Alkis Konstantinidis/REUTERS
Alkis Konstantinidis/REUTERS

Alemanha e França apresentam plano para abrigar crianças migrantes após incêndio na Grécia

Bloco deve receber ao menos 400 menores que moravam no acampamento de Moria

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 16h59

ILHA DE LESBOS - A chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron concordaram em propor à União Europeia um plano para receber cerca de 400 migrantes menores de idade que ficaram desabrigados após o incêndio no acampamento de Moria, na Grécia, informaram fontes próximas à iniciativa nesta quinta-feira, 10. O plano foi apresentado oficialmente por Merkel, cujo país atualmente preside a UE.

"A Alemanha e a França vão participar. Espero que outros Estados-membros também participem", disse Merkel ao anunciar a iniciativa durante uma coletiva de imprensa em Berlim. 

De acordo com a chanceler alemã, o drama no campo de Moria deveria obrigar os países da UE a "finalmente" alcançar uma política migratória comum, que atualmente "não existe".  A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a UE está "pronta a ajudar". 

Milhares de refugiados aguardavam ajuda nas estradas da ilha de Lesbos nesta quinta-feira. O campo, que abrigava 12.700 solicitantes de refúgio – um número quatro vezes acima da sua capacidade – pegou fogo na madrugada da última quarta-feira, 9. Cerca de 4 mil crianças moravam no local.

Várias famílias passaram a segunda noite consecutiva nas ruas, sem produtos de primeira necessidade. Uma balsa chegou à ilha, onde foi declarado estado de emergência, para abrigar os migrantes, e dois navios da Marinha grega seguiam até a localidade para aumentar a capacidade de acolhida.

Lesbos, ilha do Mar Egeu com 85 mil habitantes, é a principal porta de entrada para os migrantes na Grécia por sua proximidade da Turquia.

"Abandonados"

Alguns dos desabrigados seguiram para os olivais próximos. Outros caminhavam até as localidades vizinhas em busca de água.

"Perdemos tudo", lamenta a síria Fatma Al-Hani, na estrada que vai de Moria ao pequeno porto de Panagiouda."Estamos abandonados à nossa própria sorte, sem comida, água, sem medicamentos", afirma, com o filho de dois anos no colo.

"O que vamos fazer agora? Para onde vamos?", perguntou Mahmut, do Afeganistão. Ao seu lado, a compatriota Aisha procurava os filhos: "Dois estão ali, mas não sei onde estão os outros".

Cornille Ndama, uma congolesa, também fugiu de Moria durante a noite. "Perdemos tudo. Não tenho nada, nada aqui, e não sabemos onde vamos dormir".

Um novo incêndio foi registrado na quarta à noite em uma parte do campo de migrantes que não havia sido atingida pelas chamas de terça-feira.

"Não temos informações sobre vítimas, feridos, ou desaparecidos", afirmou o ministro da Migração da Grécia, que elogiou a "rápida intervenção" dos bombeiros e da polícia.

Os habitantes da região e as autoridades não querem a instalação provisória de barracas fora do campo. 

"Um problema europeu"

A Áustria não parece concordar com a proposta da UE. "Se esvaziarmos o campo de Moria, o local vai lotar de novo, imediatamente", disse o ministro das Relações Exteriores, Alexander Schallenberg.

A presidenta grega, Katerina Sakellaropoulou, pediu à UE que "não feche os olhos" pra a tragédia. "Os refugiados são, antes de mais nada, um problema europeu", afirmou em um comunicado.

O primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, atribuiu a origem do desastre às "reações violentas contra os controles de saúde" organizados desde a semana passada, após a detecção de 35 casos do novo coronavírus no acampamento.

O primeiro caso de coronavírus foi detectado em Moria na semana passada, e o espaço foi imediatamente colocado em isolamento por 15 dias.

Para a Cruz Vermelha, retirar os milhares de migrantes da ilha "é um imperativo humanitário".

"Na Grécia é urgente deslocar os migrantes das ilhas para o continente", declarou o presidente da Federação Internacional de Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, Francesco Rocca. /AFP

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