Alemães viram tema de eleição na Itália

Premiê italiano diz que Merkel está preocupada com eventual vitória de ex-comunista Bersani

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2013 | 02h03

Os principais líderes políticos da Alemanha intrometeram-se ontem nas eleições parlamentares que definirão o novo chefe de governo da Itália. A dois dias da votação, que tem como líder o ex-comunista Pier Luigi Bersani, a chanceler Angela Merkel, o ministro de Finanças, Wolfgang Schauble, e o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, entraram direta ou indiretamente na campanha.

Em quarto nas pesquisas, o atual premiê italiano, Mario Monti, acusou o favorito Bersani de "atemorizar" os alemães, que são a principal economia da União Europeia. Até aqui, a campanha se concentrava na política de austeridade adotada pelo ex-premiê Silvio Berlusconi e aprofundada por Monti.

Ontem, porém, a Alemanha tornou-se protagonista. Em pronunciamento pela manhã, Monti insinuou que a instabilidade econômica e a desconfiança dos mercados financeiros podem retornar caso Bersani, candidato do Partido Democrata (PD), de centro-esquerda, vença.

Citando Merkel, Monti afirmou que a Alemanha estaria preocupada com a ascensão de um partido de esquerda na Itália, como ocorreu na França. "Merkel teme a consolidação de partidos de esquerda, em particular em um ano eleitoral", disse Monti, referindo-se às eleições nacionais de outubro na Alemanha. "Creio que ela não deseja ver o PD chegar ao governo."

A polêmica cresceu quando Schauble, número 2 do governo de Merkel, elogiou Monti, com quem, segundo ele, "as coisas melhoraram na Itália". Não bastasse a interferência, outro alemão, Martin Schulz, pediu aos italianos que "por favor, não votem em Berlusconi".

As declarações provocaram uma onda de indignação no meio político da Itália - onde Merkel não é popular. As críticas levaram Monti a rever seu discurso. "Nem eu nem Bersani precisamos da bênção de Merkel", disse. "A chanceler não interfere nas eleições italianas ou em outros países." Além disso, Monti viu-se obrigado a assegurar que não fez um acordo de coalizão com Bersani.

As declarações de Monti e dos alemães passaram a pautar a campanha. Em segundo lugar nas pesquisas, Berlusconi aproveitou para atacar seus dois adversários, acusando-os de já terem selado uma aliança com Merkel.

Bersani, por sua vez, não teve escolha e respondeu às acusações. "Estou desapontado. Parece mais uma gafe de Monti do que uma iniciativa de Merkel", disse. "Governos europeus respeitam uns aos outros. Uma intervenção assim é impensável."

Bersani também foi obrigado a desmentir um "governo de união nacional" com Monti, mas as negociações para a aliança foram confirmadas ao Estado, na quarta-feira, pela presidente da Assembleia do Partido Democrático no Exterior, Beatrice Biagini. "É correto dizer que Bersani será obrigado a buscar uma aliança com Monti", disse.

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