Pierre Torres/AFP
Pierre Torres/AFP

Além da guerra, medo e fome assustam os sírios em Alepo

Repórter da BBC que está na cidade da Síria conversa com população local em meio a temor por batalha sangrenta

BBC Brasil, BBC

30 de julho de 2012 | 15h09

ALEPO - Histórias de pavor e relatos de falta de alimentos já são corriqueiros em Alepo, a segunda maior cidade da Síria. No terceiro dia de embates, o local tem sido alvo de artilharia pesada do regime do presidente Bashar Assad, segundo a ONU, que teme um massacre na cidade, de onde a população já foge aos milhares.

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Após realocar tropas e se preparar para um cerco, o regime sírio ordenou o início dos ataques a Alepo ainda no sábado. Segundo as Nações Unidas, estão sendo usados tanques de guerra, artilharia pesada, helicópteros, caças e forças terrestres. Apavoradas, mais de 200 mil pessoas já deixaram Alepo, aponta o Alto Comissariado para Direitos Humanos da entidade.

O combate se intensifica na região, que virou o foco de atenção na Síria, e a comunidade internacional assiste sem interferência, embora os rebeldes tenham reforçado nos últimos dias um pedido para receberem armas capazes de neutralizar alvos aéreos. Um dos poucos jornalistas estrangeiros a entrar na cidade, o repórter da BBC Ian Pannell ouviu relatos de moradores aterrorizados pelos bombardeios.

Medo

Entre as histórias de pavor que se acumulam na região está a de Mohammed Khalaf que, aos 90 anos, se viu sozinho e inseguro. "Minha família não existe mais e preciso de um lugar para ficar".

Com o rosto cansado pela idade, Khalaf já enfrentou mais de uma revolução e viu muitas guerras. Ele conta ao repórter da BBC, em sua casa num dos subúrbios de Alepo, que sua família fugiu da cidade e o deixou para trás, embora sua mente possa já não estar 100% clara.

Ele relembra a ocupação francesa. "Eles não atiravam em nós durante o Ramadã [mês sagrado para o islã]. Coisas que estão acontecendo agora nunca aconteceram durante a luta pela independência", diz.

A conversa com ele é interrompida pelo som de forte artilharia e morteiros. Desde o início dos confrontos entre forças do regime e dos rebeldes, que pedem a renúncia de Assad, mais de 16 mil pessoas já morreram e milhares se refugiaram em países como Líbano (31 mil) , Iraque (8.400), Jordânia (36 mil) e Turquia (43 mil).

Na frente diplomática, Khaled al-Ayoubi, que ocupa o posto mais alto da representação síria em Londres, desertou nesta segunda-feira, 30, e disse que não apoiará mais um regime que se "compromete com atos de tal violência e opressão contra seu próprio povo".

Além disso, a França reagiu aos repetidos vetos de Rússia e China a tentativas de sanções contra a Síria no Conselho de Segurança da ONU classificando Assad como um "executor" e disse que é preciso "tentar de tudo" para pressionar o regime.

'Vencer ou morrer'

Ian Pannell integra um pequeno grupo de jornalistas internacionais que conseguiu entrar em Alepo e foi chamado por Abdul Saleh, um dos comandantes rebeldes na região. Conversando com os jornalistas, o opositor diz contar com milhares de homens que controlam mais de 40% dos bairros da cidade, algo que não pode ser verificado.

O cenário, no entanto, é alarmante para os opositores. A batalha que se aproxima será travada de forma extremamente desigual.

De um lado Forças Armadas convencionais, com tanques, morteiros, artilharia, helicópteros com metralhadoras, caças de guerra e tropas em terra. Do outro, um Exército rebelde portando rifles Kalshnikov e lançadores de granada. Saleh diz que é importante manter a luta e que os rebeldes estão na batalha para "vencer ou morrer".

Fome

Além disso, o drama dos residentes que ainda não conseguiram fugir só deve aumentar. "Muitos estão indo dormir com fome. Muitas pessoas pobres não têm água, comida nem energia elétrica", diz uma mulher.

"Seu sofrimento não deve acabar logo. A falta de água, comida e quedas de energia tem dificultado a vida dos moradores e o perigo constante das bombas e balas torna a vida intolerável. Milhares de famílias já abandonaram a cidade", diz Pannell.

O correspondente da BBC relembra que a situação em Alepo simboliza a crise síria, com o impasse internacioal diante de uma emergência e a desiguldade de forças entre os dois lados do conflito. "Este é apenas o começo da batalha por Alepo e é impossível prever o resultado. Mas ela vai traçar o destino do presidente Bashar Assad, a revolução que ele enfrenta e a nação síria".

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