Dominique Faget/AP
Dominique Faget/AP

Al-Qaeda no Iêmen elegeu alvos na França, diz militante

Segundo extremista ouvido pela agência Associated Press, grupo dirigiu operação para vingar a honra do profeta Maomé

O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2015 | 20h37



(Atualizada às 23 horas

CAIRO - Um membro da Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP, na sigla em inglês), com sede no Iêmen, afirmou nesta sexta-feira, 9, que o grupo está diretamente ligado ao ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, executado “para vingar a honra do profeta Maomé”. Segundo a Associated Press, o extremista enviou uma nota afirmando que “líderes da AQAP dirigiram a operação e escolheram os alvos cuidadosamente”.

Pouco depois, em discurso divulgado pela AQAP, um de seus principais teóricos da sharia (lei islâmica), Harith al-Nadhari, comenta sobe os “abençoados ataques contra Paris” e ameaça a França de novos ataques caso o país não pare de combater o Islã e de “entrar em guerra com Deus e combater os muçulmanos”. “Alguns filhos da França faltaram com respeito aos profetas de Alá, então um grupo entre os Seus soldados marcharam contra eles e lhes ensinaram a respeitar os limites da liberdade de expressão”, afirma Al-Nadhari na mensagem divulgada no YouTube.

O ataque contra o jornal satírico também se enquadraria nos avisos que Osama bin Laden, fundador e líder da Al-Qaeda, morto em 2011, enviou ao Ocidente sobre “as consequências de insistir blasfemando contra as santidades muçulmanas”. O militante da AQAP explicou que o grupo demorou para assumir a autoria do ataque “por questões de segurança”.

Testemunhas do ataque de quarta-feira contra o semanário afirmaram à polícia francesa que Said Kouachi alegou, durante a ação, tratar-se de um ataque do grupo iemenita. Ele e seu irmão, Chérif, foram mortos ontem depois de dois dias de caçada das autoridades francesas.


Desde o início dos anos 2000, os irmãos Kouachi faziam parte de um grupo de jovens muçulmanos radicais em Paris. Chérif, de 32 anos, foi condenado, em 2008, a três anos de prisão depois de ser detido quando viajaria para o Iraque. Said, de 34 anos, esteve no Iêmen, em 2011, onde recebeu treinamento militar, segundo fontes americanas.

Ambos eram vinculados à Rede de Buttes-Chaumont, que recrutava combatentes para a jihad no Iraque. Quando desmontou a rede, a polícia francesa descreveu Chérif como um jovem que “odiava os infiéis” e tinha intenção de agir na França. Seus vizinhos em Gennevilliers, no noroeste de Paris, onde vivia com a mulher, no entanto, afirmavam que ele era um homem “prestativo” e “educado”.

Já Said frequentou uma universidade fundamentalista no Iêmen antes de receber treinamento militar da Al-Qaeda para o manejo de armas. Segundo um colega, ele visitou Sanaa pela primeira vez em 2009 – há relatos de que esteve no país em outras ocasiões até 2013. Autoridades de segurança iemenitas acreditam que, nesse período, ele teria recebido um treinamento para o manejo de armas no sul e no sudeste do país.


“Sem dúvida, a passagem pelo Iêmen não foi o elemento desencadeador”, afirma Laurent Bonnefoy, professor do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po), de Paris. Para o especialista, o assustador é saber que “esse homem (Said), que figurava nas lista do terrorismo, não tenha sido interceptado nas fronteiras”. “Houve falha dos serviços francês e iemenita.”

Na vida pessoal, quando adolescentes, os dois irmãos, de origem argelina, ficaram sob cuidado dos serviços sociais, entre 1994 e 2000, em um centro educativo francês. O chefe do local, Patrick Fournier, os descreveu como “perfeitamente integrados e sem problemas de conduta”.

Said e Chérif seguiram cursos religiosos do jovem emir Farid Benyettou em casas ou mesquitas de Stalingrad, um bairro popular do nordeste de Paris. A partir de 2003, Chérif se converteu, o que o levou, entre outras coisas, a parar de fumar maconha e a respeitar os ritos religiosos, segundo fontes próximas ao caso.


Benyettou apoiava a Jihad no Iraque, um tema que tratou com Chérif, a quem dizia que, neste contexto, o Islã considera legítimos os atentados suicidas.“Quando Benyettou falava comigo, eu tinha a impressão que, de certa maneira, ele me dizia: ‘Vê? As provas estão diante de você’”, disse Chérif aos investigadores que o interrogaram em 2005. Naquele momento, ele negou qualquer intenção de agir na França e não foi processado.

No entanto, durante a investigação, Benyettou, que o descreveu como “muito impulsivo e muito agressivo”, afirmou que Chérif Kouachi teria falado “sobre sua intenção de atacar a comunidade judaica em Paris antes de participar da jihad”.

Em 2004, Chérif manifestou a Benyettou seu desejo de viajar ao Iraque. O emir confiou-lhe a missão de “se unir ao grupo de Abu Musab al-Zarqawi”, líder naquele momento do braço iraquiano da Al-Qaeda.


Segundo testemunhas, ele não viajou para o Iraque. Em 2005, foi detido antes de pegar o voo rumo à Síria, de onde partiria para Bagdá. Na época, Chérif disse que já não estava tão decidido e havia seguido seus planos por orgulho, segundo fontes próximas ao caso.

Na prisão, ele se encontrou com Djamal Beghal, figura conhecida do islamismo radical francês, que exerceu “uma forte influência” e o levou a “praticar um Islã muito rigoroso”, segundo fontes com conhecimento do caso. Especialistas em islamismo radical acreditam que Chérif finalmente viajou para o Iraque depois de sair da prisão, em 2010, mas essa informação ainda não foi confirmada. / AP, AFP e EFE

 

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