'Al-Qaeda e Estado Islâmico disputam relevância'

A disputa entre diferentes organizações jihadistas por supremacia internacional pode aumentar a probabilidade de atentados semelhantes ao que atingiu o jornal francês Charlie Hebdo, avalia William Braniff, diretor-executivo do Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e Resposta ao Terrorismo da Universidade de Maryland.

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2015 | 02h02

"Os dois grupos querem demonstrar que são a organização líder dessa ampla rede de jihadistas violentos, que são a força a ser reconhecida, para a qual doações devem ser feitas e à qual você deve se unir", disse em entrevista ao Estado, referindo-se ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda na Península Arábica, que assumiu a responsabilidade pelo ataque que matou 12 pessoas em Paris. A seguir, trechos da entrevista:

Há diferenças essenciais entre o ataque à Charlie Hebdo e outros atentados terroristas?

Existem semelhanças com alguns ataques, mas em pequenos aspectos é uma mudança em relação ao que vimos no passado, pelo menos no padrão da Al-Qaeda na Península Arábica, que havia tentado realizar ataques com explosivos contra os Estados Unidos. E com exceção desses, a organização não tinha atividades fora do Iêmen. A escolha de um ataque com armas é interessante. Enquanto há um menor potencial para um grande número de vítimas, a possibilidade de sucesso é muito maior. O ataque em si é uma versão menos complexa do que ocorreu em 2008 em Mumbai (Índia), conduzido pelo Lashkar-e-Taiba (grupo paquistanês), no qual vários atacantes usaram armas de fogo, além de pequenos explosivos. Eles foram ao redor da cidade atingindo vários alvos e finalmente tomaram reféns em um hotel.

O ataque da França foi um ato de "lobos solitários"?

Eu não descreveria dessa maneira. Esses indivíduos estavam atuando em um pequeno grupo e supostamente tinham laços com a Al-Qaeda na Península Arábica. Os dois irmãos pareciam ter uma longa relação com outros indivíduos na esfera de jihadistas violentos. Indicações preliminares sugerem que o ataque em Paris foi parte de uma operação mais complexa planejada pela Al-Qaeda na Península Arábica. Isso tem implicações psicológicas distintas. O tipo de terrorismo mais efetivo nunca é apenas sobre um único ataque. Ele é uma forma de violência psicológica que faz você se preocupar com o que acontecerá amanhã e no dia seguinte. É o primeiro de muitos? É o primeiro de dois? Quando é o ato de um lobo solitário ou de uma célula autônoma não conectada com uma organização terrorista, uma vez que os indivíduos sejam presos você pode voltar a sua rotina diária. Isso é uma grande diferença psicológica.

Qual a probabilidade de ataques semelhantes no futuro?

Ninguém pode prever isso. A Al-Qaeda na Península Arábica está competindo na arena global com um grupo como o Estado Islâmico. Não que isso sugira que haverá um novo ataque, mas os dois grupos querem demonstrar que são a organização líder dessa ampla rede de jihadistas violentos, que são a força a ser reconhecida, para a qual doações devem ser feitas e à qual você deve se unir. É a ideia de que organizações terroristas concorrentes têm de superar a outra para ganhar mais recursos e influência. Portanto, há a preocupação não apenas de que haja cópia dos ataques, mas que ocorra uma forma de competição entre essas organizações.

Além disso, a França tem uma postura antiterrorista muito agressiva. Conduziu operações no norte da África contra organizações jihadistas, realizou ataques aéreos contra o Estado Islâmico e é o único aliado da Otan que aprovou legislação para permitir a entrada de soldados na Síria. Também tem uma longa história colonial e pós-colonial com a Argélia e enfrentamentos entre o governo francês e grupos violentos na Argélia.

O que provoca a radicalização? Existem vários caminhos distintos, mas muito dos ingredientes comuns incluem alguma forma de descontentamento pessoal ou social. Eu perdi meu emprego ou minha mulher me deixou. Ou estou insatisfeito com a situação dos seguidores da minha religião em alguns lugares do mundo. Também há alguma forma de ideologia militante, alguma forma de mobilização ou socialização de ideias com outras pessoas, online ou no mundo real, que dá a você a afirmação de é correto fazer o que a ideologia determina que você faça.

A questão sobre a ideologia é que ela não é apenas um conjunto de crenças, mas um mapa para ação. A ideologia não fala apenas o que está errado com o mundo e como ele deveria ser, mas também o que você tem de fazer para consertá-lo. Ideologias dão um sentimento de poder, dão a uma pessoa um sentimento de identidade, de missão, de propósito na vida.

Há uma evolução na natureza do terrorismo ou há mais coincidências do que diferenças entre o atentado de Paris e os que o antecederam?

O terrorismo é um fenômeno antigo e toda a cultura ou sociedade gera pessoas que usam violência para promover seus objetivos ideológicos. Em alguns aspectos, o terrorismo está mudando, porque tudo o demais também está. Uma pessoa pode se comunicar diretamente com um militante na Síria ou no Iraque.

Eu não sei se há alguma coisa fundamentalmente diferente entre o trágico ataque em Paris e ataques anarquistas na virada do século 20 na Rússia, na Espanha ou nos Estados Unidos. O movimento anarquista era internacional, matou um primeiro-ministro na Espanha, um presidente americano em 1901, um czar na Rússia. Eles se comunicavam com o que era uma nova e excitante tecnologia, o telégrafo. Eles usavam dinamite como homens-bomba suicidas. Eles carregavam a dinamite até o alvo e se matavam com ele.

O que mudou foi a letalidade e a frequência dos ataques, especialmente nos últimos quatro anos. Nos últimos anos, nós vimos um nível de violência do terrorismo muito maior do que o que vimos nos últimos 44 anos. Infelizmente, essa combinação de tecnologia, armas cada vez mais poderosas e uma ideologia jihadista terrivelmente violenta criou um momento muito letal na história.

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