Alca e OMC passam para segundo plano nos EUA

Embora os especialistas insistam em dizer que ainda é cedo para avaliar o impacto dos atentados nos Estados Unidos no cenário das relações internacionais, todos concordam em um ponto: temas comerciais urgentes, como o lançamento de uma nova rodada da Organização Mundial do Comércio (OMC) e as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca ) passam para segundo plano."Agora, o Bush (George W. Bush) tem de se legitimar frente aos eleitores como um líder à altura do país e assumir a segurança do povo como prioridade. Os EUA vão perder interesse na Alca e na OMC", disse o presidente da Sadia, Luiz Fernando Furlan, um dos principais exportadores brasileiros e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)."A prioridade será a segurança, sem dúvida", reforçou o embaixador Bernardo Pericás Neto, subsecretário de Política Bilateral do Itamaraty.Aumento do isolacionismoPara o diretor do Instituto de Estudos Europeus da Universidade Livre de Bruxelas, Mario Telò, o mais provável é que os EUA acentuem a tendência isolacionista já iniciada na administração Bush, voltada exclusivamente para a defesa dos interesses norte-americanos. Essa atitude tem duas vertentes igualmente prejudiciais para o comércio.A primeira delas diz respeito diretamente ao Brasil, que condiciona sua participação na Alca à obtenção de maior acesso ao mercado norte-americano. Neste caso, a hipótese é que os EUA endureçam e não aceitem fazer concessões, deixando o Brasil praticamente sem ganhos com a Alca.O segundo cenário considera que os EUA também perderão o interesse na OMC - embora até hoje o discurso oficial era de que somente no âmbito multilateral Washington discutiria temas como subsídios, barreiras ao comércio e medidas antidumping - com impacto em todo o comércio mundial.Reforço do protecionismo"Tudo o que enfraquecer o sistema multilateral prejudica o Brasil e a América Latina, até porque pode acarretar num reforço do protecionismo. E além da OMC, há organismos multilaterais como o FMI e Bid, por exemplo, extremamente importantes para a região, que podem sofrer retrocesso", completou o diplomata Álvaro Vereda, coordenador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).Vereda acredita que Bush possa ser pressionado pela direita do Partido Republicano para adotar uma política mais isolacionista. Na outra ponta, entretanto, há interesses comerciais concretos do setor privado que podem exigir a manutenção do apoio ao livre comércio.Diante desse cenário, uma outra possibilidade seria os EUA adotarem uma política de multilateralismo qualificado, que significa apoiar apenas as instituições nas quais os EUA têm interesse direto, como a OMC e a Alca, em detrimento de organismos ambientais e de não-proliferação de armas.IndicadoresVereda ressaltou que se poderá comprovar a tendência isolacionista dos EUA com base em alguns indicadores: se Washington recuar no apoio à nova rodada da OMC ou diminuir seus esforços para conseguir a Autoridade de Promoção Comercial (TPA, ou fast track) do Congresso, uma forma de evitar desgaste, ou ainda se conduzir uma retaliação contra os autores do atentado de forma unilateral, sem discutir com o Conselho de Segurança da ONU, por exemplo.De qualquer forma, exportadores e especialistas reunidos nesta quarta-feira na Fiesp no Fórum Euro-Latino-Americano, consideraram que os Estados Unidos têm de ser cada vez mais atraídos para o sistema multilateral. "Só assim conseguiremos impedir o isolacionismo, prejudicial para todo o mundo", ressaltou o italiano Telò.Fortalecer os laçosUma das maneiras de reforçar os laços norte-americanos com a OMC, segundo a especialista em comércio exterior Vera Thorstensen, é insistir nos benefícios do livre comércio sobre a economia mundial.Ela explicou que um fato como o desta terça causa impacto em uma economia já em processo de desaceleração. Mas uma maior liberalização comercial, fruto de uma nova rodada da OMC, estimula os fluxos mundiais de comércio, injeta mais recursos no sistema internacional e puxa a retomada do crescimento econômico global .Catar em dúvidaOs atentados terroristas desta terça criaram dúvidas sobre a realização da IV Conferência Ministerial da OMC, programada para novembro, no Catar. O embaixador Bernardo Pericás Neto, subsecretário de Política Bilateral do Itamaraty, acredita que é possível pensar em adiamento da conferência.No entanto, Vera Thorstensen avalia que uma nova rodada ganhou ainda mais importância por seus efeitos positivos sobre a economia mundial. Furlan, da Sadia, admitiu que o "clima" para a conferência foi afetado e que o evento pode ser esvaziado. Mas todos admitiram que o cenário ainda é muito incerto.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.