Al-Qaeda adota Argélia e mira Europa

Ofensiva da UE contra terror islâmico obriga grupos radicais a buscar espaço em países muçulmanos do norte da África

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2009 | 00h00

Após os atentados de Madri e Londres, em 2004 e 2005, os países da Europa elevaram o grau de vigilância contra a ameaça jihadista. As operações de inteligência para desmembrar células de extremistas islâmicos resultaram no fracasso de todas as tentativas de ataques nos últimos três anos e meio. Mas, se o risco interno parece ter diminuído, as autoridades europeias se voltam contra o perigo externo representado pela infiltração da Al-Qaeda em ex-colônias europeias no norte da África. A proximidade da Europa e as ligações de células terroristas com imigrantes desses países africanos em solo europeu são fontes de preocupação.A Argélia é o país onde o terror islâmico conseguiu se estruturar com mais vigor. Desde a conversão do Grupo Salafista para Pregação e Combate (GSPC) em Al-Qaeda do Magreb Islâmico, em 2007, quatro grandes atentados foram cometidos no país. O grupo tem ligações com o egípcio Ayman al-Zawahiri, número 2 da rede terrorista comandada pelo saudita Osama bin Laden. O objetivo da Al-Qaeda do Magreb é instalar um Estado islâmico no Saara, mas, conforme Ali Laeidi, jornalista francês especializado em terrorismo, a organização também usa a região como plataforma para atingir o outro lado do Mediterrâneo. "Nunca em sua história a Al-Qaeda havia conseguido organizar uma base territorial sólida tão próxima do Ocidente", adverte Laiedi.Além da Argélia, o terror islâmico está se expandindo para Marrocos, Mauritânia, Mali, Níger e Chade. "São todos países muçulmanos onde a miséria é elevada e a presença do Estado, fraca e por vezes conivente com grupos extremistas", afirma Claude Moniquet, presidente do Centro Europeu de Inteligência Estratégica e Segurança (Esisc), com sede em Bruxelas. Na quarta-feira, a Al-Qaeda do Magreb assumiu o sequestro de dois diplomatas canadenses e de quatro turistas europeus na Nigéria. Foi o primeiro ataque bem-sucedido no país. Além do norte africano, a costa oeste do continente desperta a atenção dos estrategistas europeus e também do Pentágono. O Sudão, onde Bin Laden recebeu abrigo nos anos 90, o Djibuti, o Quênia, a Tanzânia e a Somália eram prioridades na região até o fim do governo de George W. Bush por seu potencial explosivo. Henry Crumpton, ex-embaixador dos Estados Unidos para contraterrorismo na região, advertiu recentemente que, ao se expandir na África, a Al-Qaeda obtém acesso a um contingente populacional que, por ser oriundo de ex-colônias europeias, tem facilidade de circulação pela Europa. "A África árabe, por sua instabilidade política e pobreza, tornou-se um novo manancial para o terror", afirma o cientista político Eric Denécé, diretor do Centro Francês de Pesquisa e Informação (CF2R).Especialistas ressaltam que essa expansão da Al-Qaeda na África é resultado de uma bem-sucedida ofensiva contra as células terroristas em solo europeu.Em junho de 2007, agentes do MI5 - o serviço secreto britânico - impediram atentados em Londres e Glasgow, na Escócia. Em janeiro de 2008, uma suposta célula jihadista foi flagrada em Barcelona, na Espanha, pelo serviço secreto espanhol, quando planejava cometer atentados em Portugal, Grã-Bretanha e França durante a visita à Europa do então presidente paquistanês, Pervez Musharraf. No mesmo mês, conversas de rádio sobre um ataque à Torre Eiffel foram interceptadas por controladores civis de aviação em Portugal. Em dezembro, operações conjuntas dos serviços secretos europeus resultaram em 14 prisões em Bruxelas, na Bélgica, seguidas de detenções em Paris e Grenoble, na França.As agências de informação da França, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e Espanha investiram pesado em orçamento, efetivo e especialização técnica para lidar com a ameaça islâmica. A Direção Central de Informações Gerais (DCRG), o serviço secreto francês, por exemplo, tem hoje 3,4 mil funcionários - eram 1,4 mil em 2000. "Um dos desafios dos serviços secretos europeus após o 11 de Setembro foi crescer em estrutura, incorporar novos agentes, treiná-los e infiltrá-los de acordo com seus interesses. Esse processo é longo, mas a ausência de atentados é um de seus efeitos", afirma o cientista político Denécé.

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