Hyungwon Kang/Reuters
Hyungwon Kang/Reuters

Al-Qaeda quer ver EUA 'sangrarem até a bancarrota'

Livro mostra por que política de 'segurança a qualquer custo' está fazendo país perder a guerra contra o terror

J. M. Berger, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2011 | 00h00

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

 

FOREIGN POLICY - Que tal se alguém surgisse com uma abordagem fantástica sobre como sobreviver à guerra ao terror e ninguém escutasse? Esse é o dilema em Bin Laden"s Legacy: Why We"re Still Losing the War on Terror (O legado de Bin Laden: por que ainda estamos perdendo a guerra ao terror, em tradução literal), o novo livro do especialista em contraterrorismo Daveed Gartenstein-Ross.

 

Veja também:

documento ESPECIAL: Dez anos do 11/09

som ESTADÃO ESPN: Série especial

forum PARTICIPE: Onde você estava quando soube dos atentados?

mais imagens GALERIA: Imagens do 11/09

Trata-se de uma obra notável. Em uma narrativa que consegue ser ao mesmo tempo concisa e abrangente, o autor expõe os múltiplos campos de batalha e as estratégias concorrentes da Al-Qaeda e dos Estados Unidos.

A abordagem americana, tal como Gartenstein-Ross a descreve à exaustão, é definida pela extravagância e a segurança a qualquer preço. Por uma combinação de equívocos, hipervigilância e medo político, qualquer programa para oferecer um pingo de tranquilidade ao público americano se encaixa nesse ambiente, seja a tecnologia de ficção científica para aeroportos ou uma comunidade secreta tão grande que ninguém sabe quantas pessoas emprega. Isso resulta em gastos imensos com segurança e benefícios por vezes marginais, por vezes inexistentes.

É exatamente essa a estratégia da Al-Qaeda: induzir os Estados Unidos a gastos perdulários e engajamentos militares intermináveis, prevendo o eventual colapso econômico do país.

Inspirada na visão romanesca de Osama bin Laden sobre a vitória dos mujahedin contra a União Soviética no Afeganistão, a rede terrorista definiu como estratégia sangrar os Estados Unidos até a bancarrota. Isso não pressupõe um sucesso tático tradicional. Nos últimos anos, a Al-Qaeda aprendeu que mesmo seus fracassos operacionais produziam gastos para os EUA.

Gartenstein-Ross não é a primeira pessoa a assinalar esse enigma, mas seu livro é o primeiro a trazer uma análise abrangente das evidências do sucesso da Al-Qaeda.

Um dos mais memoráveis exemplos é o pacote-bomba usado pela Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP, na sigla em inglês), em outubro. Duas bombas foram disfarçadas como cartuchos de impressora e embarcadas para os EUA via FedEx. Ambas foram interceptadas antes de serem detonadas. Em sua revista de propaganda publicada em inglês, a Inspire, a AQAP explicou que o plano custou apenas U$ 4,2 mil e chamava-se "Operação Hemorragia", pois o objetivo era fazer o Ocidente gastar "bilhões de dólares para inspecionar cada pacote do mundo" ou, como definiram, "sangrar o inimigo até a morte".

Emboras alguns possam discutir sobre detalhes do livro de Gartenstein-Ross, as conclusões são impossíveis de ignorar. O autor é apolítico e impiedoso na análise dos equívocos dos EUA como não escutar quando líderes da Al-Qaeda alegremente delinearam seu plano de levar o país à bancarrota, bravateando com exemplos específicos de como estava funcionando.

Bin Laden"s Legacy traz recomendações para reduzir os gastos dos EUA com segurança. Mais importante, Gartenstein-Ross defende a despolitização do tema, pondo fim à corrida entre democratas e republicanos para ver quem consegue gastar mais como prova de "seriedade" na luta contra o terrorismo. Ele diagnostica com precisão a grandiloquência nos dois lados nas eleições de 2004 e no debate sobre o orçamento que resultou em excessos como os US$ 202 mil para minúscula cidade de Dillingham, no Alasca, instalar 70 câmaras de vigilância. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

J. M. BERGER É EDITOR DO SITE INTELWIRE.COM

Terrorismo barato

US$ 4,2 MIL foi o custo das bombas disfarçadas como cartuchos de impressora e enviadas aos EUA pela Fedex. A correspondência foi interceptada, mas rede terrorista diz que o objetivo da ação era fazer o Ocidente gastar "bilhões de dólares para inspecionar cada pacote do mundo"F

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.