Naseer Ahmed/Reuters
Naseer Ahmed/Reuters

Al-Qaeda sem Bin Laden perde carisma

Ayman al-Zawahiri, novo líder, precisa de um golpe espetacular para provar que a rede terrorista é capaz de agir sob seu comando

Yassin Musharbash, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2011 | 00h00

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro      

 

 

DER SPIEGEL / ISLAMABAD - Durante anos, o carismático Osama bin Laden foi a face interna e externa da Al-Qaeda. Nos últimos quatro meses, porém, a rede terrorista teve de se virar com o maçante Ayman al-Zawahiri no topo. Analistas acreditam que a falta de um líder inspirador ponha os jihadistas sob pressão.

 

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Uma semana após os ataques terroristas a Nova York e Washington, em 11 de setembro de 2001, o agente da CIA Gary Schroen estava em um avião rumo ao Afeganistão. Ele levava seis homens escolhidos a dedo, laptops, equipamentos de rádio, café solúvel e US$ 3 milhões em notas de cem. Sua missão: capturar Bin Laden, matá-lo e trazer sua cabeça em uma caixa com gelo seco. É assim que Schroen se recorda da ordem dada pelo chefe de operações de contraterrorismo da agência, Cofer Black.

Schroen não conseguiu cumprir a missão. Foi somente nove anos e meio mais tarde, em 1º de maio, que o chefe da Al-Qaeda foi morto em seu esconderijo em Abbottabad, no Paquistão. E a cabeça do terrorista saudita não foi levada a Washington. Segundo a Casa Branca, soldados americanos sepultaram Bin Laden no Mar da Arábia.

Durante quase uma década, esse homem emaciado de feições instantaneamente reconhecíveis, os olhos grandes e voz macia e estranha foi a imagem que o público associou à Al-Qaeda. Quando ele divulgava uma nova mensagem, via internet ou Al-Jazira, sempre causava alvoroço. Analistas em países de todo o mundo trabalhavam dobrado para traduzir o texto do árabe, interpretar o que ele significava e ajustar a própria análise de riscos de acordo com ele.

As mensagens do subsolo também suscitavam muito interesse em fóruns jihadistas na internet. O "Emir" - como seus seguidores chamavam Bin Laden - só se revelava duas ou três vezes por ano, de modo que eles prestavam atenção para ver o que o líder esperava deles. Uma vez, pediu vingança pelas caricaturas de Maomé. Em outra, renovou suas ameaças contra os EUA.

Em suas últimas mensagens, falou sobre mudança climática e globalização. Nem sempre ficava claro o que ele pretendia, mas a evidência de que estava vivo era razão suficiente para celebração dos apoiadores da Al-Qaeda. No fim, os EUA o pegaram. E, desde a morte de Bin Laden, o novo "emir" da Al-Qaeda tem sido o egípcio Zawahiri. Ele é médico, terrorista, praticante de assassinato em massa - e também um homem muito chato. A Al-Qaeda conseguiu que a sucessão ocorresse sem disputas abertas e todas as principais facções parecem ter reconhecido o novo chefe.

Alguma coisa mudou, contudo. Assim como a eliminação de Bin Laden foi da maior importância simbólica para os EUA, seu rosto era fundamental para a Al-Qaeda e seus seguidores. Zawahiri foi um membro fundador da Al-Qaeda e faz parte da rede há muito tempo. Mas ele não empolga. É visto como maçante e professoral. Seu ponto de partida é difícil.

"Tão difícil, aliás, que ele deve exceder as expectativas de seu mandato porque essas expectativas são incrivelmente baixas", diz Williams McCants, especialista em terrorismo. A despeito disso, segundo McCants, Zawahiri é também um "revolucionário calejado e mais pragmático do que seu antecessor". "Isso coloca a organização em boa posição para lidar com as complexidades criadas pela primavera árabe."

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