Al-Qaeda pode sobreviver à caça de Bin Laden

Tropas dos Estados Unidos e caçadores de recompensa afegãos podem eventualmente pegar Osama bin Laden e seus lugares-tenentes, mas especialistas advertem que isso não significará o fim de sua rede terrorista Al-Qaeda. Um das ameaças mais sérias, dizem os especialistas, vem de centenas de muçulmanos que na última década receberam treinamento militar em campos organizados pela Al-Qaeda no Afeganistão e que, posteriormente, retornaram às suas vidas normais em seus países de origem. Muitos permanecem comprometidos com a causa, tornando-se membros das células "adormecidas".Outra ameaça, afirmam eles, vem de veteranos das guerras contra as tropas soviéticas de ocupação no Afeganistão na década de 80. Muitos desses homens "sentem saudade dos dias da guerra", disse Dia´a Rashwan, um especialista em grupos islâmicos. "Eles vêem o que os Estados Unidos estão fazendo no Afeganistão como uma guerra religiosa mundial na qual o Islã está de um lado e do outro está uma superpotência que ataca sem piedade. Isso coloca diante de nós uma possibilidade real de essas pessoas organizarem ataques contra os Estados Unidos, Grã-Bretanha ou Israel".No longo prazo, afirmam os especialistas, Bin Laden e seus combatentes podem se tornar uma fonte de inspiração para militantes muçulmanos em todo o mundo. Bin Laden, o principal suspeito dos atentados terroristas de 11 de setembro, já está se transformando numa espécie de herói popular para jovens árabes, aparecendo em pôsteres em manifestações anti-EUA e como imagem em telas de telefones celulares.A amplitude do perigo apresentado pelas células adormecidas foi manifestada quando se soube que três dos quatro pilotos seqüestradores de 11 de setembro viveram calmamente por anos como estudantes em Hamburgo, Alemanha, enquanto planejavam os ataques. O suposto líder da célula era o egípcio Mohammed Atta, que, segundo investigadores, pode ter sido treinado no Afeganistão durante uma ausência de dois anos de Hamburgo em meados dos anos 90.Detenções na Espanha, França, Holanda, Canadá, Grã-Bretanha e Estados Unidos nos dois meses e meio após os atentados nos EUA revelaram outras supostas células da Al-Qaeda. "O perigo apresentado pela Al-Qaeda vai continuar", disse Mohammed Salah, outro especialista sobre grupos islâmicos que escreve para o jornal Al-Hayat, baseado em Londres. "O perigo está em sua rede fora do Afeganistão e não em seus combatentes no país".Os especialistas também afirmam que, provavelmente, muitos líderes e combatentes da Al-Qaeda já tenham escapado da rede lançada pelos Estados Unidos e os vizinhos do Afeganistão. "Alguns irão sobreviver para lutar um outro dia", disse Rohan Gunaratna, do Centro para o Estudo do Terrorismo e Violência Política, da Universidade Saint Andrews, Escócia. "Depois de sua esmagadora derrota, eles vão começar a agir como faz qualquer organização criminosa, ou seja, vão se mudar para outra área onde existam oportunidades".O secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, disse esta semana que, se tiverem permissão de partir, lutadores árabes e outros estrangeiros no Afeganistão cometeriam novos atos terroristas. "Minha esperança é que eles sejam mortos ou feitos prisioneiros", afirmou. Membros da Al-Qaeda que consigam escapar do Afeganistão terão de escolher entre encontrar um novo palco da guerra santa em, digamos, Chechênia, Caxemira ou as Filipinas - locais vistos por muitos muçulmanos como campos de batalha contra infiéis opressores - ou voltarem sorrateiramente para seus países de origem, onde muitos são procurados sob acusações de terrorismo. Alguns têm condenações a pena de morte à sua espera. Mas os combatentes da Al-Qaeda têm provado que podem forjar documentos de viagem e encontrar locais onde possam viver sem serem percebidos.Depois da retirada soviética de 1989 do Afeganistão, muitos lutadores árabes preferiram partir ao invés de participar da subseqüente guerra civil entre facções afegãs. Eles conseguiram refúgios em locais tão distantes quanto o Azerbaijão, Albânia, Sudão, Somália, Iêmen, Tailândia, Europa Ocidental e América do Sul.Buscar asilo no Ocidente e usar sua estada para formar novas células, avaliam os especialistas, pode ser agora extremamente difícil, já que leis antiterroristas e a segurança foram extremamente intensificadas em possíveis destinações como Grã-Bretanha, Alemanha e Espanha. "O espírito pode estar quebrado, mas a Al-Qaeda tem uma estrutura de comando suficiente para manter-se em operação numa era pós-Afeganistão", disse Gunaratna. Leia o especial

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