John MACDOUGALL / AFP
John MACDOUGALL / AFP

Alemanha sepulta vítimas de experimentos nazistas depois de 70 anos

Restos de tecidos pertenciam a mulheres submetidas a estresse e medo para que médico analisasse os efeitos no sistema reprodutivo; iniciativa do hospital Charité, após três anos de pesquisas, tem como objetivo 'dar dignidade às vítimas'

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 10h31
Atualizado 15 de maio de 2019 | 10h35

BERLIM - A cidade de Berlim enterrou nesta segunda-feira, 13, na presença dos descendentes, os restos microscópicos encontrados recentemente de vítimas do nazismo durante a 2ª Guerra cujos corpos foram objeto de experimentos médicos durante a guerra, um episódio relativamente desconhecido do período nacional-socialista. 

A cerimônia no cemitério de Dorotheestadt foi uma iniciativa do grande hospital da capital alemã, Charité, após três anos de pesquisas e teve a presença de um rabino e de integrantes da Igreja protestante. "Com o enterro das mostras microscópicas extraídas naquele momento dos corpos, queremos dar um pouco de dignidade às vítimas", afirmou o diretor do hospital Charité, Karl Marx Einhäupl.

Para Saskia von Brockdorff, cuja mãe, Erika von Brockdorff, foi decapitada na prisão berlinense de Plötzensee há exatos 76 anos por fazer parte do famoso movimento de resistência Orquestra Vermelha, trata-se de "colocar um ponto final nesta história".

"Agora sei onde posso chorar (a perda) da minha mãe, executada em 13 de maio de 1943 na prisão. Estou contente de poder vir aqui", disse Saskia, de 81 anos.

A iniciativa é uma demonstração dos esforços, recentes, do hospital para "enfrentar o passado", destaca o memorial da Resistência Alemã, que também organizou a cerimônia. "Porque muitos de seus médicos, que ocupavam cargos na direção, transformaram, durante o período nacional-socialista, suas clínicas e institutos em locais que praticavam a medicina racial e de destruição dos nazistas", completou Einhäupl. 

Dos opositores ao regime nazista que serão enterrados não restam mais que 300 tecidos dispostos em lâminas de laboratório que os herdeiros do médico anatomista que fazia os experimentos na época, Hermann Stieve, encontraram em uma pequena caixa.

Os restos mortais, pouco visíveis, foram entregues em 2016 ao professor Andreas Winkelmann para uma tentativa de identificação. "Em geral, não se consideraria que tecidos tão minúsculos mereceriam o enterro, mas neste caso a história é particular, pois procedem de pessoas que tiveram o sepultamento deliberadamente negado para que seus parentes não soubessem onde estavam", explicou Winkelmann. 

Embora não tenha conseguido determinar exatamente a quantas pessoas pertenceram as 300 mostras, Winkelmann trabalhou a partir de 20 nomes e de algumas pistas cifradas que estabeleciam um vínculo claro com a prisão de Plötzensee, onde 2.800 pessoas foram enforcadas ou degoladas pelos nazistas entre 1933 e 1945. 

A pedido das famílias, os nomes das vítimas enterradas não serão divulgados. Mas foi possível saber que a maioria eram mulheres. Isto porque Hermann Stieve, que foi diretor do Instituto Universitário de Anatomia de Berlim de 1935 até sua morte, em 1952, se especializou no estudo dos efeitos do estresse e do medo no sistema reprodutivo feminino. 

'Simples objetos'

Para avançar em suas pesquisas, este renomado cientista estudava, em particular, os tecidos histológicos genitais extraídos de mulheres executadas pelo regime nazista.

Entre seus objetos de pesquisa estavam 13 das 18 resistentes do grupo berlinense Orquestra Vermelha, incluindo a americana Mildred Fish Harnack, guilhotinada em 1943 a pedido expresso de Adolf Hitler.

Ao contrário de outros cientistas mais conhecidos por sua crueldade, como Josef Mengele, "o anjo da morte" de Auschwitz, Hermann Stieve não pertencia ao Partido Nacional-Socialista (NSDAP) e não fez experimentos com pessoas vivas. Ele sabia perfeitamente, porém, que os cadáveres que usava como cobaias haviam sido torturados.

"Isso mostra sua frieza. Via estas pessoas como simples objetos", afirma Wikelmann. O médico "cooperou com o sistema judiciário nazista para (fazer avançar) suas investigações", completa.

'Membro de honra'

Pouco interessado em seu âmbito científico, o regime de Hitler saía ganhando, "porque era uma nova maneira de humilhar as vítimas" e de privá-las de uma sepultura, diante da qual familiares e partidários poderiam ter-se reunido. Os corpos foram, provavelmente, lançados em fossas comuns.

Depois da guerra, Hermann Stieve não se preocupou com a Justiça e continuou sua carreira, como muitos outros cientistas que trabalharam com e para os nazistas. Apenas os mais altos responsáveis médicos do Terceiro Reich foram condenados durante o "Julgamento dos Médicos" de Nuremberg, organizado pelos aliados vitoriosos.

Hoje, porém, a ginecologia moderna considera seus resultados importantes, apesar das condições de suas pesquisas. Continua sendo "membro de honra a título póstumo" da Sociedade Alemã de Ginecologia e Obstetrícia.

Coorganizados pelo Monumento à Resistência Alemã e pelo Grande Hospital berlinense da Beneficência, herdeiro do Instituto de Anatomia do doutor Stieve, os enterros de segunda põem a carreira deste cientista em perspectiva.

"Ainda há algumas questões sobre Hermann Stieve para resolver e a forma como dirigiu seus estudos", insiste Winkelmann, que analisa há anos os trabalhos do anatomista.

"Não quero fechar este capítulo (da história alemã), porque as futuras gerações devem saber o que aconteceu e por que consideramos isso inaceitável", acrescentou. / AFP

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