Aldeia de Mandela enterra líder capaz de transformar o mundo e seu vilarejo

Bastaram cinco minutos em uma das entradas do vilarejo de Qunu, a 850 quilômetros ao sul de Johannesburgo, na África do Sul, para que um morador se apresentasse na sexta-feira e, orgulhoso, afirmasse: "Eu sou da família Mandela".

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL, QUNU / ÁFRICA DO SUL, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2013 | 02h03

Na cidade em que o ex-presidente e prêmio Nobel da Paz passou a infância e onde enfim será hoje sepultado, todos se julgam seus parentes - mesmo quem não tem laço sanguíneo. A razão: ao longo dos 27 anos de prisão do líder negro, centenas de moradores foram perseguidos, presos ou mortos por também se oporem ao apartheid ou até por simplesmente mencionar o nome de seu líder.

Encravada em um mar de colinas verdejantes da região do Cabo Oriental, no sudoeste do país, Qunu reagrupa 18 vilarejos, todas ligados à tribo Thembu, da qual Mandela era nobre. Ao contrário das grandes cidades do país, como Johannesburgo ou Pretória, nesse pedaço da África do Sul profunda nunca houve comunidades brancas em número considerável - mas, ainda assim, havia opressão na época da segregação racial.

Em Qunu, Mandela viveu seus primeiros anos de vida e foi para lá que, ao ser libertado da prisão, em 1991, decidiu retornar. Em seu livro de memórias, Longo Caminho para a Liberdade, Madiba afirma: "Foi nesse vilarejo que eu passei os anos mais felizes de minha infância". Também foi nessa região que o líder negro começou a descobrir o ativismo, até se tornar um dos símbolos da luta contra o apartheid, nos anos 1960.

Nessa época, passou a ser perseguido pela Justiça por crimes de sabotagem, traição, vínculos com o Partido Comunista Sul-Africano e por complô para a invasão externa do país. Em 1963, foi alvo do Processo de Rivonia, que resultou em sua condenação por tráfico de armas, vínculos com o Congresso Nacional Africano (CNA), movimento político negro, e por conspirar pela queda do governo.

Junto com o pesadelo carcerário de Madiba, a comunidade de Qunu passou a sofrer a barbárie do apartheid. "Quem tivesse qualquer vínculo com Mandela ou com uma pessoa no exílio por atividade política pagaria por toda sua vida. A polícia vinha sempre para ameaçar a todos e prender os que considerasse suspeitos", diz Noauko Yoiwana, diretora do Museu Nelson Mandela de Qunu.

"Então, Madiba era mais radical contra o regime. Mas as pessoas que se identificavam com a causa não lutavam em Qunu, e sim nas grandes cidades ou no exílio. Quem ficava pagava o preço", afirma Noauko.

A repressão acontecia das mais variadas formas: ameaças, prisões, desaparecimentos súbitos e mortes. Noauko é testemunha do que afirma. Em 1992, dois anos antes de o apartheid cair, seu marido, Gdeon Yokwara, um advogado engajado na luta por direitos civis, foi assassinado por envenenamento. A autoria do crime nunca foi esclarecida. "Eu era radical em 1975 e sempre lutei contra a opressão, como meu marido. Todos éramos perseguidos, mas quem tinha vínculos diretos com Mandela, como acontece em Qunu, era alvo permanente de repressão", conta Noauko.

Feridas. Segundo Vuyani Jarana, militante negro durante o apartheid e hoje administrador de empresas, Qunu era como um microcosmo do que acontecia em todo o país. "As comunidades rurais de toda a África do Sul sempre tiveram grande importância econômica, e por isso também tinham líderes tribais e políticos importantes. Por isso eram perseguidos", conta.

Moradora de um casebre que divide com 17 pessoas, situado perto da área em que o ex-presidente será sepultado hoje, Vivian Mbiyozo, de 77 anos, lembra bem dos anos em que, por ser nascida ou viver no vilarejo, era preciso enfrentar o assédio do regime, paranoico com Mandela. "Aqueles que eram militantes políticos acabavam deixando as zonas rurais e os vilarejos e se engajando", lembra ela. Quem ficava, diz Vivian, enfrentava a punição por um "crime": o de ser parente ou amigo daqueles que lutavam contra o regime. "Tínhamos medo até de pronunciar o nome de Madiba porque sabíamos que poderíamos ser presos e mortos."

Em Qunu, a memória da opressão do apartheid não se limita aos mais velhos. Ntombi Ntondini, guia de turismo de 30 anos, ainda se recorda da neurose vivida até os anos 1990. "Quando eu era pequena, meu pai dizia: 'Nunca pronuncie este nome! É perigoso!'", recorda. "Todos sabíamos que ele existia. Mas, para nós, mais jovens, Nelson Mandela era como uma lenda."

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