Rupak De Chowdhuri/Reuters
Rupak De Chowdhuri/Reuters

Além do Brasil, outros países também reabrem economia no pico da epidemia

Pressionados por prejuízos econômicos causados pelo isolamento, governos de América Latina, África, de vários Estados americanos, além de Rússia e Índia, ignoram alertas de especialistas e retomam atividades não essenciais

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2020 | 05h00

LONDRES - O Brasil não é o único país que decidiu retomar as atividades econômicas sem ter atingido o pico da pandemia de coronavírus. Outros também optaram pelo fim do isolamento rígido no momento em que o vírus mais avança. Presos entre as catástrofes econômica e sanitária, a determinação de governos de América Latina, África, de Estados americanos, além de Rússia e Índia, aumenta o risco de agravamento da crise.

Dois meses atrás, quando havia 1 milhão de casos confirmados de coronavírus no mundo, a recomendação era quarentena, muitas vezes com um duro lockdown, e fechamento de estabelecimentos não essenciais. Nesta semana, o número de casos ultrapassou 7 milhões, com 136 mil novas infecções detectadas só no domingo, recorde em um único dia desde o início da pandemia. A ordem do dia? Reabertura.

Para as autoridades de saúde, este é um momento perigoso. “Não é hora de nenhum país pisar no freio”, alertou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), em entrevista no início da semana. “A crise está longe de terminar.”

Embora as taxas de infecção nas grandes cidades americanas e na Europa tenham diminuído, o vírus vem se espalhando pelo mundo. O pico global de infecção pode demorar meses a chegar. Na ausência de uma vacina ou tratamento, a única estratégia comprovada contra o vírus ainda é limitar o contato humano. 

Mas administrar as incertezas e a impaciência de um lockdown não é tão simples na maioria dos lugares. Em muitos países, os governos temem o impacto do vírus na economia, que limita a vontade política de manter os estabelecimentos fechados ou de decretar uma nova quarentena. 

Na terça-feira, o principal especialista em doenças infecciosas dos EUA, Anthony Fauci, descreveu a covid-19 como seu “pior pesadelo”. “Em quatro meses, devastou o mundo inteiro”, disse. “E ainda não acabou.”

Dos 136 mil novos casos relatados no domingo, 75% se concentraram em apenas 10 países, a maioria no continente americano e sul da Ásia – entre eles Índia, Brasil, México e África do Sul. Carissa Etienne, diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), disse que a crise “levou a América Latina ao limite”.

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O coronavírus vem se espalhando rapidamente por países governados por líderes acostumados a suprimir informações para moldar a narrativa política. Na Rússia, o presidente Vladimir Putin suspendeu o lockdown nesta semana, mesmo com o número de infecções detectadas aumentando constantemente.

No México, o governo de Andrés Manuel López Obrador não vem registrando centenas de mortes na Cidade do México e demitiu os funcionários que denunciaram que a capital tem o triplo do número de óbitos que é divulgado oficialmente. 

Tudo indica que López Obrador está de mãos atadas. Como a maioria da população depende do setor informal e não tem uma rede de segurança estatal, ele não consegue impor uma quarentena rígida. Agora, no momento em que o país registra recordes diários de mortos, o governo decidiu reabrir estabelecimentos de forma gradual.

A Índia vive um drama parecido. “Haverá proibição total de sair de casa”, disse o primeiro-ministro, Narendra Modi, no dia 24 de março. “Todos os Estados, distritos, todas as ruas, todas as cidades estarão em lockdown.” Logo, o desejo de isolar 1,3 bilhão de habitantes se mostrou ambicioso demais. A maioria da população indiana é pobre, vive em áreas urbanas lotadas, com falta de saneamento e serviços de saúde ruins. 

Agora, a Índia enfrenta a onda de infecções mais forte da Ásia, com mais de 10 mil novos casos diários e 290 mil contaminados. Enquanto especialistas alertam para uma escassez iminente de leitos e de médicos, nesta semana, os indianos foram autorizados a jantar fora, fazer compras e orar em templos religiosos.

Na América Latina, os casos de covid-19 estão aumentando tanto em países que adotaram medidas de isolamento precocemente, como Peru e Bolívia, quanto naqueles que ignoraram as recomendações de saúde pública, como Brasil e Nicarágua. Ontem, a África ultrapassou a marca de 200 mil infectados – um quarto deles na África do Sul. Mesmo assim, o governo sul-africano anunciou na terça-feira que as aulas serão retomadas na semana que vem. 

O manual de resposta contra o vírus usado por europeus e americanos parece não funcionar em todos os lugares. Sociedades com economias informais não podem impor lockdowns sem o risco de colapso social. Mas o fenômeno não se restringe aos países mais vulneráveis. 

O New York Times informou que, enquanto o país retoma as atividades econômicas, o vírus ainda está se espalhando por 21 Estados americanos. A situação é pior em Oregon, Texas, Carolina do Norte, Califórnia, Arkansas, Mississippi, Utah e Arizona, que ontem pediu que os hospitais estaduais reativassem os protocolos de emergência. 

UE diz que a China divulgou mentiras para dividir bloco

A União Europeia acusou ontem a China de espalhar informações falsas durante a pandemia para dividir o bloco. “A pandemia mostrou que a desinformação não prejudica apenas a saúde das pessoas, mas também a saúde de nossas democracias”, disse Vera Jourova, principal autoridade da UE sobre Estado de Direito. 

Em pelo menos duas oportunidades, a China teria tentado causar discórdia. Em uma, enviou suprimentos à Itália e disse que os parceiros europeus não ajudavam na crise. A outra foi quando a embaixada chinesa na França divulgou uma notícia falsa que funcionários de asilos tinham abandonado seus postos e deixados os idosos para morrer./ W.Post e NYT

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