Alemanha esperta

Na questão dos imigrantes as coisas avançam. Não mais serão chamados imigrantes, mas "refugiados". Em seguida, terão permissão para entrar no espaço europeu e encontrar lugares de acolhida nos diversos países.

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2015 | 02h05

A França deverá receber 24 mil, foi o que decidiu a União Europeia. A Alemanha acolherá 500 mil. A Letônia 526 e a Estônia 373. Do lado da Europa Oriental, os países rejeitam as ordens de Bruxelas: Polônia, Eslováquia, República Checa e Hungria formaram um "pool" que não quer nem ouvir falar desses imigrantes. Mesmo a foto do corpo de uma criança síria nas praias da Turquia não comoveu esses países. Eles não apreciam refugiados.

A Alemanha abre suas portas. Desde alguns dias o país tem recebido dezenas de milhares de refugiados que aportaram na Grécia e chegaram a Macedônia, Sérvia e depois à Hungria onde foram tratados como delinquentes ou dejetos humanos. Somente no domingo a cidade de Munique acolheu 20 mil homens, mulheres e crianças à deriva.

E não é tudo. Angela Merkel anunciou que irá além das quotas decididas por Bruxelas. Este ano a Alemanha atenderá a 500 mil pedidos de asilo. São loucos esses alemães. Ou perversos. Se atenderem a 500 mil requerentes de asilo é para desagradar a seus vizinhos, envergonhar Paris, mostrar que a França tem um "coração pequeno", ao passo que a Alemanha, sim, tem um "coração enorme". São astutos, esses alemães.

A França sentiu-se um pouco humilhada. É o mundo ao contrário. Enfim, a "doce França", entre todas as nações do universo não é a que tem uma vocação milenar de generosidade, de acolhida e dos direitos humanos? Aliás, estão marcadas na sua Constituição as palavras "Liberdade. Igualdade. Fraternidade". Com que direito a Alemanha se apodera hoje das três palavras mágicas da Constituição francesa? Isso é plágio.

Há alguns dias, os jornais franceses procuram explicar o assunto. A Alemanha é um país rico, mas suas mulheres não querem engravidar. Portanto, o país tem necessidade de mão de obra estrangeira para movimentar suas fábricas. E, não sem alguma malícia, faz aprovar sob o rótulo da "generosidade" uma decisão que na verdade tem razões econômicas: movimentar a todo vapor suas fábricas e continuar dominando o continente, mesmo que precise utilizar mecânicos sírios e operadores de gruas etíopes. Esperta a senhora Merkel!

Claro que há algo de verdade nessa explicação. Mas já é um grande avanço compreender que a onda de refugiados, longe de aumentar o fardo da Europa, pode, pelo contrário, animar sua economia (um pouco como os irlandeses, os suecos e todo a miséria da Europa nos séculos passados estimularam o desenvolvimento industrial dos Estados Unidos).

E então vemos o comportamento dos alemães. "A Alemanha monta uma guarda de honra para os imigrantes", é o título do Le Monde. E é verdade, ao passo que a França, como a maioria dos países europeus faz desses imigrantes "um tormento e uma calamidade", 93% dos alemães se congratulam com a solidariedade demonstrada por Berlim. Na França, pesquisa mostra que 56% dos franceses são hostis à recepção dos imigrantes.

Claro que na França, como em todos os lugares, há pessoas inteligentes, sensíveis, nas paróquias cristãs, associações e famílias se dispõem a acolher alguns refugiados.

Mas nada se compara à Alemanha. Ali os maltrapilhos que chegam da Hungria e da Áustria são recebidas como amigos, irmãos, com comida, presentes, roupas. Como uma festa. E os refugiados são acolhidos decentemente e não encurralados em barracas com tetos rasgados.

Um belo zigue-zague da história. O país que foi a "capital da ignomínia" há 70 anos, à época de Hitler, hoje é o que redime a Europa. E sem dúvida podemos observar também uma prova do gênio histórico dos alemães. Eles compreenderam, antes dos outros, que essas dezenas de milhões de africanos e asiáticos vagando da Jordânia à Líbia, do Líbano à Turquia, da Grécia a Montenegro, constituem certamente a mais amarga e a mais perigosa prova à que está submetida a velha Europa, uma enorme "convulsão da história". E sua nova face e também a sobrevivência do seu espírito dependerão do modo como vencerá essa prova. / Tradução de Terezinha Martino

* É correspondente em Paris

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