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Alemanha e os Bálcãs

Há um longo tempo, a França, a Itália, e a Espanha estão na linha de frente da crise imigratória na União Europeia. Milhares de infelizes fugiam das guerras ou da pobreza na Ásia ou na África e buscavam refúgio primeiro nos países do sul da Europa, para seguir depois, lentamente, na direção da Grã-Bretanha. Hoje, a situação mudou: no olho do furacão há um novo país, a Alemanha.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2015 | 03h02

Uma maré humana invadiu o país. Oficialmente, são esperados 800 mil imigrantes candidatos a empregos neste ano. Os cidadãos alemães, normalmente calmos, deixam-se dominar pela cólera. Protestam e atacam.

Nos últimos seis meses, ocorreram duzentos ataques contra centros de acolhida de refugiados. A poderosa chanceler Angela Merkel teve de viajar a alguns Estados, como a Saxônia, para pregar a racionalidade e o humanismo. Foi vaiada pelos grupos neonazistas. Corajosamente, denunciou o comportamento abjeto da extrema direita.

Por que a Alemanha? A França vem adotando medidas cada vez mais severas contra a imigração. E sua frágil economia não tem condições de oferecer trabalho para todos os refugiados. A Alemanha, pelo contrário, é um país próspero. Suas fábricas estão a todo vapor e podem recrutá-los.

Além disso, a França é um país com uma grande população – cerca de dois filhos para cada mulher –, ao passo que na Alemanha é o inverso. As famílias alemãs não têm muitos filhos. O país se esvazia. Em consequência, a indústria e a agricultura carecem de mais braços.

Essas são as razões da atração exercida pela Alemanha. Por isso, Angela Merkel decidiu assumir pessoalmente o caso. Adotou medidas de emergência. Fez uma clara e brutal distinção entre os diferentes tipos de migrantes. 

Mostrou-se muito liberal em relação aos refugiados que chegam de países em guerra ou vítimas de violência, como os sírios. Berlim não enviará de volta a seus países de origem essas pessoas – que correm o risco de serem mortas ou presas depois de retornarem.

Diferença. Mas Merkel não expressou qualquer complacência com aqueles que chegam à Alemanha em busca de prosperidade econômica. É o caso dos imigrantes dos Bálcãs – eles chegam de Bósnia, Albânia, Kosovo, Macedônia, Montenegro e Sérvia. No caso deles, nenhuma piedade. Terão de retornar a seus países. E são eles exatamente que, atualmente, constituem os maiores batalhões.

Há alguns meses verificou-se uma mudança radical nos itinerários da imigração. Há um ano, o caminho real começava na Sicília. Hoje, a rota de Lampedusa ainda funciona, com suas muitas tragédias – afogamentos –, mas uma nova foi aberta. A dos Bálcãs. 

Mais da metade dos que chegam à Alemanha vem dessa região. Berlim adotou medidas drásticas: os processos de expulsão dos imigrantes serão simplificados e abreviados. Ao mesmo tempo, foi reduzido significativamente o montante da ajuda concedida aos requerentes de asilo.

Angela Merkel quer que a Europa inteira adote regras similares: tolerância, humanidade e solidariedade para os que fogem de países em guerra. Mas o rigor será absoluto para os que desejam somente se beneficiar das economias europeias. Diante da massa de refugiados, alguns países, sobretudo os do leste europeu – mas também na Espanha, na fronteira com Marrocos – recorreram ao velho método das cercas de arame farpado ou muros eletrificados e mortíferos.

Desvio. A União Europeia foi criada há 60 anos para que não houvesse mais muros entre as nações. A mesma União Europeia, hoje, se cobre de muros reagindo aos migrantes. Estranho sobressalto da história. Em 1989, durante o verão, guardas de fronteira húngaros – à época, na esfera soviética –, derrubam a cortina de ferro que dividia o mundo em dois. 

Nos dias que se seguem, a Alemanha Oriental vacila e, passo a passo, todo o universo soviético cambaleia e morre. Hoje, em 2015, 26 anos depois, outros guardas de fronteira húngaros estendem novas cercas de arame farpado, como as autoridades de polícia têm feito entre a Turquia e a Mancha. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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