Alemanha pode extraditar executivo francês

O futuro imediato do rumoroso processo Elf envolvendo altas personalidades da República francesa encontra-se, paradoxalmente, nas mãos de seu principal acusado, o ex diretor dos "negócios gerais" e ex número dois da empresa Alfred Sirven, preso na última sexta feira em Manila, nas Filipinas - acusado de desvio de fundos no valor de 500 milhões de dólares, quantia que evaporou em poucos anos das caixas da empresa estatal francesa durante os anos 90. Se na audiência de hoje em Frankfurt, onde se encontra detido, Sirven não confirmar sua vontade de ser transferido imediatamente para ser julgado na França, um bom advogado poderá atrasar de pelo menos seis meses sua extradição.Mesmo porque uma das pernas desse processo envolve a Alemanha, diante da suspeita de que comissões foram pagas pelo grupo Elf ao CDU, partido de Helmut Kohl, após a venda da refinaria alemã Leuna ao grupo francês. Ontem, um parlamentar alemão solicitou que Sirven seja ouvido sobre esse caso, antes de sua transferência para a França.Também ontem, a juíza alemã Eva Maria Wagner revelou a sua colega francesa Eva Joly que Alfred Sirven poderá ser extraditado durante esta semana, possivelmente ainda hoje, mas que tudo vai depender da audiência desta segunda-feira, quando ele deverá confirmar sua preferência pelo presídio de La Santé, em Paris, onde o aguarda uma cela vip.Por enquanto, o processo Elf está suspenso por alguns dias por decisão da presidente do Tribunal, Sophie Portier, aguardando a decisão alemã. Isso para alívio dos principais indiciados que vinham responsabilizando diretamente Sirven ainda antes de sua prisão, transformando-o no único bode expiatório. Esse foi o caso do ex-ministro do Exterior, Roland Dumas que durante um de seus depoimentos chegou a afirmar que "Sirven era a peça central desse escândalo", como se só ele pudesse prestar esclarecimentos mais precisos.Agora, as juízas Eva Joly e Laurence Vichiniesky terão que rever todas as peças do processo, mais de 100 mil páginas, aguardando a deposição de Sirven que poderá exigir novos depoimentos de numerosos outros indiciados, inclusive de Dumas e sua ex-amante, Christine Deviers Joncour, mas também do antigo presidente do grupo Elf, Loik Le Floch Prigent, que se considera traído pelo ex número dois do grupo.Com a prisão de Sirven , toda a estratégia dos advogados de defesa dos principais indiciados deverá ser modificada. Ontem, um advogado francês não alimentava muitas ilusões sobre um rápido julgamento dos envolvidos, tendo afirmado: " Meus netos assistirão um dia ao processo Elf".A grande incógnita atual é saber até que ponto Alfred Sirven, que conhece todos os aspectos das atividades ilícitas da Elf, estaria disposto a falar, comprometendo um número ainda maior de personalidades.Até agora, o exílio forçado de Alfred Sirven resolvia o problema de muita gente que centraliza seus ataques contra o diretor dos "negócios gerais" do grupo. Sabe-se, por exemplo, que numerosos assessores de políticos importantes, de esquerda e direita, recebiam interessantes salários mensais do grupo Elf, contratados como consultores. Caso, por exemplo, de Jean Christophe , filho do ex- presidente François Mitterrand, que durante um período recebeu 30 mil francos (US$ 4 mil) mensalmente. Muita roupa suja será lavada ainda durante o processo Elf na França.

Agencia Estado,

05 de fevereiro de 2001 | 02h06

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