Al-Qaeda lança campanha para combater Obama

Popularidade do presidente entre os muçulmanos irrita a rede terrorista, que responde com insultos pessoais

Joby Warrick, The Washington Post, Washington, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2009 | 00h00

Pouco depois da eleição de novembro, o número 2 da Al-Qaeda fez uma avaliação do novo presidente dos EUA e o desprezou com um epíteto insultante. "É um negro doméstico", disse Ayman al-Zawahiri. Aquilo foi apenas um aquecimento. Nas semanas que se seguiram, o grupo terrorista descarregou uma torrente de abusos verbais contra Barack Obama, cada um mais venenoso do que o outro.O fluxo de palavras odiosas faz parte do que os especialistas em terrorismo acreditam ser uma campanha de propaganda deliberada e até desesperada contra um presidente que parece ter conseguido irritar a Al-Qaeda. A despedida de George W. Bush privou a Al-Qaeda de um líder americano polarizador, que justificava, como resposta aos seus atos, a entrada de recrutas e doações para a organização terrorista.Com Obama, a Al-Qaeda enfrenta um desafio completamente novo, dizem os especialistas: um presidente que fez campanha com base no fim da guerra no Iraque e no fechamento da prisão militar de Guantánamo, em Cuba, além de ser bem quisto no mundo muçulmano, segundo revelam as pesquisas.Resta saber se o sentimento favorável a Obama vai durar. Na sexta-feira, a nova administração deu sinais de que pretende dar prosseguimento a pelo menos uma das políticas controversas de Bush: a permissão concedida à CIA para disparar mísseis contra supostos esconderijos de terroristas na região tribal do Paquistão. Por enquanto, contudo, a mudança em Washington parece ter incomodado os líderes da Al-Qaeda."Há um grande grau de incerteza em relação ao que eles enfrentarão contra este novo adversário", disse Paul Pillar, ex-agente de combate ao terrorismo da CIA. "Para a Al-Qaeda, em termos de imagem e atitude, Bush fora um contraste quase perfeito." Os ataques da Al-Qaeda dirigidos contra Obama começaram durante as semanas que antecederam a eleição, quando os comentaristas políticos das páginas da internet associadas ao grupo debateram sobre os dois principais candidatos, indagando qual deles seria melhor para o movimento jihadista.Apesar de haver divergência entre as opiniões, uma visão consensual indicou que o senador John McCain era quem apresentava maior probabilidade de dar sequência às políticas da administração Bush.Pouco depois da eleição, os ataques se tornaram pessoais e ofensivos. Na mensagem divulgada em 16 de novembro, Zawahiri denunciou Obama como "diametralmente oposto aos negros americanos de valor" como Malcolm X.Desde então, conforme Obama começou a agir para reverter as controversas políticas da administração Bush, os ataques verbais se tornaram mais agressivos e frequentes. Em 6 de janeiro, Zawahiri divulgou uma mensagem pedindo uma jihad global por parte dos muçulmanos para combater a campanha militar de Israel em Gaza. "Estas investidas militares são o presente que Obama lhes envia antes de assumir o cargo", disse Zawahiri. Dias antes da posse, o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, fez uma previsão zombeteira, afirmando que o novo presidente seria sufocado pelo peso dos fardos militares e econômicos que herdaria.Rita Katz, fundadora da Site Intelligence Group (empresa que monitora as comunicações de jihadistas), disse que as mensagens mostram "como a Al-Qaeda se sente intimidada por Obama". "A liderança da Al-Qaeda se preocupa muito com o amplo apoio que Obama tem recebido nos países árabes e muçulmanos", disse Rita. "Para combater a ameaça, a Al-Qaeda embarcou numa campanha de propaganda contra Obama, não apenas tentando relacioná-lo às políticas da administração Bush, como também acusando-o de atos dos quais ele não participou."Não importa como Obama seja visto atualmente pelo mundo muçulmano, as opiniões quase certamente mudarão nos próximos meses. Para os países muçulmanos, assim como para os EUA, as opiniões formadas com base na retórica e na imagem logo vão colidir com a realidade conforme as medidas do novo governo comecem a tomar forma. "Inevitavelmente Obama tomará certas decisões que se mostrarão impopulares e serão rapidamente castigadas pelos propagandistas", disse Pillar. "Acredito que, em relação ao mundo muçulmano, a lua de mel será tão frágil e breve quanto em relação ao eleitorado americano."

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