Além dos muros

Em escolas de Israel e Palestina, textos didáticos ensinam crianças a se odiar mutuamente. Professores descrevem vizinhos como alguém a ser temido e reforçam estereótipos

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2015 | 06h00

Em escolas de Israel e Palestina, textos didáticos ensinam crianças a se odiar mutuamente. Professores descrevem vizinhos como alguém a ser temido e reforçam estereótipos. Nas aulas de geografia, mapas ignoram a existência do outro. Cada lado glorifica a si mesmo, enquanto ofende a imagem do "inimigo". As afirmações constam de um estudo de 2013 conduzido por especialistas em educação das Universidades de Tel-Aviv, Belém e Yale, e financiado pelo Departamento de Estado dos EUA.

Entre outros dados, o estudo apontou que 84% das referências a israelenses encontradas nos livros palestinos são negativas, enquanto nos livros israelenses os palestinos são descritos de forma negativa em quase metade (48%) das referências - o número sobe para 73% nas escolas ortodoxas.

Lembrei-me desse estudo na medida em que uma nova onda de violência se desenrolava nos últimos dias na região. Desde o fim de setembro, sete judeus israelenses morreram em pelo menos trinta destes ataques, com facas e armas de pequeno porte. Em resposta, mais de trinta palestinos foram mortos em confronto com forças israelenses.

Há um componente novo no conflito de décadas: os últimos ataques contra israelenses não foram cometidos por grupos terroristas organizados, como no passado, mas por iniciativa de palestinos comuns. Na maioria, jovens. Em abril do ano passado, o Conselho de Relações Externas já alertava para a possibilidade de uma nova onda de violência, catapultada pela "frustração", principalmente de jovens, diante das promessas de um Estado palestino nunca criado, a deterioração da economia nas áreas árabes e a contínua expansão de assentamentos israelenses.

Mas essa nova onda de violência, é preciso lembrar, teve início com a morte de um bebê de dezoito meses e sua mãe no vilarejo palestino de Duma, na Cisjordânia, queimados dentro de casa em um ataque de colonos. Na parede, eles escreveram em hebraico: "revanche". Ataques similares têm ocorrido em escala crescente, pela iniciativa individual de radicais que decidiram fazer o que acreditam ser justiça com as próprias mãos e expulsar os palestinos do que defendem serem suas terras. Foram pelo menos quatrocentos ataques em 2013 e trezentos no ano passado - quando as ações entraram pela primeira vez na lista de atentados terroristas do Departamento de Estado dos EUA.

É uma geração alimentada por frustração, ódio e desconfiança, criada em um ambiente de apartheid social e levada a acreditar, por ambos os lados, que a simples aceitação da existência do outro é uma ameaça à sua própria.

Sem entrar na discussão sobre os motivos que levaram ao bloqueio à Faixa de Gaza, oito anos dessa política de isolamento fizeram com que o Hamas se tornasse a única voz para uma geração de palestinos, que cresceu sem jamais ver ou ter contato com um judeu israelense sem uniforme de combate. Sua única imagem de Israel é a de soldados que bombardeiam suas escolas e matam amigos, parentes e vizinhos - a investigação da ONU sobre a última guerra na Faixa de Gaza, concluída em abril, apontou que as ações militares de Israel mataram pelo menos 44 civis palestinos que haviam se abrigado dos conflitos em sete escolas sob tutela da organização. Na Cisjordânia, o que os palestinos sabem sobre Israel está fatalmente associado aos colonos, muros, soldados e checkpoints.

Do outro lado dessa fronteira forjada, israelenses não conhecem nada sobre os palestinos que vivem em Gaza além do temor dos mísseis disparados de seu território por terroristas. Muitos judeus em Israel nunca tiveram contato com um palestino. O resultado é o que vemos agora.

Árabes israelenses, que costumam servir de exemplo de convivência pacífica e integração social para a Knesset, saíram em massa às ruas do norte de Jerusalém na terça-feira em protesto contra a violência e o que consideram uma política discriminatória. A última vez que o setor árabe de Israel protestou em tão grande número contra o governo foi em 2000 - era o início da segunda Intifada.

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