AP Photo/Andre Penner
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Alan García levou Peru à hiperinflação e voltou ao poder

Ex-presidente, morto nesta quarta-feira após atirar na própria cabeça para evitar ser preso pelo caso Odebrecht, foi um dos estadistas mais experientes do país, comandado por ele de 1985 a 1990 e de 2006 a 2011

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2019 | 16h52

LIMA - Um dos estadistas mais experientes do Peru, o duas vezes presidente Alan García foi encurralado pelas ramificações da rede de corrupção da empreiteira brasileira Odebrecht que também colocaram sob análise da Justiça outros três ex-chefes de Estado do país.

García, de 69 anos, morreu nesta quarta-feira, 17, em consequência de um ferimento a bala na cabeça depois que ele tentou se matar em sua casa, pouco antes de ser detido pela polícia em um caso vinculado ao escândalo Odebrecht.

O cerco da investigação da Odebrecht começou a diminuir de forma convincente a figura de García no final do ano passado, quando ele fracassou em sua tentativa de obter asilo no Uruguai para evitar as consequências da investigação por suspeita de corrupção.

Em novembro, ele foi para a embaixada uruguaia em Lima, onde pediu asilo alegando "perseguição política". Montevidéu rejeitou o pedido e, depois de 16 dias, García teve voltar para casa.

Foi a primeira vez, em uma prolífica carreira política de quatro décadas, que o líder social-democrata peruano enfrentou problemas legais.

Nascido em Lima, em 23 de maio de 1949, era pai de seis filhos de três relacionamentos diferentes, e também tinha um neto. Até o ano passado, morou entre Lima e Madri, onde sua atual parceira vivia com seu filho mais novo.

Profissão: sobrevivente

Apesar da impopularidade que se seguiu ao desastre econômico de seu primeiro governo (1985-1990), ele conquistou a presidência novamente em 2006, à frente da Aliança Popular Revolucionária Americana(Apra), o partido mais antigo e sólido do Peru. 

Sua reeleição poderia ser explicada por ele ter como rival no segundo turno o nacionalista militar Ollanta Humala, identificado com o então presidente venezuelano Hugo Chávez.

Garcia foi o mal menor, explicou, à época, o Prêmio Nobel peruano Mario Vargas Llosa.

Os analistas consideravam que sua ressurreição política se devia, além disso, a suas qualidades extraordinárias como candidato, o que permitia a ele neutralizar os fantasmas de seu primeiro governo e se mostrar como alguém mais tranquilo e sem as explosões impulsivas que o levaram a ser chamado "Cavalo Louco".

"Só Deus e os imbecis não mudam", declarou o ex-presidente para reforçar seu mea-culpa e sua metamorfose, deixando de ser um promotor da intervenção estatal na economia e abraçando o livre-mercado.

Sua primeira administração havia deixado a nação em uma profunda crise econômica e moral. Sua política econômica foi marcada por um severo controle do câmbio, pela nacionalização do sistema bancário e por uma inflação anual de mais de 7.600% em 1990.

Exílio e regresso

A violência terrorista do grupo maoísta Sendero Luminoso atingiu o auge, porém, durante seu primeiro governo, que foi acusado tanto de ineficiência quanto de excessos na luta antissubversiva, incluindo a formação de esquadrões da morte.

Essas acusações, assim como as de corrupção que o governo de Alberto Fujimori (1990-2000) queria lhe impingir, não deram em nada.

Perseguido após o autogolpe de Fujimori em 1992, García pediu asilo na Colômbia, e depois na França, retornando ao Peru em 2001, quando todas as acusações contra ele estavam prescritas.

Em sua segunda presidência, de 2006 a 2011, adaptou-se à atual economia neoliberal, a qual renegara em seu primeiro governo e conseguiu apagar as más lembranças que havia deixado.

A sombra da corrupção continuou a persegui-lo, porém. Nos últimos meses, as pesquisas mostravam que Alan García era o político mais impopular do Peru, com uma rejeição de 80%. / AFP

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