JOSEPH EID / AFP
JOSEPH EID / AFP

Alemanha admite parcela de responsabilidade em genocídio armênio

Nesta sexta-feira, o Parlamento alemão (Bundestag) deve aprovar uma declaração, pactuada pelas fileiras governamentais, que reconhecerá o termo genocídio

O Estado de S. Paulo

23 de abril de 2015 | 17h36

BERLIM - O presidente da Alemanha, Joachim Gauck, reconheceu nesta quinta-feira, 23, o genocídio armênio e a responsabilidade do país, aliado do Império Otomano, pela primeira vez. Nesta sexta-feira, a Armênia lembrará um século do genocídio que dizimou 1,5 milhão de armênios. 

"O destino dos armênios é parte da história de extermínios em massa, limpezas étnicas e deportações que marcaram tão terrivelmente o século 20", afirmou Gauck em uma cerimônia ecumênica na catedral evangélica de Berlim, que lembrou o centenário das expulsões, iniciadas em abril de 1915.


Na cerimônia, celebrada por representantes das principais igrejas cristãs, dedicada às vítimas armênias, aramaicas, aqueces e gregas, Gauck fez referência à responsabilidade da Alemanha nesses crimes. "Soldados alemães participaram também do planejamento" desse genocídio, disse o presidente, ao destacar que se tratou de uma operação "calculada", cujo objetivo era o extermínio do povo armênio.

"Não se trata de colocar ninguém no banco dos réus, mas em um reconhecimento de culpa, pois sem isso não se alcança a reconciliação entre os povos", acrescentou.

Gauck abandonou assim a linha de cautela da Alemanha perante a Turquia - membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e ascendência étnica de 3,5 milhões de cidadãos alemães - e se uniu ao conjunto de países que reconhecem o genocídio armênio apesar das eventuais consequências em suas relações com a Turquia.

Amanhã, o Parlamento alemão (Bundestag) deve aprovar uma declaração, pactuada pelas fileiras governamentais, de conservadores e social-democratas, que reconhecerá o termo genocídio, aplicado às mortes de 1,5 milhão de armênios sob o Império Otomano.

O texto da declaração parlamentar é praticamente igual ao discurso de hoje de Gauck e alude ao caminho percorrido pela Alemanha para a superação do passado após o Holocausto nazista.

Em sua declaração anterior, em 2005, à qual o governo tinha evitado amparar, o Bundestag se limitava a condenar as "deportações" e os "massacres" sofridos pelo povo armênio.

A mudança de postura da Alemanha - derivada de sua própria história, do peso da imigração turca e do papel da Turquia na Otan - motivou esta semana uma conversa por telefone entre a chanceler Angela Merkel e o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu.

A vice-porta-voz do governo, Christiane Wirtz, explicou ontem que Merkel comunicou ao seu colega essa mudança de postura em "uma boa conversa".

Alguns veículos alemães indicaram, por outro lado, que Davatoglu expressou seu mal-estar pela declaração elaborada pela Alemanha.

Em reunião a portas fechadas com seus deputados, Merkel expressou apoio à declaração, mas alertou que ela poderia prejudicar o processo de reconciliação entre Turquia e Armênia.

No início de abril, a Turquia protestou formalmente contra o Vaticano por um sermão do papa Francisco que qualificou de "o primeiro genocídio do século 20".

Entre 1915 e 1916, sob o Império Otomano, os turcos deportaram para o Iraque e a Síria cerca de 1,8 milhão de armênios, operação na qual se estima que 1,5 milhão tenham morrido e que afetou milhares de pessoas de outras minorias cristãs, como aramaicos, assírios, caldeus e gregos.

A Turquia reconhece o massacre, mas não admite o termo genocídio, nem que tenha sido uma operação planejada para exterminá-los. / EFE

 

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