Al-Qaeda perde foco e apoio no mundo islâmico

Rede terrorista de Osama bin Laden continua ativa e perigosa, mas fracassou em seu maior objetivo

Peter Bergen, do Washington Post,

11 de setembro de 2008 | 00h15

Duas décadas após a fundação da Al-Qaeda na cidade fronteiriça paquistanesa de Peshawar por Osama bin Laden e um punhado de veteranos da guerra contra os soviéticos no Afeganistão, o grupo é hoje mais famoso e temido do que nunca. Mas o seu grande projeto - transformar o mundo muçulmano num califado islâmico militante - tem sido, sob todas as perspectivas, um retumbante fracasso.   Veja também: Cristina Pecequilo, da Unesp, analisa os EUA pós-11/9 Veja a linha do tempo dos ataques terroristas   Isto se deve em grande parte à estratégia fantasiosa de Bin Laden para chegar a esta terra prometida. O líder da Al-Qaeda se orgulha de ser um grande estrategista, mas apesar de toda a sua inteligência, capacidade de liderança e carisma, a sua estratégia geral só poderia levar à derrota.   O principal objetivo de Bin Laden é provocar mudanças de regime no Oriente Médio e substituir os governos do Egito e da Arábia Saudita por teocracias à moda do Taleban. Ele acredita que a maneira de conseguir isso é atacar o "inimigo distante" (os Estados Unidos), e então observar enquanto os regimes muçulmanos supostamente ímpios e apoiados pelos EUA, chamados por ele de "inimigos próximos", desmoronam.   Isto poderia ter funcionado se os EUA fossem um tigre de papel capaz de suportar apenas uns poucos golpes da Al-Qaeda. Mas não foi o que aconteceu. A análise de Bin Laden mostrou uma falta de compreensão em relação aos interesses vitais - o petróleo, Israel e a estabilidade regional - que pautam o envolvimento americano no Oriente Médio, e ainda mais em se tratando da indignação que se seguiria ao primeiro ataque direto contra o território continental dos EUA desde que os ingleses puseram fogo na Casa Branca, em 1814.   Resultado oposto   Na verdade, o plano de Bin Laden teve como resultado direto o oposto de uma retirada americana do Oriente Médio. Os EUA agora ocupam o Iraque, e soldados da Otan patrulham as ruas de Kandahar, a antiga capital de fato do Taleban, aliados de Bin Laden. As relações entre os EUA e a maioria dos regimes autoritários árabes estão mais fortalecidas do que nunca, com base no seu objetivo mútuo de derrotar islamitas violentos em busca de sangue americano e da deposição destes regimes. Para a maioria dos líderes, um fracasso estratégico tão completo exigiria uma reavaliação. Mas não para Bin Laden. Ele poderia ter formulado uma nova política depois que as forças americanas derrotaram o Taleban no inverno de 2001, mandando a Al-Qaeda e os seus aliados atacar os esclerosados regimes dos inimigos próximos - ele poderia ter dito aos seus seguidores que, em termos estritamente práticos, provocar a única superpotência do mundo acabaria interferindo claramente com o objetivo da Al-Qaeda de estabelecer regimes ao estilo do Taleban da Indonésia até o Marrocos.   Em vez disso, Bin Laden continua a considerar os EUA o seu principal adversário, como explicou em fitas de áudio e vídeo que divulgou desde 2001. E a Al-Qaeda prejudicou fatalmente a sua pretensão de ser a verdadeira representante de todos os muçulmanos ao matar milhares deles desde o 11 de Setembro de 2001. Estas duas trapalhadas estratégicas são os principais motivos pelos quais a Al-Qaeda está condenada a perder.   Mas não espere que esta derrota ocorra logo. Por enquanto, a Al-Qaeda continua a reunir suas forças, tanto como organização terrorista/insurgente com sede na fronteira entre Paquistão e Afeganistão quanto um modelo em operação para os muçulmanos violentos de todo o mundo. Então como podemos avaliar a força da Al-Qaeda aos 20 anos de idade? Ainda este ano, um acalorado debate eclodiu em Washington entre dois influentes analistas antiterrorismo. O ex-oficial de caso da CIA Marc Sageman diz que a ameaça da organização central da Al-Qaeda já foi em grande parte debelada e avisa que os futuros ataques virão dos soldados rasos de uma "jihad sem líder" - radicais domésticos sem conexão formal com a cúpula de Bin Laden. Do outro lado está o professor Bruce Hoffman, da Universidade de Georgetown, que alerta para o fato de que a Al-Qaeda está em marcha, não em fuga.   Divergências   O debate está longe de ser acadêmico. Se a jihad global de fato ficou sem líder, o terrorismo deixará de ser um dos principais tópicos na lista de problemas de segurança nacional dos EUA e passará a ser uma ameaça administrável, de segundo escalão, como foi durante a maior parte do século 20. Organizações sem líder não são capazes de montar operações espetaculares como o 11 de setembro. Mas se a célula central da Al-Qaeda é tão forte quanto Hoffman pensa, os EUA precisam organizar suas políticas no Oriente Médio, no sul da Ásia e em casa em torno desta ameaça durante décadas.   A visão de Sageman da ameaça sem líder é amplamente compartilhada pelas principais autoridades antiterroristas da Europa, que me disseram não encontrar prova alguma de operações da Al-Qaeda nos seus países. Baltazar Garzon, um juiz que investiga grupos terroristas na Espanha há uma década, diz que apesar de Bin Laden continuar a ser "um ponto de referência fundamental" para a Al-Qaeda, ele não vê a impressão digital da organização nos seus últimos inquéritos.   Mas esta visão não é compartilhada pelas principais autoridades antiterroristas no Reino Unido e nos EUA. Uma Estimativa Nacional de Inteligência americana de 2007 concluiu que a Al-Qaeda estava ficando mais forte, não mais fraca.   Por que tamanha disparidade nas avaliações? Principalmente porque as autoridades americanas e britânicas estão levando em consideração um novo e alarmante fenômeno, o mortífero elo que está se desenvolvendo entre alguns muçulmanos britânicos militantes e o novo quartel-general da Al-Qaeda nas fronteiras sem lei do Paquistão. A lição aprendida com os bombardeios no metrô de Londres em julho de 2005, o plano frustrado para derrubar aviões transatlânticos em 2006 e diversos outros complôs enervantes desmascarados no Reino Unido é que a radicalização de baixo para cima descrita por Sageman se torna verdadeiramente letal apenas quando os pretendentes domésticos conseguem fazer contato com o grupo que tanto preocupa Hoffman, a central da Al-Qaeda no Paquistão. "Um punhado de exaltados num café de esquina é pouca coisa," disse Michael Sheehan, que até 2006 era o vice-comissário de polícia de Nova York contra o terrorismo. "A central da Al-Qaeda é com freqüência o elemento crítico responsável pela transformação dos exaltados em uma célula realmente capaz." E é por isso que é tão preocupante o fato de as autoridades antiterroristas terem reparado em dúzias de europeus encontrando seu caminho até as áreas tribais do Paquistão nos últimos dois anos.   Grande mudança   Trata-se de uma grande mudança. Até 2006, os jihadistas europeus mais dedicados teriam viajado ao Iraque. Mas o número deles que o faz reduziu-se a quase zero, de acordo com diversas autoridades antiterroristas da Europa. Isto se deve ao fato de a organização afiliada à Al-Qaeda no Iraque ter cometido algo semelhante ao suicídio.   A Al-Qaeda no Iraque já controlou vastos trechos do território sunita e ajudou a detonar uma guerra civil ao atacar os xiitas do Iraque. Mas quando o grupo impôs medidas ao estilo do Taleban, como a proibição ao fumo e ao ato de se barbear, à população sunita do Iraque, e começou a matar outros insurgentes que não partilhavam da sua visão ultrafundamentalista, outros sunitas se voltaram contra ela. Hoje a Al-Qaeda está morta no Iraque, ao menos enquanto organização insurgente capaz de impor sua vontade à população em geral. Ela ainda é capaz de realizar atrocidades em larga escala, é claro, e ainda poderia estragar novamente a frágil trégua no Iraque ao atacar os xiitas iraquianos. Mas no momento, a Al-Qaeda está em fuga no Iraque, desmoralizada e cercada por inimigos.   Embora isto seja uma boa notícia para o Iraque, há sinais alarmantes em outra parte. A região da fronteira entre Afeganistão e Paquistão, uma área onde os jihadistas operam quase impunemente, tornou-se um pólo de atração para combatentes estrangeiros. Um desenvolvimento particularmente preocupante: a central da Al-Qaeda agora exerce grande influência ideológica sobre Baitullah Mehsud, o novo líder do movimento Taleban dentro do Paquistão, que prometeu atacar Nova York e Londres.   No país vizinho, Afeganistão, o Taleban também adotou cada vez mais a visão de mundo de Bin Laden e suas táticas, as quais os ajudaram a lançar uma insurgência perigosamente eficaz com base em seguidos ataques suicidas e no uso hábil de dispositivos explosivos improvisados.   Mídia   E a influência de Bin Laden vai muito além do teatro afegão-paquistanês. As mesmas autoridades antiterroristas da Europa continental aliviadas por não encontrar células centrais da Al-Qaeda nos seus próprios países agora se preocupam com o fato de a aliada norte-africana de Bin Laden, a Al-Qaeda do Magreb, estar encontrando recrutas entre os mal integrados imigrantes africanos vivendo na França, Bélgica, Espanha e Itália.   A guerra da Al-Qaeda pela conquista de corações e mentes também prossegue. Bin Laden certa vez comentou que 90% da sua batalha é travada na mídia - e nesta arena, além de qualquer outra, ele permanece tão relevante quando vanguardista. O guia mais confiável para aquilo que a Al-Qaeda e o movimento jihadista como um todo irão fazer tem sido há muito as declarações públicas de Bin Laden.   Desde o 11 de Setembro, Bin Laden divulgou mais de duas dúzias de fitas, de acordo com a IntelCenter, uma prestadora de serviços para o governo que acompanha as atividades de propaganda da Al-Qaeda. Estas mensagens chegaram a incontáveis milhões através da televisão, internet e jornais. As fitas pedem aos seguidores da Al-Qaeda que continuem a matar ocidentais e judeus, e algumas trazem instruções específicas para as células militantes. No último ano, por exemplo, Bin Laden pediu por ataques contra o Estado paquistanês - um dos motivos pelos quais o Paquistão testemunhou mais ataques suicidas em 2007 do que em qualquer outro período da sua história.   Apesar do recente ressurgimento da Al-Qaeda, acho muito improvável que o grupo seja capaz de atacar dentro das fronteiras americanas nos próximos cinco anos. No passado, os terroristas da Al-Qaeda tentando atacar o território dos EUA tiveram de invadi-lo a partir de outro ponto de entrada, como o fizeram os agentes responsáveis pelo 11 de setembro. Nenhum dos complôs anteriores bem sucedidos dependeram de "células dormentes" da Al-Qaeda por aqui, e há poucas provas de que tais células existam hoje. Além disso, os EUA são hoje um alvo muito mais difícil do que antes do 11/9. O governo americano está em alerta, assim como os cidadãos comuns.   Terroristas domésticos poderiam realizar ataques de pequeno alcance dentro dos EUA, apesar de a comunidade muçulmana americana, muito mais bem integrada do que a sua equivalente européia, ter produzido poucos radicais violentos. E a própria Al-Qaeda continua bastante capaz de atacar uma ampla variedade de interesses americanos no exterior, matando soldados dos EUA no Iraque e no Afeganistão e fazendo das embaixadas americanas os seus alvos. Mas no geral, temos hoje menos a temer da Al-Qaeda do que em 2001.   Excelente segurança   Tudo estaria muito melhor se tivéssemos conseguido matar ou capturar o inovador chefe da Al-Qaeda. Mas a caçada a Bin Laden liderada pelos EUA não está obtendo resultado. Washington não teve mais pistas sólidas quanto ao seu paradeiro desde que transmissões de rádio interceptadas o colocaram na batalha de Tora Bora no leste do Afeganistão em dezembro de 2001. Um bom número de autoridades de inteligência dos EUA supõe que ele esteja agora próximo das áreas tribais do Paquistão, ou mesmo dentro delas - um esconderijo especialmente difícil, de acordo com Arthur Keller, ex-agente da CIA que administrava uma rede de espiões no local em 2006.   Keller me disse que os líderes da Al-Qaeda dispõem de excelente segurança operacional. "Eles receberam uma educação darwiniana quanto àquilo que pode denunciá-los, e as suas habilidades melhoraram conforme nós eliminamos alguns dos membros menos cuidadosos da organização", destacou ele. "Eles estão se escondendo em meio a um mar de pessoas extremamente xenofóbicas em relação a forasteiros, o que faz deste esconderijo algo extremamente difícil de vasculhar."   Não obstante o destino de Bin Laden, os muçulmanos de todo o mundo estão cada vez mais enxergando o seu grupo e as suas operações suicidas com maus olhos. No final da década de 1990, Bin Laden era um herói folclórico para muitos muçulmanos. Mas desde 2003, conforme a Al-Qaeda e seus associados mataram civis muçulmanos aos milhares desde Casablanca até Cabul, o apoio a Bin Laden diminuiu muito, de acordo com pesquisas realizadas pela Pew em alguns dos principais países muçulmanos, como Indonésia e Paquistão.   Aos 20 anos de idade, a Al-Qaeda está perdendo a sua guerra, mas a sua influência perdurará. Conforme destaca Michael Scheuer, que fundou a unidade da CIA contra Bin Laden em 1996, "a missão deles foi cumprida: instigação e inspiração em escala mundial". Infelizmente para nós, este legado vai durar, mesmo depois que a Al-Qaeda for derrotada.   *Bergen é bolsista da Fundação New America e do Centro de Lei e Segurança da Universidade de Nova York.   Tradução de Augusto Calil

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