Márcio Fernandes/Estadão
Newton La Scaleia, um dos últimos expedicionários vivos que combateram na 2° Guerra Mundial. O Brasil enviou 25.445 soldados à guerra Márcio Fernandes/Estadão

'Alemães preferiam se entregar a brasileiros'

Newton La Scaleia, um dos últimos expedicionários vivos, relembra a 2ª Guerra

JOSÉ MARIA MAYRINK, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2015 | 02h02

O pracinha Newton La Scaleia conta o período que passou na Itália em segundos: 31.536.000, de junho de 1944 a junho de 1945. "Os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) contavam o tempo em segundos, pois a todo instante, a qualquer momento, o panorama à sua frente poderia ser diferente", justifica o sargento reformado, folheando dezenas de fotos amareladas da Cordilheira Alpina, onde enfrentou os alemães e italianos.

Massarosa, Bolzano, Montese, Monte Castelo, Porreta Termi, Parma, Collecchio, Viaregio, Pistoia... os nomes de um cenário de 70 anos atrás voltam à memória, ainda lúcida, do ex-pracinha, apesar da idade avançada. Ele planejou estar hoje na Itália, com um grupo de ex-combatentes, ao lado do ministro da Defesa, Jacques Wagner, para comemorar a rendição da Alemanha aos aliados. Só não viajou, porque sua mulher, Melita, adoeceu. O Brasil enviou 25.445 soldados à guerra.

"Vou fazer 94 anos em setembro, tenho mais medalhas que generais", orgulha-se Scaleia, também funcionário aposentado da Prefeitura de São Paulo. Neto de italianos, ele passou a infância e adolescência no Brás e na Mooca até ser mandado para a guerra. Como se selecionavam, de preferência, rapazes solteiros, a mãe tentou casá-lo às pressas. Arrumou mais de dez candidatas, mas nenhuma namorada firme. "Eu tinha espírito aventureiro, queria ser convocado, mesmo sem saber onde os brasileiros iam lutar", lembra o ex-pracinha. Foi e voltou sargento e serviu cinco anos no Exército, até dar baixa, uma decisão da qual se arrependeu.

Scaleia era do 6.º Regimento de Infantaria (6.º RI), do Vale do Paraíba. Servia em Caçapava, mas foi incorporado ao 1.º Batalhão de Taubaté, na 1.ª Companhia, primeiro escalão a embarcar no navio de transporte General Mann, dos Estados Unidos. Era soldado no quartel, mas fez os cursos de cabo e de sargento antes de partir. A tropa, com mais de 5 mil homens, atravessou o Atlântico sob a proteção de quatro destróieres brasileiros do Rio de Janeiro até alto mar e quatro destróieres e um cruzador americanos daí até a Itália. "Não sabíamos para onde íamos, só fomos informados quando atravessamos o Gibraltar", lembra Scaleia.

Em Nápoles, porto da chegada, os pracinhas foram incorporados ao 5.º Exército dos EUA. "Começamos a treinar táticas de combate com oficiais americanos, recebemos uniformes de inverno e armas modernas e, depois, marchamos para o norte", disse Scaleia. As primeiras cenas de ação de que ele se lembra são da tomada da cidade de Massarosa, ocupada pelos nazistas. "Os alemães preferiam se entregar aos brasileiros, na esperança de serem bem tratados, mas não adiantava muito, pois não tínhamos campos de prisioneiros e nossos comandantes se viam obrigados a entregá-los aos americanos", recorda Scaleia.

Entre as preciosidades trazidas da guerra ele guarda um cinturão de couro com coldre e fivela com a inscrição Gott Mit Uns, troféu de um soldado nazista. "Fiz a guerra com uma arma alemã de fabricação belga", disse o ex-pracinha, referindo-se à pistola que trouxe da Itália e depois doou ao museu da Associação de Ex-Combatentes.

Não entendia uma palavra de alemão, mas o prisioneiro apontou num bosque vizinho o quarto pinheiro da fila, no qual havia dependurado o cinturão ao se render. Foi em agradecimento a uns cigarros que Scaleia lhe deu. Ele recebia um maço de cigarros americanos todo dia, mas, como não fumava, distribuía para os companheiros e, às vezes, para os alemães. Não só cigarros, mas também ração - feijão-branco, bolachas, salsichão e refresco. Não gostava de salsichão, mas os alemães devoravam.

Scaleia comandava uma seção de morteiros e metralhadora, petrechos pesados de apoio ao batalhão de infantaria. Se matou muitos inimigos, ele não calcula. "As balas iam pra lá, 1.200 por minuto, devem ter acertado alguém", imagina. Perdeu companheiros na luta, mas não foi ferido. "Só alguns estilhaços no braço que as enfermeiras trataram."

"Estou enfrentando agora mais uma guerra, depois de ter amputado uma perna por uma trombose provocada por um aneurisma." O expedicionário falou isso com naturalidade, satisfeito de manobrar em casa uma cadeira de rodas motorizada. Na rua, utiliza um triciclo, também motorizado, com a ajuda de um dos filhos, Newton e Meyre.

"A FEB ficou muito tempo esquecida, pois os pracinhas lutaram contra a ditadura nazista, mas havia ditadura também no Brasil", lamenta Scaleia, saltando de 1945 para 1985. "Se nosso País é o que é hoje, é graças à FEB, pois ela possibilitou o desenvolvimento a partir do momento em que os vencedores abriram para nós as portas do comércio internacional", acrescenta.

Interpretação otimista à parte, ele lamenta a crise que o Brasil enfrenta. "Temos de lutar agora contra a pior de todas as guerras, a guerra da corrupção", adverte. Aposentado como auditor da Prefeitura, onde trabalhou depois de ter sido instrutor militar na antiga Escola Técnica de Aviação, ele se queixa de falta de tempo para fazer tudo o que queria.

Entre suas prioridades, o ex-expedicionário põe o resgate da história da FEB, a começar pela explicação de seu símbolo, o desenho de uma cobra fumando. "Esse escudo não existia, surgiu no meio da tropa, quando os soldados paulistas se lembraram dos camelôs que atraíam curiosos na Praça da Sé carregando jiboias em caixas de madeira."

"A cobra vai fumar", gritava um camelô, abrindo a caixa, enquanto um companheiro punha um caniço na boca da jiboia e outro acendia um isqueiro. "A cobra fumou." Os pracinhas repetiam esse grito de guerra, cada vez que os brasileiros venciam um combate.

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