Al-Qaeda pode tomar armas de rebeldes líbios

Medo de que equipamento caia nas mãos de rede terrorista aumenta resistência do Ocidente em fornecer arsenal

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PARIS

Na sexta-feira, em Moscou, o embaixador da Líbia na Rússia, Amir al-Arabi Ali Gharib, advertiu a comunidade internacional que a rede terrorista Al-Qaeda pode estar desviando armas de depósitos líbios para equipar seus arsenais. O alerta é um dos raros pontos de consenso entre o regime de Muamar Kadafi e os líderes políticos e militares da coalizão liderada por França e Grã-Bretanha.

O temor de que a rede terrorista possa tirar proveito do caos para reforçar seu poder de fogo é uma das razões pelas quais a coalizão tem resistido a fornecer as armas reivindicadas pelo Conselho Nacional Provisório - para que tenha condições materiais de derrotar Kadafi.

O temor foi confirmado à reportagem do Estado por diplomatas europeus. O medo ecoa as experiências negativas do Iraque de Saddam Hussein e do Afeganistão do Taleban, que foram armados pelos Estados Unidos nos conflitos contra o Irã e a União Soviética, respectivamente, nos anos 80.

Não que o movimento insurgente na Líbia seja ligado à Al-Qaeda, como afirma Kadafi. No entanto, o receio é de que a Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), a sucursal do grupo comandado por Osama bin Laden no norte da África, tire proveito do caos no interior da Líbia.

Em razão do conflito, estoques de munições, explosivos, metralhadoras AK-47, lança-granadas, lança-foguetes antitanque RPG-7 e até mísseis terra-ar estariam ao alcance do tráfico ou sujeitos a saques. "No contexto de anarquia entre os rebeldes, esses equipamentos podem facilmente cair nas mãos de ativistas da Al-Qaeda", sustenta Ali Gharib, fiel a Kadafi.

Há 20 dias, James Stavridis, oficial americano da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), fez diagnóstico semelhante ao chamar a atenção para os "sinais" de presença da Al-Qaeda e do Hezbollah na Líbia.

Ao jornal Le Figaro, Mike Shereur, ex-dirigente da CIA, também advertiu que a doação de armas aos rebeldes pode, no futuro, acabar por alimentar redes terroristas. "É preciso que sejamos muito vigilantes quando falamos em dar armas aos rebeldes", ponderou.

O receio de que terroristas se aproveitem da situação e se apropriem de armas destinadas aos insurgentes também se verifica entre os vizinhos da Líbia, como a Argélia e a Tunísia.

Os serviços de segurança desses países já trabalham para tentar evitar dois cenários: a fuga dos mercenários armados contratados por Muamar Kadafi e a consequente venda das armas a grupos terroristas.

Além disso, teme-se que o próprio regime líbio, na eventual iminência de uma derrota, franqueie o acesso aos arsenais de forma a desestabilizar o governo dos rebeldes do Conselho Nacional Provisório.

"Há redes de aprovisionamento de armas que vêm do Egito, via Irmandade Muçulmana, com o apoio do Hezbollah. E agora também há pessoas do Hamas que vêm comprar armas na região leste da Líbia", explica Pascal Le Pautremat, cientista político francês e doutor em conflitos contemporâneos.

Pedido. Apesar das temores, os rebeldes continuam a solicitar armas aos países da coalizão, em especial nos encontros com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e com o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron. Na quarta-feira, o "chanceler" do governo rebelde, Ali al-Assaoui, disse preferir o armamento à presença militar de soldados ocidentais na Líbia.

De acordo com ele, o conselho não precisa de tropas franco-britânicas porque pode eventualmente contar com reforços de voluntários de outros países árabes "se a situação exigir". Para habilitar os grupos de voluntários ao combate, restam dois problemas: treinamento e armas.

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