Vincent Kessler/REUTERS
No ano passado, Navalny afirmou ter sido envenenado com uma substância que lhe causou um grave reação alérgica durante uma de suas diversas passagens pela prisão Vincent Kessler/REUTERS

Alemanha pressiona Rússia sobre caso Navalny e ameaça impor sanções ao país

Ministério das Relações Exteriores russo rebateu ao dizer que Berlim age para atrasar deliberadamente o processo de investigação do envenenamento

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2020 | 02h19
Atualizado 18 de setembro de 2020 | 13h49

BERLIM - A Alemanha vai iniciar discussões sobre possíveis sanções contra a Rússia se Moscou não der explicações sobre o envenenamento do líder opositor Alexei Navalny “nos próximos dias”. A advertência foi feita pelo ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas. 

“Dar ultimatos não ajuda em nada, mas se nos próximos dias a Rússia não contribuir para esclarecer o que aconteceu, então teremos que discutir uma resposta com outros países (da União Europeia)”, disse Maas. 

Segundo o ministro, se as sanções forem impostas, elas vão ser “seletivas”. 

Inimigo do Kremlin, Navalny está internado em um hospital de Berlim, onde, segundo o governo de Angela Merkel, os médicos diagnosticaram que ele havia sido envenenado na Rússia, antes do translado para a Alemanha, por um agente neurotóxico to tipo Novichok, criado na época soviética com fins militares. 

A Alemanha e outros países ocidentais pediram a Moscou para esclarecer as circunstâncias do envenenamento, mas até o momento as autoridades russas permanecem impassíveis. 

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zajárova, disse neste domingo, 6, que a Alemanha "está atrasando deliberadamente o processo de investigação que está exigindo".

Ela acusou as autoridades alemãs de não responderem a uma solicitação dos fiscais russos, feita no dia 27 de agosto. 

Heiko Maas questionou o papel da Rússia no envenenamento: “existem vários indícios neste sentido, esta é a razão pela qual o país deve reagir agora”.

“A substância mortal com a qual Navalny foi envenenado foi encontrada no passado em posse de autoridades russas e apenas um pequeno número de pessoas têm acesso ao Novichok.” Segundo Maas, o mesmo veneno foi utilizado no ataque contra o ex-agente russo Sergei Skripal. 

Sobre as eventuais sanções que a União Europeia poderia impor, o chefe da diplomacia alemã não descartou totalmente o projeto do gasoduto Nord Stream 2 - que está em fase final de construção - feito para abastecer a Alemanha e a Europa de gás russo, empreitada muito criticada pelos Estados Unidos. 

“De qualquer forma, não espero que os russos nos obriguem a mudar nossa posição sobre o Nord Stream”, disse o ministro, recordando as consequências que teria a anulação desse projeto e pedindo para não “reduzir” o debate sobre as sanções a esse único assunto./AFP

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Médicos dizem 'lutar' para salvar opositor russo; aliados denunciam tratamento no hospital

Navalny passou mal durante voo e está em tratamento intensivo na Rússia; ele seria transferido nesta sexta-feira para a Alemanha

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 04h38
Atualizado 21 de agosto de 2020 | 04h19

MOSCOU - Médicos afirmaram nesta quinta-feira, 20, que fazem todo o possível para salvar a vida do líder da oposição russa Alexei Navalny, internado na UTI de um hospital da Sibéria, vítima de possível envenenamento. Ele seria transferido para um hospital na Alemanha na madrugada desta sexta-feira, mas o translado foi cancelado após seu quadro ser classificado como "instável" pela equipe médica. Segundo a porta-voz de Alexei, Kira Yamysh, essa decisão pode ser "uma ameaça direta" à vida de Navalny.  

Yasmiysh afirmou que os médicos haviam concordado previamente com a transferência, mas mudaram de ideia no último minuto. "Essa decisão, é claro, não foi tomada por eles, e sim pelo Kremlin", escreveu ela no Twitter.  

"Os médicos estão fazendo tudo o que podem, eles estão realmente lutando para salvar sua vida", disse Anatoli Kalinitshenko, vice-diretor do hospital de Omsk, onde o opositor foi internado na Unidade de Terapia Intensiva, com um respirador. 

Nesta sexta-feira, o médico Alexander Murakhovsky disse que apesar de o estado de saúde de Navalny ter melhorado um pouco, ainda é instável e, por isso, uma tentativa de transferência seria um risco. Ele afirmou que existem cinco possíveis diagnósticos para a condição de Navalny e que o resultado dos exames deve sair em dois dias. Murakhovsky se recusou a responder se o líder opositor teria sido envenenado. 

Apesar de os aliados de Navalny desejarem sua transferência, Murakhovsky disse que várias questões legais precisariam ser resolvidas antes disso acontecer. Ele também contou que médicos foram levados de Moscou para Omsk para ajudar no tratamento. 

Navalny, um dos maiores críticos do Kremlin, passou mal após tomar um chá no aeroporto de Tomsk, na Sibéria, antes de viajar para Moscou, segundo sua representante, Kira Yamysh. A porta-voz, que viajava com ele, disse à rádio Echo Moscou que ele foi vítima de um "envenenamento intencional".

"Acreditamos que Alexei foi envenenado com algo misturado em seu chá. Essa foi a única coisa que ele bebeu pela manhã", disse no Twitter.

Segundo ela, Navalny parecia estar "totalmente bem" pela manhã em Tomsk, mas "logo após a decolagem, ele perdeu a consciência".

De acordo com os médicos, seu estado é grave e o suposto envenenamento é apenas "uma das teorias sob investigação".

Segundo a agência de notícias Interfax, exames iniciais indicam que havia em seu corpo sinais de um “agente psicodisléptico não identificado”. O canal de mensagens Baza, que atua no Telegram, noticiou que ele teria sido envenenado com GHB, uma das drogas habitualmente usadas em golpes conhecidos como “boa noite, Cinderela”.

Resgate organizado por ativistas

Ele seria transferido para a Alemanha na madrugada desta sexta-feira, 21, mas segundo Kira Yarmysh, sua porta-voz, o médico responsável por ele disse que seu estado de saúde é "instável" e, por isso, a viagem não seria recomendável. Para ela, a decisão "é uma ameaça direta para sua vida", escreveu Kira no Twitter. 

O braço direito do ativista, Leonid Volkov, denunciou uma "decisão política, não médica". Ele diz que "os médicos esperam que as toxinas saiam e não possam ser detectadas em seu corpo. Não há diagnóstico, nem análise. A vida de Alexei está em perigo".

Um avião-ambulância decolou da Alemanha com destino à Rússia à meia-noite local (19h de Brasília) para buscar Navalny, informou à Agência France Press uma organização não governamental que organizou o transporte. A Cinema for Peace já organizou uma operação similar em 2018 para uma das integrantes do grupo punk russo Pussy Riot.

Navalny, o principal nome da oposição a Putin

Navalny é o principal nome do movimento de oposição ao Kremlin e esta não é a primeira vez que recebe ameaças. No ano passado, ele afirmou ter sido envenenado com uma substância que lhe causou um grave reação alérgica durante uma de suas diversas passagens pela prisão. Em 2017, foi atacado por um homem desconhecido com um líquido verde, perdendo 80% da visão de um olho e sofrendo queimaduras químicas.

Ele é fundador do Fundo Anticorrupção (FBK), entidade que se tornou conhecida nos últimos anos por descobrir e publicar nas redes sociais escândalos de corrupção das elites políticas e empresariais russas. 

Nos últimos anos, o grupo conseguiu construir uma rede local grande pelo país. O FBK já foi considerado culpado de violar uma lei de "agente externo" por aceitar financiamento estrangeiro e Navalny, condenado por corrupção. 

Seus apoiadores, no entanto, afirmam que ele é vítima de perseguição política pelo Kremlin. O advogado já foi barrado de participar de diversas eleições e, frequentemente, é detido nas manifestações antigoverno que muitas vezes lidera.

Envenenamento no chá de Navalny

A polícia de Omsk disse que está investigando um possível envenenamento, mas segundo a agência de notícias estatal Tass, esta hipótese não é considerada. De acordo com uma fonte da agência, não se exclui que Navalny tenha “bebido ou tomado algo por conta própria”.

A companhia aérea que o transportava, a S7, no entanto, disse que ele não bebeu ou comeu nada enquanto estava no ar. Segundo o relato que um passageiro, Pavel Lebedev, postou em suas redes sociais, Nalvany gritava de dor pouco antes de perder a consciência.  

Vídeos postados nas redes sociais o mostram sendo transportado para uma ambulância após a aeronave pousar em Omsk.

Opositores envenenados

O suposto envenenamento de opositores do  regime de Putin não é algo raro na Rússia. Em 2006, Alexander Litvinenko, ex-agente da KGB e crítico de Putin, morreu em Londres após beber chá envenenado com polônio-210. 

Oito anos depois, Sergei Skripal, um russo que trabalhava como agente duplo para as Inteligências russa e britânica, foi envenenado com um agente nervoso em Salisbury, no Reino Unido.

Em 2018, Petr Verzilov, editor do site independente Mediazona, passou um mês na UTI após uma substância desconhecida lhe custar a fala e parte da visão. O Kremlin nega qualquer envolvimento com os casos, chamando-os de "provocações anti-Rússia". /AFP e Reuters

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Para o Kremlin, Alexei Navalni é uma ameaça a respeito da qual não se pode falar

Há mais de 20 anos no poder, Putin nunca pronunciou em público o nome do seu mais importante adversário

Andrew Higgins, The New York Times

03 de setembro de 2020 | 07h00

MOSCOU - Um filme de propaganda favorável ao Kremlin, postado antes das eleições presidenciais da Rússia em 2018, difamou Alexei Navalni, o líder da oposição russa que atualmente se encontra em coma em um hospital alemão, depois de sofrer uma tentativa de envenenamento, como a reencarnação de Adolf Hitler.

Um ex-primeiro-ministro, o alvo da mais forte denúncia de corrupção feita por Navalni, o descreve como um “político golpista”.

Para o presidente Vladimir Putin, entretanto, o defensor da campanha contra a corrupção é uma espécie de Lord Voldemort, uma figura, cujo nome, assim como o arquinimigo de Harry Potter, “não pode ser mencionado”.

Há mais de 20 anos no poder, Putin nunca pronunciou em público o nome do seu mais importante adversário, segundo os arquivos dos seus discursos e entrevistas no site do Kremlin. Quando disse o seu nome depois da insistência de um interlocutor americano durante um evento privado em 2013, ele se tornou um personagem do noticiário nacional.

Além de referências a Navalni que constam de transcrições oficiais de coletivas à imprensa, o site do Kremlin se dignou a usar o seu nome somente na semana passada – e portanto reconheceu que o crítico mais incansável de Putin realmente existe.

“Há um estranho tabu. Ele é uma figura sacral, mística”, disse Dmitri Belousov, um ex-roteirista da televisão estatal que escreveu durante anos relatando o caráter dos assassinatos de inimigos do Kremlin. Temendo ser preso por seu antigo interesse particular pelo anarquismo, ele fugiu da Rússia no ano passado, e busca o asilo político na Holanda.

Ele disse que os alvos de personagens da televisão – ordenados por funcionários do Kremlin e produzidos com as comprometedoras imagens fornecidas pelos serviços secretos – incluíram o ex-prefeito de Moscou, considerado por algum tempo um possível rival de Putin, Mikhail Khodorkovsky, mas foi Navalni que atraiu a ira mais perversa.

“Eles realmente odeiam Navalni”, disse Belousov, porque “o que ele fez foi algo que fugiu realmente do controle deles”. O Kremlin combate todas as forças que não consegue controlar. Esta é a sua estratégia norteadora”.

Outro motivo da ira, prosseguiu, foi o fato de apesar de os serviços secretos o caçarem durante anos, nunca encontraram qualquer material comprometedor a seu respeito.

A luta continua até mesmo enquanto o seu inimigo está em coma em um hospital alemão. Yevgeny Prigozhin, um empresário que tem o apelido de “o cozinheiro de Putin” e alvo das investigações de Navalni nos casos de corrupção, disse na semana passada que adquiriu algumas das dívidas de Navalni e o obrigará a pagá-lo quando tiver a possibilidade.

“Evidentemente, se o camarada Navalni vier a falecer, pessoalmente não penso em processá-lo neste mundo”, acrescentou Prigozhin.

Mesmo inconsciente, Navalni consegue irritar o Kremlin e seus aliados. Na segunda-feira, a sua organização, a Fundação Anti-Corrupção, divulgou um vídeo em que Navalni aparece denunciando políticos corruptos do Kremlin durante uma recente viagem à cidade siberiana de Novosibirsk. Ele mencionou 18 legisladores locais  que teriam estreitos vínculos suspeitos com uma indústria da construção, notória pela corrupção.

No voo de volta a Moscou, no dia 20 de agosto, Navalni adoeceu gravemente e poderia ter morrido se o piloto não tivesse feito um pouso de emergência na cidade de Omsk, onde foi hospitalizado por dois dias e, em seguida, mandado de avião a Berlim para tratamento.

Segundo os médicos alemães, Navalyn foi envenenado. O porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, menosprezou este julgamento como “um barulho vazio” e informou que a Rússia não via nenhuma razão para abrir uma investigação sobre o acontecido o que acontecera ao “paciente”, uma nova maneira de referir-se a Navalni, como os outros termos “o cavalheiro”,  “a pessoa que você mencionou”, “o réu” que o Kremlin usa para evitar mencionar o seu nome.

O momento escolhido para o envenenamento, depois de protestos em massa na vizinha Bielo-Rússia por causa da disputada eleição presidencial, e de semanas de manifestações de rua no Extremo Leste da Rússia, gerou muitas especulações. Por que, depois de tantos ataques  ao caráter de Navalni ao longo dos anos e, em pelo menos duas ocasiões, à sua pessoa, as ameaças repentinamente aumentaram, chegando, ao que tudo indica, à tentativa de assassinato?

Uma teoria amplamente difundida é que o Kremlin, assustado pelos protestos no oeste na Bielo-Rússia, e no leste em Khabarovsk, quis tirar Navalni do caminho a fim de impedir que mobilizasse o descontentamento mais perto de Putin e tumultuasse seus planos para as eleições parlamentares do próximo ano.

Uma teoria alternativa, entretanto, é que o envenenamento de Navalni não aponta para a força de um sistema de repressão impiedosamente eficiente, mas para a fraqueza de um sistema cuja resposta  a ameaças potenciais se tornou tão degradada que o Estado não mais funciona como uma unidade, mas como uma mescla de clãs rivais e de executores freelances com rancores, como Prigozhin.

“Cada elemento do sistema age de acordo com sua própria lógica, e não no interesse do sistema como um todo”, disse Tatiana Stanovaya, fundadora de um escritório de análises políticas, R. Politika, e autora de um recente artigo  que define o envenenamento como “o ato de um regime doentio”. “O envenenamento não é a maneira mais eficiente de lidar com um adversário. É uma idiotice total”.

À confusão, acrescenta-se o fato de que, ao contrário das vítimas de vários outros horrorosos casos barrocos de envenenamento, ligados à Rússia, Navalni nunca foi classificado como traidor, uma categoria de inimigo que Putin despreza particularmente, e que, segundo ele, não merece misericórdia.

Putin e outros na elite governante da Rússia não temem tanto Navalni, segundo Stanovaya, quanto o desprezam como um intruso incômodo.

“Eles são como os moradores de um bairro residencial de luxo que querem livrar-se de um vagabundo que começa dormindo perto de sua maravilhosa fonte”, ela disse. “Navalni não faz parte do seu mundo, e querem que desapareça”.

Stanovaya acrescentou que a elite governante da Rússia – particularmente  os ex-funcionários da KGB como Putin e muitos dos seus assessores mais próximos – consideram o líder da oposição “um instrumento” usado pelos inimigos externos da Rússia, “e não como um rival e nem mesmo como uma pessoa”.

“O nosso país é governado pela lógica da KGB”, afirmou.

“Ninguém inspira tanta hostilidade e temor quanto Navalni”, observou Nikolai Petrov um pesquisador da Chatham House de Londres e especialista no processo de tomada de decisões do Kremlin. Isto, acrescentou, significa que existe uma lista muito longa de inimigos em potencial que poderiam querer que ele morresse, ou pelo menos ficasse incapacitado.

Mas, acrescentou, Navalni é um alvo tão importante que ninguém por rancor pessoal faria algo contra ele sem pelo menos o tácito consentimento de Putin.

“É como a máfia: nada pode ser feito sem a aprovação e a garantia de impunidade do chefão”, afirmou. “Não estou dizendo que Putin tenha dado uma ordem direta para envenená-lo, mas ninguém pode agir a não ser que tenha a certeza de que o chefão ficará satisfeito e não o punirá”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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Otan diz que Rússia precisa cooperar em inquérito de envenenamento de Navalny

Kremlin diz não ver 'indícios de crime' apesar da Alemanha confirmar que o opositor de Putin foi envenenado por agente nervoso Novichok

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 13h00

BRUXELAS - Aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) concordaram nesta sexta-feira, 4, que a Rússia precisa cooperar totalmente com uma investigação imparcial sobre o envenenamento do líder de oposição Alexei Navalni a ser realizada pela Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), disse o chefe da aliança.

A Alemanha, onde Navalni está hospitalizado, disse que ele foi envenenado com o agente nervoso Novichok, desenvolvido por cientistas soviéticos entre as décadas de 1970 e 1980. A arma química, vetada pela Opaq, foi usada em 2018 para envenenar o ex-espião Serguei Skripal e sua filha Yulia em Salisbury, no Reino Unido. Na época, o Kremlin negou envolvimento. No caso atual, os russos dizem não ver "indícios de um crime".

“Qualquer uso de armas químicas mostra um desrespeito total por vidas humanas e é uma violação inaceitável das normas e regras internacionais”, disse o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, em coletiva de imprensa.

“Nossos aliados concordam que agora a Rússia tem perguntas sérias a responder. O governo russo precisa cooperar plenamente com a Organização para a Proibição de Armas Químicas em uma investigação internacional imparcial”, defendeu em reunião com embaixadores da aliança.

Navalni é o oponente mais popular e proeminente do presidente russo, Vladimir Putin. Ele é fundador do Fundo Anticorrupção (FBK), entidade que se tornou conhecida nos últimos anos por descobrir e publicar nas redes sociais escândalos de corrupção das elites políticas e empresariais russas.

No ano passado, ele afirmou ter sido envenenado com uma substância que lhe causou um grave reação alérgica durante uma de suas diversas passagens pela prisão. Em 2017, foi atacado por um homem desconhecido com um líquido verde, perdendo 80% da visão de um olho e sofrendo queimaduras químicas.

O anúncio alemão desta semana de que ele foi envenenado com um agente nervoso levantou a possibilidade de mais sanções ocidentais contra Moscou. Stoltenberg disse que os aliados da Otan pediram a Moscou uma divulgação completa de seu programa Novichok à Opaq. “Aqueles responsáveis pelo ataque precisam ser responsabilizados e levados à Justiça. Uma vez após outra vemos líderes da oposição e críticos do regime russo serem atacados e suas vidas serem ameaçadas. Alguns até foram mortos”, disse.

Descrevendo o caso Navalni como “um ataque contra direitos democráticos fundamentais” e também contra um indivíduo, Stoltenberg disse que os aliados da Otan continuarão a se consultar a respeito do incidente e “considerar suas implicações”. / Reuters

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Relembre outros casos de opositores russos envenenados

Tática não é incomum na Rússia, liderada por Vladimir Putin há 20 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 10h36

O suposto envenenamento no chá de Alexei Navalny, principal opositor ao governo de Vladimir Putin, nesta quinta-feira, 20, é apenas mais um em uma história longa de pessoas que entraram em rota de colisão com o Kremlin e passaram mal ou morreram em condições suspeitas.

Navalny passou mal após tomar um chá no aeroporto de Tomsk, na Sibéria, antes de viajar para Moscou. Navalny é o principal nome do movimento de oposição ao Kremlin. No ano passado, ele afirmou ter sido envenenado com uma substância que lhe causou um grave reação alérgica durante uma de suas diversas passagens pela prisão. 

Serguei Skripal

Em 2018, o ex-agente duplo russo Serguei Skripal e sua filha, Yulia, foram encontrados inconscientes em um centro comercial em Salisbury, no sul da Inglaterra, e hospitalizados em estado grave.

Londres acusou Moscou de estar por trás desse envenenamento com Novitchok, um poderoso agente neurotóxico de concepção soviética, em retaliação por sua colaboração com os serviços de inteligência britânicos. O Kremlin negou e o caso provocou uma crise diplomática. 

Serguei Skripal e sua filha deixam o hospital nos meses seguintes. Este envenenamento fez uma vítima colateral, uma mulher que morreu depois de espirrar o que achava ser perfume contido em um frasco pego por seu companheiro. 

Alexander Litvinenko

Um dos casos mais importantes de assassinatos por envenenamento é o de Alexander Litvinenko. Ex-agente do Serviço Federal de Segurança russo (FSB, sucessor da KGB), ele morreu em 23 de novembro de 2006 em um hospital de Londres dias após adoecer pelo efeito do isótopo polônio 210.

O ex-espião, que virou um importante crítico de Putin, pediu asilo político ao chegar em Londres em novembro de 2000, obteve nacionalidade britânica e passou a trabalhar para o serviço secreto MI6. A conclusão da Justiça britânica foi de que Putin "provavelmente aprovou" o assassinato do ex-espião. 

A Justiça afirmou que os ex-agentes russos Andrei Lugovoi e Dmitri Kovtun, com os quais Litvinenko se reuniu no dia em que foi envenenado após tomar uma xícara de chá, teriam atuado sob a direção dos serviços de inteligência russos quando foi assassinado.

Litvinenko também acusava o serviço secreto russo de ter sido cúmplice nos atentados a bomba atribuídos a separatistas chechenos em 1999, o que serviu de pretexto para operações militares na região e ajudaram a alçar Putin ao poder. Em entrevistas, dizia que para o serviço russo o uso do envenenamento era "apenas uma arma", sendo visto como "uma ferramenta comum". 

Vladimir Kara-Murza

O opositor russo Vladimir Kara-Murza não morreu, mas já sobreviveu a dois envenenamentos por seu trabalho na oposição ao presidente Vladimir Putin e por atuar para promover a democracia e a liberdade de imprensa na Rússia. Kara-Murza é um dos coordenadores do Open Russia, uma organização cívica fundada por Mikhail Khodorkovski, também crítico de Putin. 

O primeiro caso foi em 2015, em uma reunião, quando ele teve aumento da pressão sanguínea, passou a suar muito, vomitou e perdeu a consciência. Tudo em menos de 20 minutos, de acordo com relatos do jornal The New York Times.  

Kara-Murza também era ligado a Boris Nemtsov, outro líder político de oposição e crítico de Putin, que foi morto perto do Kremlin em fevereiro de 2015. Em 2017, Kara-Murza passou por um envenenamento semelhante e descreveu os mesmos sintomas, mas sobreviveu. 

Alexander Perepilichni

Em 2012, o empresário russo foi encontrado morto em frente a sua propriedade em Surrey, na Inglaterra. Segundo a polícia, tratou-se de morte natural. Mas os exames solicitados por uma companhia de seguros revelam que ele ingeriu uma molécula associada ao gelsemium, uma planta tóxica da Ásia. 

Anna Politkovskaya

Anna Politkovskaya era uma jornalista crítica ao governo russo que tinha 48 anos quando foi assassinada a tiros ao voltar para casa depois de fazer compras. Ela fez grandes reportagens sobre violações dos direitos humanos na Chechênia.

Antes de ser assassinada em 2006, ela também foi alvo de envenenamento. Quando faria uma viagem para a Ossétia do Norte, em 2004, entrou no avião e se sentiu mal após tomar um chá que ela acreditou estar envenenado. Ela foi hospitalizada. 

Ao jornal britânico The Guardian, ela relatou que uma enfermeira sussurrou no seu ouvido que ela foi vítima de uma tentativa de envenenamento. / Com informações da AFP 

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