REUTERS/Annegret Hilse
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Alemanha busca erros que elevaram casos de contágio

País registrou na sexta-feira o recorde de 33.777 contaminações e 813 mortes em 24 horas; movimento negou os perigos da pandemia

Levy Teles e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2020 | 05h00

Lojas fechadas, ruas vazias e restaurantes sem clientes. As portas cerradas substituíram as cores e as luzes típicas da época. Não era esse o Natal esperado pelos mais de 83 milhões de moradores da Alemanha, que enfrenta o maior avanço do coronavírus desde o início da pandemia e adotou medidas drásticas para evitar um colapso no sistema de saúde e prevenir mais mortes.

O lockdown começou na quarta-feira e segue até 10 de janeiro - mas pode ser ampliado. Empresas foram encorajadas a antecipar férias e a promover o trabalho remoto quando possível. As escolas foram fechadas e as férias, adiantadas. E a tradicional festa de réveillon no Portão de Brandemburgo ficará para 2021. Apenas lojas essenciais, como supermercados, farmácias e bancos, devem permanecer abertas.

País considerado modelo de condução da crise sanitária, a Alemanha fez um primeiro lockdown de março até maio. A situação do país parecia confortável. Mas, nas últimas semanas, quebra recordes negativos. Na sexta, o país registrou o máximo de casos em 24 horas: 33.777 contaminações, e também um dos maiores números de mortes, 813. “Tínhamos poucas infecções e era difícil encontrar justificativas para limitar (a circulação de pessoas)”, explica o professor Helmut Fickensher, da Universidade de Kiel. “Houve um movimento que negava os perigos da pandemia, com argumentos similares nos EUA e no Brasil. A pandemia cresceu sob essa negação.”

Além disso, em setembro, muitos alemães foram para o exterior de férias - e os casos começaram a explodir em outubro, com o governo determinando lockdown em novembro. “Era um risco. Agora, a situação mudou e somos o número seis em casos de coronavírus na Europa”, diz Fickensher.

“Nós todos subestimamos o vírus”, disse nesta semana o governador da Saxônia, Michael Kretschmer. O governador da região da Bavária, Markus Söder, afirmou que o lockdown “light” de novembro deu pouco resultado. “Não foi suficiente, precisamos fazer mais.”

O país tem 1,4 milhão de contágios e 24,9 mil mortes. O novo lockdown surpreendeu o brasileiro Henrique Rocha, que trabalha como cabeleireiro em Berlim. Ele não imaginava que isso pudesse acontecer logo antes do Natal. “Estou com o salão fechado, não posso trabalhar e foi prometida uma ajuda que ainda não tive acesso e será muito mais burocrática que a oferecida no primeiro lockdown.”

Manifestações. Para Rocha, o governo errou ao permitir manifestações com milhares de pessoas sem máscaras nos últimos meses. E destaca o papel da responsabilidade individual. “Muitas pessoas tiveram a falsa impressão de que o ‘pior’ já tinha passado e agiam como se não existisse mais a pandemia. Aí está o resultado.”

Diferente do que planejava, Henrique não virá ao Brasil neste ano. Nem encontrará amigos na noite do réveillon. “As pessoas estão cansadas, o clima do inverno não ajuda e percebo um certo esgotamento por parte da população.” 

O governo prometeu apoio financeiro às empresas afetadas pelo novo lockdown - segundo o plano, o comércio obrigado a fechar deve receber até 90% dos recursos - ou até € 500 mil (R$ 3 milhões) por mês - para manutenção dos custos fixos.

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A segunda onda também fez os planos da família de Oya Kaufmann, de 32 anos, virarem água. É a primeira vez que ela, o marido, Dennis, de 31 anos, e as duas filhas, Açelya e Eftelya, de 7 e 3 anos, respectivamente, não passarão a data com outros parentes. Moradoras de Frankfurt, capital financeira da Alemanha, as filhas de Oya não veem os avós e amigos desde o começo do ano. A viagem de fim de ano para a Turquia foi cancelada. “É um desafio principalmente por causa das minhas filhas - explicar sobre o que é o vírus sem assustá-las, mas fazer com que entendam.”

A experiência de aulas a distância fez os estudos em casa mais difícil. Atividades como aulas de zumba e natação foram interrompidas. “Elas não conseguem liberar a energia e brigam muito em casa.” Atualmente sem emprego, Oya recebe uma ajuda do governo de € 300 por filha - um incentivo do governo alemão criado durante a pandemia para apoiar famílias vulneráveis.

A imunização, não obrigatória, está prevista para começar no dia 27 e o país se estrutura para organizar centros de vacinação. A meta é vacinar de 3 a 4 mil pessoas por dia no local. Haverá outros seis centros em Berlim para chegar a 20 mil imunizados por dia.

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Manifestantes em cidades como Berlim, Frankfurt e Dresden já fizeram atos contra as medidas de restrição de circulação nos últimos meses. Grupos e partidos de extrema direita têm organizado manifestações contra o uso de máscaras e parlamentares defenderam a ideia dentro do Parlamento.

Uma pesquisa do Instituto para a Democracia e Sociedade Civil mostrou que há “correlação estatística” entre a votação no AfD (Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita) e a intensidade da pandemia. “Na Saxônia, parte da população gosta das ideias do AfD”, diz o professor Helmut Fickensher, da Universidade de Kiel. “Esse partido diz que a pandemia não é tão grave.”

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