Reprodução - TV/AP-7/10/2001
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Al-Qaeda anuncia sucessor de Bin Laden

A declaração, postada num site islâmico da internet, foi simples e curta: "O comando-geral da organização Al-Qaeda anuncia, após a conclusão de uma série de consultas, que o xeque Abu-Mohamad Ayman al-Zawahiri, que Deus o guie ao sucesso, assumiu o comando do grupo". Um mês e meio depois da morte de Osama bin Laden, a rede terrorista mais uma vez tem um "emir" oficial.

Yassin Musharbash, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2011 | 00h00

A nomeação oficial do cirurgião egípcio não chega a ser uma surpresa. Há muitos anos, Zawahiri era o vice de Bin Laden e favorito para assumir a liderança da rede terrorista. O único obstáculo era um voto de confiança dos membros do "comando-geral".

É improvável que as dez pessoas, que supostamente constituem o comando, tenham se reunido para a entrega da liderança a Zawahiri; elas devem ter votado pela internet ou despachado mensageiros entre si. Sob o comando de Bin Laden, o papel do "segundo escalão" do grupo era muito menos evidente e raramente era mencionado. Mas, nas últimas seis semanas, coube ao comando colegiado confirmar a morte de Bin Laden e, agora, nomear o sucessor.

O "comando-geral" deixou claro para todos o seu papel central na rede. O fato sugere que a Al-Qaeda tem uma organização mais bem estruturada do que muitas vezes parecia externamente.

Mais interessante do que a nomeação em si é como ela deve ser interpretada. Estaria a Al-Qaeda preparando uma reorganização sob Zawahiri? E, na qualidade de novo "emir", contará ele com o mesmo grau de obediência do predecessor?

Zawahiri tem o respeito dos comandantes da Al-Qaeda e da rede mais ampla de voluntários simplesmente porque há muito tempo faz parte do campo jihadista. Ele adotou sua posição radical quando jovem, aderindo ao ímpeto das organizações militantes que queriam derrubar o governo egípcio.

Na semana passada - antes mesmo de sua confirmação no cargo -, Zawahiri divulgou um vídeo no qual revelou a primeira tentativa de uma estratégia em relação aos levantes da primavera árabe e reiterou a intenção de atacar os EUA e outros países do Ocidente. A proposta era a de que a Al-Qaeda apoiaria as rebeliões contra os regimes "ateus", mas esses movimentos rebeldes deveriam posteriormente transformar-se em regimes teocráticos.

Também é possível perceber um eco dessa posição na declaração de ontem: "As revoluções serão incompletas enquanto a Sharia (o código penal islâmico) não for introduzida.

No documento divulgado ontem, há um trecho que parece reiterar a estratégia: A Al-Qaeda estendeu suas mãos para todos os que também "trabalham pela vitória do Islã" - no discurso da Al-Qaeda isso significa os que planejam os ataques terroristas. Não importa se eles estão dentro ou fora das atuais organizações da rede, acrescenta.

A Al-Qaeda também muda ligeiramente sua posição de outra forma. No início, a rede terrorista não tinha uma mensagem coerente a respeito das revoltas populares nos países árabes. Estava atrasada, as mensagens eram ultrapassadas e pareciam desesperadas, dada a ausência de agitação islâmica em lugares estratégicos como o Cairo, Túnis e Damasco.

O novo discurso seria uma tentativa da Al-Qaeda de recuperar um papel relevante diante de movimentos de caráter laico.

Zawahiri assume a liderança em um momento difícil da rede. A pressão em razão da exposição é enorme, com os aviões não tripulados da CIA passando não apenas sobre o Paquistão, mas também sobre o Iêmen em sua missão para eliminar os membros da Al-Qaeda. Há anos, a rede não consegue realizar um ataque magistral contra o Ocidente; ao contrário, muitos dos seus membros foram identificados, mortos ou presos.

Antigos companheiros consideram Zawahiri mais inteligente e mais preocupado com a estratégia do que Bin Laden. O serviço secreto também sugere que Zawahiri foi a figura crucial da Al-Qaeda anos atrás. Para melhorar sua posição, ele certamente procurará maneiras para instigar um ataque espetacular. Não seria um ataque a qualquer preço, porque ele é extremamente cauteloso, mas com certeza se dará muito em breve.

Enquanto isso, o paradeiro de Zawahiri é desconhecido. Acredita-se que ele se esconda na região fronteiriça entre Afeganistão e Paquistão - mas, assim como aconteceu com Bin Laden, talvez isso seja um mero equívoco. Pelo menos no caso de Zawahiri, a sugestão de que ele moraria numa caverna foi sempre improvável. Em um vídeo, por exemplo, é possível ver uma série de livros de medicina em árabe numa estante na parede. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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