EFE/EPA/ALEXANDER SCHIPPERS
EFE/EPA/ALEXANDER SCHIPPERS

Alarmados, governos da União Europeia criticam Washington

Berlim afirma que luta contra o terrorismo não pode se tornar ‘suspeita generalizada’; Paris também criticou decreto de Donald Trump e alertou para a necessidade de defender princípios democráticos

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

29 Janeiro 2017 | 20h40

GENEBRA - Preocupados com a possibilidade de terem de lidar praticamente sozinhos com a maior crise de refugiados em 70 anos, governos da Europa lançaram uma crítica aberta à nova política de migrações e de refugiados do presidente americano, Donald Trump. Líderes do continente também estão alarmados com o que ocorrerá aos milhares de cidadãos europeus que também têm nacionalidades que foram banidas pelos EUA.

Quem deu o tom na União Europeia (UE) foi a chanceler alemã, Angela Merkel, que há dois anos conduziu seu país a uma abertura inédita de suas fronteiras para receber refugiados sírios. “A chanceler lamenta a medida do governo americano contra refugiados e cidadãos de certos países”, afirmou ontem Steffen Seibert, porta-voz de Merkel. “Ela está convencida de que a necessária batalha contra o terrorismo não justifica uma suspeita generalizada contra pessoas de uma certa origem ou religião.”

O porta-voz também afirmou que, durante um telefonema no sábado, Merkel precisou “explicar” para Trump a Convenção de Genebra, que obriga países a receber refugiados de guerra. “Todos os países signatários são obrigados a fazer isso e explicamos isso ontem (sábado)”, acrescentou Seibert. 

Apenas em 2015, a Europa recebeu mais de 1 milhão de estrangeiros, enquanto o número total de refugiados reassentados nos EUA foi de 84 mil. Agora, o temor é de que as portas fechadas dos EUA representem uma sobrecarga aos europeus.

O presidente do Conselho de Refugiados da Noruega, Jan Egeland, acusou Trump de estar levando o mundo “a uma corrida para baixo”. “Essas medidas não tornarão os EUA maiores, mas sim menores e mais perversos”, disse.

O presidente francês, François Hollande, também criticou o presidente americano. “Quando ele (Trump) rejeita refugiados, enquanto a Europa assume sua parte, precisamos responder a ele”, disse, alertando para a necessidade de defender princípios democráticos.

O ministro de Relações Exteriores da França, Jean-Marc Ayrault, admitiu que a postura de Washington é “preocupante”, enquanto o chefe da diplomacia alemã, Sigmar Gabriel, indicou que a medida era “uma contradição à tradição americana e cristã de amar seu vizinho”.

No Reino Unido, a primeira-ministra Theresa May se recusou a criticar Trump em uma coletiva de imprensa, indicando que cabe aos americanos decidir qual será sua política de refugiados. Longe das câmeras, porém, seu gabinete explicou horas depois que Londres “não concordava” com a política adotada nos EUA. Irlanda, Suécia e Itália também manifestaram repúdio ao decreto de Trump.

Silêncio. Na ONU, no entanto, as principais agências evitaram criticar Trump e apenas apelaram para que as portas dos EUA fossem mantidas abertas. Dependentes dos recursos da Casa Branca, as entidades fizeram de tudo para não atacar frontalmente seu maior doador.

Leonard Doyle, porta-voz da Organização Internacional de Migrações (OIM), chegou a dizer que “no lugar de criticar a administração de Trump, países deveriam assumir responsabilidades e ser tão generosos como os americanos foram nos últimos dez anos”.

Já o governo do Irã convocou o embaixador da Suíça em Teerã para pedir explicações e alertar que tomaria medidas recíprocas contra americanos. A diplomacia suíça ainda é quem representa os interesses de Washington na capital iraniana. Mas o governo suíço respondeu que discorda da posição da Casa Branca e também fez uma dura crítica a Trump.

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