STR / AFP
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Al-Qaeda na Península Arábica captura quartel no sul do Iêmen

No Conselho de Segurança da ONU, enviado especial a Sanaa, Jamal Benomar, diz que situação política é precária e pede ação

O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2015 | 18h09


SANAA - Combatentes da Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), com base no Iêmen, tomaram ontem o quartel-general de uma brigada do Exército iemenita, um revés para os militantes houthis que estão no controle do governo e das forças de segurança do país. Os confrontos deixaram pelo menos sete mortos, incluindo três soldados.

O quartel-general da 19.ª brigada de infantaria fica em Baihan, cidade da Província de Shaba, na região sudeste. A província, reduto dos jihadistas sunitas da AQPA, está fora do domínio da milícia xiita Houthi, que tomou há algumas semanas o poder na capital Sanaa e agora controla o norte do país.

A AQPA, braço iemenita da Al-Qaeda, confirmou por meio de publicações em perfis no Twitter que “controla por completo o acampamento da 19.ª brigada de infantaria de Baihan”.

O ex-chefe de segurança na região, coronel Mubarak Abdullah, confirmou que o quartel-general caiu nas mãos dos militantes. Ele disse que não sabia quantos dos 4 mil soldados da brigada foram presos.

O coronel Abdullah se retirou após a tomada do governo pelo movimento Houthi, mas ainda está no gabinete de segurança no distrito.

O grupo radical publicou fotos de “soldados capturados" e outras de combatentes com bandeira da organização na entrada do acampamento. O comandante da brigada foi solto após uma negociação, disse o coronel Abdullah.

Não ficou claro se a brigada estava sob controle direto dos militantes Houthi, cuja autoridade no sul e leste do país muitas vezes é questionada.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, e seu enviado especial ao Iêmen, Jamal Benomar, informaram ontem o Conselho de Segurança sobre a situação do país.

“O Iêmen está entrando em colapso na nossa frente. Não podemos ficar parados olhando”, disse Ban aos representantes dos 15 países que formam o conselho. “Temos de fazer o que for possível para tirar o Iêmen do abismo e recolocá-lo no rumo do processo político.”

Benomar disse que as negociações para um acordo político fizeram um “bom progresso”, mas ainda eram delicadas.

“O Iêmen está numa encruzilhada – ou o país entra em uma guerra civil e num processo de desintegração ou encontra um meio de retomar o processo de transição”, disse ele, de Sanaa, por meio de uma transmissão via satélite. “A atual instabilidade está criando condições para o retorno da AQPA.”

A embaixadora do Catar na ONU, Sheikha Alya Bint Ahmed bin Saif al-Thani, que representa o Conselho de Cooperação do Golfo, bloco de seis países ricos em petróleo, pediu ação. “É um golpe contra o governo legítimo do Iêmen”, disse ela. "Devemos fazer pressão sobre o (movimento) Houthi para que cesse o uso da força e se retire das instituições do governo."

Na terça-feira, o governo dos Estados Unidos fecharam a embaixada em Sanaa e retiraram os funcionários americanos do país. Na quarta-feira, Grã-Bretanha e França tomaram as mesmas medidas.

Em janeiro, militantes do movimento Houthi tomaram a capital Sanaa, afastaram o governo e colocaram o presidente iemenita, Abdu Rabbo Mansour Hadi, e seu gabinete de ministros em prisão domiciliar, levando a um pedido de demissão coletiva em protesto. Em seguida, os houthis dissolveram o Parlamento e assumiram o governo.

Para entender. A Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA) e outros militantes islamistas sunitas reforçaram ataques no sul do Iêmen desde que os combatentes muçulmanos xiitas houthis do norte tomaram a capital do país em setembro e começaram a expandir pelo país.

O movimento Houthi afastou o governo central no Iêmen, que faz fronteira com a Arábia Saudita. Acredita-se que os rebeldes xiitas têm respaldo do Irã, mas os houthis negam que tenham apoio de Teerã.

O clã Houthi nasceu na Província de Saada, norte do Iêmen, onde se concentra a comunidade xiita zaidi, que representa 30% da população iemenita de 24 milhões de habitantes.

O movimento Houthi foi fundado no início dos anos 90 por Hussei al-Houthi, líder tribal e religioso. Era um movimento xiita pacífico, mas, à medida que cresceu, passou a lutar por mais poder e autonomia.

A AQPA, também conhecida como Ansar al-Sharia, é um dos braços mais ativos da Al-Qaeda, responsável por ataques no exterior – estaria envolvida no treinamento de Amedy Coulibaly, extremista que tomou um mercado kosher em Paris e matou quatro reféns. / AP, AFP, NYT e REUTERS

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