o apoio do país ao terrorismo. E também porque Doha, embora pertença ao mundo sunita, mantém um comércio com o Irã, inimigo absoluto do governo saudita e líder dos povos xiitas.

A suspeita é justificada. O Catar não é transparente. E a Arábia Saudita é bem informada nesse aspecto, já que ela própria não é inatacável. Se a família real de Riad se abstém de apoiar diretamente o terror islâmico, em compensação, há suspeitas de que algumas figuras importantes do reino saudita financiem o terror.

Entre as sanções diplomáticas impostas ao Catar está o fechamento da rede de TV Al-Jazeera. O canal foi criado há 20 anos e teve um grande papel na manifestação dos grupos terroristas. Poderosa e muito profissional, a rede de TV escolheu um belo slogan: “A opinião, e a dos outros”. Que ela não respeitou.

Na verdade a Al-Jazeera acompanhou toda a epopeia jihadista. Era para o canal de TV que Osama bin Laden, chefe da Al-Qaeda, concedia entrevistas, conversando com o jornalista Taysir Allouni, próximo da Irmandade Muçulmana. E, bem depois da morte de Bin Laden, o canal transmitia os apelos de Mohamed al-Joulani, chefe da sucursal síria da Al-Qaeda.

Os americanos já tinham a rede de TV na sua mira, pode-se dizer, pois bombardearam seu escritório em Cabul, nos anos 2000. E, pouco mais tarde, a invasão do Iraque pelos americanos foi um golpe de sorte para a Al-Jazeera. O canal registrou uma audiência gigantesca em todo o mundo árabe. Um novo diretor assumiu o comando da emissora, membro da Irmandade Muçulmana, palestino, que intensificou a empatia da Al-Jazira pelo terrorismo. Depois, vieram as primaveras árabes e o canal redobrou o entusiasmo pelos islamistas.

Crise financeira. Os problemas começaram em torno de 2015, pois a crise do petróleo reduziu drasticamente as receitas (que ainda são impressionantes) do pequeno emirado. Em 2016, 500 funcionários da Al-Jazeera foram demitidos. As sucursais da rede no exterior foram reduzidas. A dos Estados Unidos foi fechada. A dos Bálcãs ainda é preservada, em razão da forte presença de muçulmanos na Albânia e no Kosovo.

Hoje, a Arábia Saudita e outros emirados do Golfo Pérsico, como Omã e Kuwait, exigem o fechamento da Al-Jazira, apoiados pelo presidente dos EUA, Donald Trump, quando ele visitou Riad. É claro que os príncipes do Catar recusam-se a obedecer a essa ordem, por orgulho ou preocupados com a comunicação. 

O ínfimo Catar hoje é conhecido no mundo inteiro pelo seu apoio a clubes de futebol (como o Paris St. Germain, da França) e outras atividades na Europa. Mas é sobretudo em razão dessa voz do mundo árabe que foi a Al-Jazeera.

Até agora, cada vez que a emissora se via ameaçada, obtinha o respaldo da ONU e da poderosa entidade Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Hoje, a entrada da Arábia Saudita na briga constitui um desafio enorme para os príncipes de Doha. Muitos cataris querem que a Al-Jazeera continue a transmitir, mesmo que isto signifique informar com neutralidade e menos carregada de pregação islamista. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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