Alauitas questionam Assad

Até membros do mesmo ramo do Islã do presidente sírio discordam da maneira como o líder combate os rebeldes

HUGH , NAYLOR, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2014 | 02h03

A espinha dorsal do apoio alauita ao presidente Bashar Assad está se enfraquecendo na Síria. Integrantes do grupo minoritário - ao qual o líder pertence - tornaram-se mais críticos sobre como o regime conduz o conflito, nas redes sociais e em raros protestos. Os alauitas, que constituem o cerne das forças de segurança de Assad, evitam cada vez mais o serviço militar obrigatório na guerra que destrói o país há quase quatro anos, durante os quais sua comunidade sofreu um enorme número de vítimas em relação aos sunitas, que lideram a rebelião.

As forças de segurança intensificaram o conflito com prisões e intimidação. Mas, embora poucos acreditem que isso ainda seja uma ameaça imediata a Assad, o aumento da tensão assinala o cansaço da comunidade que é crucial para que o regime possa fazer frente a uma revolta que não dá sinais de acabar. "Os alauitas estão impacientes porque o regime não tem demonstrado grandes progressos para pôr fim à guerra", afirmou Louay Hussein, ativista alauita que vive em Damasco, crítico do regime.

Andrew Tabler, especialista em Síria do Washington Institute for Near East Policy, atribuiu esse sentimento, em parte, à composição da população do país: a maioria sunita da Síria é muito superior ao grupo alauita, ramo do Islã xiita que, antes da guerra, compreendia cerca de 12% da população de 24 milhões. "As pessoas estão se dando conta de que a guerra não acabará tão cedo, que é impossível resolver o problema pelo uso das armas - não com a população da Síria. Lá, o número de sunitas é muito grande."

Embora os alauitas nunca tenham apoiado Assad de maneira coesa, o medo de uma oposição cada vez mais radicalizada impede que eles rompam de maneira consistente com o regime. Vários alauitas contactados para este artigo não quiseram falar, temendo prisão e punição por criticar o regime. No entanto, a comunidade expressa sua frustração cada vez mais. Dezenas de alauitas reuniram-se em Homs depois de dois bombardeios, no mês passado, que mataram cerca de 50 crianças, numa área da cidade em grande parte alauita. Eles exigiram a destituição do governador da província, que não conseguiu impedir os ataques. Embora não chegassem a pedir a derrubada de Assad, eles se recusaram a exibir cartazes com sua imagem.

Pequenos protestos ocorreram também recentemente em áreas alauitas ao longo da costa síria. Em Tartus, foram feitos comícios e distribuídos folhetos incitando as pessoas a "falar" sobre o aumento do número de vítimas e acusando o regime de ter abandonado os soldados que foram capturados e executados pelos extremistas sunitas.

Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede na Grã-Bretanha, o número de mortos entre as forças de segurança é de, no mínimo, 110 mil. Há informações de que aldeias rurais alauitas perderam praticamente todos os homens em idade de prestar serviço militar.

Naser al-Nukkari, um alauita que coordena ações de ativistas na Síria, disse que, nos comícios de Tartus, houve também protestos contra a prisão de homens que se recusaram a se alistar. Analistas, ativistas e a mídia local comentam que se intensificaram os esforços nas áreas controladas pelo regime para prender homens que cada vez mais evitam o serviço militar - e apoiam unidades como a Força de Defesa Nacional, composta de voluntários locais, na maior parte, alauitas. Os esforços do regime procurariam contrabalançar as enormes perdas de mão de obra e a escalada dos ataques nas áreas rebeldes.

Em Tartus, cerca de 5 mil homens não teriam se apresentado à unidade de recrutamento, em janeiro. Ao mesmo tempo, muitos alauitas estão deixando o país. "Estou tomando conhecimento, por várias fontes e em razão de vários acontecimentos, que pessoas que apoiavam o regime estão pensando em deixar a Síria e buscar asilo no exterior", disse Yezid Saygh, membro do Carnegie Middle East Center, com sede em Beirute.

Para os que permanecem, desafiar o regime pode ser perigoso. Um ativista contrário ao regime disse que mais de dez amigos alauitas foram presos pelas forças de segurança nos últimos dois meses por iniciarem um diálogo com líderes de aldeias sunitas. Um deles foi levado para um vilarejo perto da cidade costeira de Latakia e temporariamente mandado para uma prisão, onde foi espancado a ponto de agora precisar de ajuda para andar, segundo o ativista, que não quis se identificar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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