Al-Qaeda assume autoria de ataque e violência se espalha no Paquistão

Mortes após o atentado contra Benazir já são 32; governo diz ter interceptado mensagem do grupo de Bin Laden

Karachi, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 00h00

Um dia após o assassinato da ex-primeira-ministra e líder da oposição Benazir Bhutto, de 54 anos, a violência espalhou-se pelo Paquistão. O número de mortos em distúrbios desde o atentado chegava ontem a 32, segundo as autoridades. Também ontem, a Al-Qaeda assumiu a autoria do ataque, informação que o governo paquistanês considerou autêntica. Benazir, que foi enterrada ontem (leia mais ao lado), morreu quando um homem-bomba se explodiu momentos depois de ela ter participado de um comício eleitoral em Rawalpindi, cidade vizinha da capital, Islamabad. Outras 20 pessoas também morreram na explosão.A agência de notícias Adnkronos International (AKI), de Roma, foi a primeira a receber uma mensagem supostamente de um dos dirigentes da Al-Qaeda, Mustafá Abu al-Jazid. "Derrubamos um aliado muito valioso dos EUA, que havia jurado acabar com os mujahedin (combatente islâmico)", disse Al-Jazid, por telefone, ao correspondente da agência em Karachi. A ex-premiê era vista pelos radicais islâmicos como pró-Ocidente e secular. Ainda de acordo com a AKI, a decisão de matar Benazir teria sido tomada em outubro pelo "número 2" da Al-Qaeda, o egípcio Ayman al-Zawahiri.Em outro indício que incrimina a Al-Qaeda, a inteligência paquistanesa disse ter interceptado comunicações que comprovam a culpa do grupo. "Segundo nossos dados, o dirigente da Al-Qaeda Baitullah Mehsud está por trás do assassinato", disse o porta-voz do Ministério do Interior, Javed Iqbal Cheema. Segundo ele, na mensagem interceptada, Mehsud comemorava o atentado.Mehsud, um dos líderes radicais mais procurados pelas autoridades paquistanesas, atua na Província do Waziristão do Sul, perto da fronteira com o Afeganistão. Ainda segundo o porta-voz do ministério, ele foi também o responsável pelo atentado suicida de 18 de outubro contra a comitiva de Benazir, horas depois de ela ter voltado ao país, após oito anos de exílio. A líder saiu ilesa do ataque, que deixou 140 mortos.A revolta com a morte de Benazir espalhou-se ontem pelo Paquistão, especialmente na Província de Sindh, reduto político da ex-premiê. Pelo menos 23 pessoas já morreram nos distúrbios na região, segundo a polícia. Centenas de carros, caminhões, ônibus e várias estações ferroviárias foram incendiados por manifestantes - que gritavam palavras de ordem contra o presidente paquistanês, Pervez Musharraf, a quem acusavam de ser responsável pela morte de Benazir.Em Multan, na Província de Punjab, uma multidão depredou sete bancos e pôs fogo num posto de gasolina. Pelo menos uma morte foi registrada durante os distúrbios em Punjab. Na Província da Fronteira Noroeste, uma bomba colocada na beira de uma estrada explodiu, causando a morte de oito pessoas. Em várias outras cidades do país, escolas e lojas foram fechadas. Tentando conter a violência, o Exército tomou as ruas de Hyderabad e Karachi, as principais cidades de Sindh. Os soldados receberam autorização para atirar contra os manifestantes envolvidos em atos de violência.Apesar dos distúrbios, o governo afirmou ontem que não adiará as eleições parlamentares do dia 8. "As eleições estão mantidas", afirmou o primeiro-ministro interino, Mohammadmian Soomro.Analistas paquistaneses, no entanto, acreditam que a morte de Benazir deve dificultar a realização da votação. "Musharraf pode tentar forçar a eleição no dia 8, mas será muito difícil levá-la adiante. Ele é apontado agora como o problema e não a solução, e acabará se tornando vítima da crise", afirmou Talat Masood, general da reserva e analista político. Especialistas também temem que Musharraf volte a impor estado de emergência no país - o Paquistão ficou sob estado de exceção de 3 de novembro a 15 de dezembro.A morte de Benazir cria um vácuo de liderança Partido Popular do Paquistão (PPP) da ex-premiê, apontado como provável vencedor das eleições. A vitória do PPP daria a Benazir o terceiro mandato como primeira-ministra.AFP, AP E REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.