Gordon Welters/The New York Times
Gordon Welters/The New York Times

Alemã batalha sozinha contra a extrema direita

BERLIM - Quando Irmela Mensah-Schramm desceu do trem em Bush, uma região violenta ao norte de Berlim, sacudida pela crise dos refugiados, sua agitação era visível. A última vez que a senhora de 70 anos e cabelos brancos esteve lá, um neonazista a empurrou com força. Agora, conta, ela nem mesmo se aventura pela cidade, por medo que alguém a reconheça e alerte o bandido.

Sally Mcgrane - The New York Times*, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2016 | 16h12

No entanto, ela não precisa se preocupar; há muito para esta professora aposentada fazer na estação. Em uma das passagens, meia dúzia de etiquetas verdes e brancas que parecem inofensivas mostram, em uma inspeção mais atenta, o símbolo com a espada e o martelo de um grupo neonazista virulento. Quando há poucas pessoas passando, Irmela, que é conhecida na Alemanha por sua tenaz campanha para remover mensagens neonazistas de lugares públicos, rapidamente começa a trabalhar com um raspador.

Agachada de modo trêmulo sob um corrimão, ela arrancou um pôster neonazista que declara que “nós” nunca celebraremos o fim da Segunda Guerra Mundial. Ela também retirou, com um vidro de removedor de esmalte que mantém sempre por perto, um desenho feito a mão de uma suástica do tamanho de um punho cerrado. Em segurança de volta ao trem, marcou o número de símbolos que apagou - cerca de 30 - em seu caderno. “Isso totaliza 72.354 ao longo dos anos. É muito pesado”, contou com um sentimento de satisfação triste.

Pelas últimas três décadas, com o começo muito antes do tumulto atual causado pelo fluxo de refugiados que está revigorando a extrema-direita alemã, Irmela gastou seu tempo livre - ultimamente vários dias por semana - vagando pelas ruas de Berlim, onde vive, assim como por outras cidades e vilarejos em todo o país. Carregando uma bolsa de lona com a mensagem escrita a mão “Contra os nazistas”, checa estações de trem, máquinas de preservativos e de cigarros, parquinhos, postes e becos à procura de símbolos nazistas proibidos, frases de efeito anti-imigração e adesivos políticos. Os itens ofensivos frequentemente se escondem entre as notas de “bem-vindos refugiados”, adesivos de clubes de futebol e o incomum adesivo de propaganda de um circo, em geral com frases em código como “Queremos viver” ou “Punir os abusadores de crianças com pena máxima” e com endereços na internet para grupos sombrios da direita radical.

Quando encontra algo que é motivo de objeção, que ela diz que sempre acontece, pode tirar uma fotografia, retirar o adesivo para seus arquivos ou apenas anotar a descoberta, junto com a data e o local. Então, ela se livra dele arrancando o adesivo ofensivo ou, no caso de grafite, apagando ou passando tinta sobre ele. “Tenho um grande apreço pela dignidade humana. Quando vejo a dignidade de alguém sendo ferida, sinto como se fosse a minha”, explica Irmela.

Ao longo dos anos, ela acumulou o que pode ser a mais extensa coleção de adesivos e grafites da direita radical na Alemanha. “Ela tem mais do que qualquer arquivo do estado”, afirma Isabel Enzenbach, que foi a curadora de uma exibição do Museu Histórico Alemão, mostrando o conteúdo de mais de 80 arquivos de Irmela, que mostram a longa tradição alemã de revestir paredes com mensagens de ódio, assim como contra argumentos mais longos, engraçados e inteligentes.

Irmela nasceu em Stuttgart em 1945. O que ela, como outras pessoas de sua geração, aprendeu sobre o nazismo era fragmentado. “Em casa, o princípio era, ‘Melhor não falar sobre o assunto’”, conta. Ainda jovem, distanciou-se de sua família e achou o sudoeste da Alemanha muito conservador para o seu gosto. Depois de se mudar para Berlim em 1969, ensinou crianças com deficiências graves e se envolveu no movimento contra as bombas nucleares.

Ela diz que chegou a um extremo no começo dos anos 1980 quando visitou um campo de concentração pela primeira vez. Ao voltar para casa, vomitou, mas também resolveu fazer a mesma jornada todos os anos para celebrar os mortos. Ela conta que poucos anos depois, em 1986, ficou chocada ao ver um adesivo em seu ponto de ônibus que pedia que Rudolf Hess, o criminoso de guerra nazista preso, fosse solto. O adesivo incomodou-a o dia todo enquanto trabalhava. Quando voltou para casa à noite, ainda estava lá. “Ninguém havia tirado”, diz.

Ela usou o chaveiro para arrancá-lo e se sentiu melhor. Alguns dias depois, afirma que gastou uma noite inteira andando nas ruas de sua confortável vizinhança em Berlim e ficou chocada pela quantidade de mensagens quase imperceptíveis da extrema-direita que encontrou. “Depois de algumas semanas, os adesivos pararam de reaparecer. Isso mostra aos neonazistas que alguém não concorda com eles.”

As atividades de Irmela têm alguns riscos. Depois de 30 anos arrancando adesivos, dissolvendo tinta e cobrindo com tinta slogans da extrema-direita, ela estima que foi atacada três ou quatro vezes. Mas também foi abraçada por estranhos e ouviu o agradecimento de várias pessoas.

E há as potenciais questões legais: “Se você olha para as leis alemãs sobre grafite e danos à propriedade, ela anda em uma linha fina. Ela já esteve em apuros algumas vezes. Mas sua posição é que, moralmente, é mais importante se livrar dessas coisas”, explica Martin Gegenheimer, coordenador do arquivo de grafite de Berlim.

À medida que as tensões sobre a questão dos refugiados na Alemanha aumentam, outros estão seguindo seu exemplo. Em 2015, Ibo Omari, dono de uma loja de Berlim que vende tinta para grafite e itens relacionados, fundou uma organização que apoiou artistas para converter 20 suásticas em arte de rua: cubos mágicos, mosquitos e corujas. “Ela é a avó desse projeto”, afirma Omari, cujo vídeo dos símbolos reabilitados se tornou viral, sobre Irmela. “Ela tem muito mais experiência do que nós. Não está conectada digitalmente como estamos, mas deveria ter sido apoiada anos atrás.”

Ainda assim, graças a workshops e visitas a escolas, Irmela atinge os jovens. “Ela está se responsabilizando pela sociedade”, avalia Julia Reidl, professora de Inglês e Geografia do Goethe-Gymnasium em Karlsruhe. Os alunos da 6ª, 7ª e 8ª séries de Julia redesenharam cópias de grafites reais que dizem “Eu amo Hitler” para oferecer mensagens mais positivas, como “Eu amo gatos”, em oficinas de Irmela. “Eles entram de cabeça”, conta Julia. “Alguns dos pequenos disseram ‘Queremos ajudar!’ É muito importante, especialmente hoje, com todo esse ódio contra os refugiados e o islamismo.”

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