Gordon Welters/The New York Times
Gordon Welters/The New York Times

Alemanha adota casa de Rosa Parks, ícone do movimento pelos direitos civis nos EUA

Para muitos, alemães dão exemplo positivo no que se refere à abordagem de aspectos delicados do passado de um país

Sally McGrane / The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2017 | 15h53

BERLIM - Com o cair da tarde em Wedding, bairro operário de Berlim, por trás das cortinas nas janelas de uma pequena casa, é possível ver as lâmpadas acesas. A claridade se mostra pelas rachaduras da fachada de madeira e as crianças brincam logo ao lado. De repente, ouve-se a voz potente e nítida do ícone do movimento pelos direitos civis nos EUA, Rosa Parks. Ela fala sobre Montgomery, no Alabama, e de sua recusa em deixar o assento na parte dianteira do ônibus.

A casa onde ela morou ficava em Detroit e era de seu irmão, mas depois de ser ameaçada de demolição, foi transportada para Berlim e aberta ao público no início de abril.

Ryan Mendoza, artista americano que vive na capital alemã, é quem coloca as fitas de meia hora de duração, que incluem trechos de uma entrevista de 1957 para o rádio. "É meu dever manter a casa viva", resume ele. "Tento deixar em um volume alto o bastante para incomodar os vizinhos, mas não muito."

Até agora, porém, os vizinhos não parecem se incomodar. Pelo contrário, Berlim adotou a casinha de Detroit, para a qual Rosa se mudou em 1957 e onde morou com a família do irmão depois de fugir das ameaças de morte e desemprego.

Ideia. O projeto foi realizado em 2016, quando Rhea McCauley, sobrinha de Rosa, conheceu Mendoza em Detroit. Como parte de um projeto de arte que explorava seu próprio sentido de "lar", além da crise das hipotecas nos EUA, Mendoza conseguiu transportar uma estrutura abandonada de Detroit para a Europa e ainda conquistou a confiança de membros da comunidade americana no processo.

Rhea lhe disse que conseguira readquirir a casa da família por US$ 500, mas que não havia encontrado alguém interessado em reformá-la ou preservá-la. Mendoza, que ganha a vida como artista plástico, concordou em ajudar. Ele arrecadou pouco mais de US$ 100 mil com a venda de suas obras e foi para Detroit, onde contou com a ajuda de uma equipe local para desmontar a casa, que estava literalmente caindo aos pedaços.

Em seguida, mandou o exterior de madeira para Berlim e levou quase quatro meses para reconstruí-la cuidadosamente à mão e praticamente sozinho. "Foi um ato de amor", resume.

"O fato de a casa ter que ser enviada para a Europa para ser salva é extraordinário, uma vez que, no geral, os EUA não tentam preservar as casas de nenhum de seus heróis populares", afirma Daniel Geary, professor de História Americana do Trinity College Dublin. "Para mim, negligenciar uma casa como essa reflete a falta de vontade do país, em termos atuais e gerais, de lidar com o legado do racismo."

Ele afirma que “o pessoal gosta de se lembrar de Rosa Parks durante um momento, ou seja, quando se recusou a obedecer às ordens no ônibus. Não querem necessariamente lidar com o resto - as ameaças de morte, o fato de que teve de sair do Alabama e acabou indo para Detroit. É uma história mais complicada, sem final feliz. Ela sofreu em razão da decisão que tomou."

Para muitos, a Alemanha dá um exemplo positivo no que se refere à abordagem de aspectos delicados do passado de uma nação. "Em razão de nossa história, temos muitos anos de culpa e uma cultura de prática do não esquecimento. Pode ser o início de um processo de cura poder dar essa reviravolta, esse abrigo aos outros. É uma sensação boa", confessa Deike Diening, jornalista do Tagesspiegel, que cobriu o projeto.

Há quem diga, porém, que foi o momento de início da empreitada o responsável por sua incrível repercussão. "Acho que os berlinenses, mais até que os alemães em geral, estão extremamente preocupados com o que está acontecendo nos EUA, com Trump", explica Gero Schliess, correspondente da Deutsche Welle, principal agência de notícias alemã. "O discurso político deles não reflete mais os valores democráticos."

Reconhecimento. Até o momento, Rhea McCauley está muito feliz de ver a casa da tia na Alemanha, meio escondida atrás de um prédio residencial dos anos 1960. Ela se diz impressionada com o que descreveu como "demonstrações de carinho" do público. "Achei incrível porque o pessoal lá parece saber mais a respeito da Tia Rosa do que aqui.”

Ela também confessou ter ficado muito satisfeita com a decisão de Mendoza de deixar a fachada do jeito que a encontrou. "Essa casa já passou por tudo que se possa imaginar. Bom que não esteja toda pintadinha, bonitinha, com flores e cerquinha branca em volta. Não estamos falando de um conto de fadas, não tem João e Maria aqui. Trata-se de uma mulher que se sacrificou e sofreu muita coisa."

Parte da casa é visível da rua, mas os visitantes não podem entrar em razão das exigências da seguradora e por respeito. "Esta casa estava abandonada, um pessoal invadiu. Quero que recupere a dignidade", diz Mendoza.

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