Odd ANDERSEN / AFP
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Alemanha suspende licença de principal gasoduto com Rússia; Reino Unido aplica sanções contra bancos

Chanceler Olaf Scholz anunciou que bloqueio das autorizações para o Nord Stream 2 é uma represália às ações de Moscou na Ucrânia; Reino Unido e União Europeia definem sanções nesta terça

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2022 | 09h05
Atualizado 03 de março de 2022 | 11h59

O chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, anunciou nesta terça-feira, 22, que tomou medidas para interromper o processo de certificação do gasoduto Nord Stream 2, principal obra de infraestrutura energética do país, que transportaria gás natural da Rússia para o país. O anúncio vem um dia depois de Vladimir Putin autorizar tropas russas a entrarem em território ucraniano, nas regiões de Donetsk e Luhansk, recém-reconhecidas pelo Kremlin como Estados independentes.

Scholz declarou a repórteres em Berlim que seu governo estava tomando a medida em resposta às ações russas na Ucrânia. "Isso pode soar um pouco técnico, mas é a etapa administrativa necessária para que não haja certificação do gasoduto e sem essa certificação, o Nord Stream 2 não pode começar a operar", disse ele, em fala registrada pelo The Moscow Times.

A decisão alemã sobre o gasoduto -- principal alvo de críticas dos EUA e de aliados europeus à Alemanha, que acusam a obra de infraestrutura de aumentar a dependência energética da Alemanha pela Rússia -- é a primeira medida mais contundente de Berlim contra Moscou, enquanto autoridades da europa discutem outras formas de pressionar o Kremlin.

A Ucrânia saudou a decisão da Alemanha de suspender a certificação do gasoduto como uma questão moral, escreveu o ministro das Relações Exteriores ucraniano, Dmytro Kuleba. "Este é um passo moral, politicamente e praticamente correto nas circunstâncias atuais. A verdadeira liderança significa decisões difíceis em tempos difíceis. O movimento da Alemanha prova exatamente isso", tuitou Kuleba.

O Reino Unido também parabenizou a decisão da Alemanha de suspender a certificação do gasoduto Nord Stream 2. Um porta-voz do premiê Boris Johnson afirmou que "as ações da Rússia da noite para o dia podem ser precursoras de uma invasão em grande escala".

Abastecimento de 26 milhões residência

O gasoduto de 1.200 quilômetros entre a Rússia e a Alemanha, que atravessa o Mar Báltico, ficou pronto em setembro, mas ainda não tinha entrado em operação. Ele teve um custo de US$ 11,3 bilhões, metade pago pela empresa estatal russa Gazprom e o restante por empresas ocidentais como Shell e Engie, da França. 

O Nord Stream 2 – que corre paralelamente ao Nord Stream, em operação desde 2011 – tem a capacidade de fornecer gás russo a 26 milhões de residências na Europa. Os dois gasodutos juntos teriam a capacidade de fornecer mais de um quarto de todo o gás que a Europa consome atualmente.

EUA, Reino Unido, Polônia e Ucrânia se opõem ao Nord Stream 2 por acreditarem que, assim que começar a funcionar, a Rússia terá mais controle sobre o fornecimento de gás à Europa. A Rússia já tem gasodutos terrestres passando pela Ucrânia e a Polônia, mas investiu pesadamente nesses dutos submarinos para aumentar o fornecimento de gás para a Europa e porque os governos ucraniano e polonês cobram tarifas elevadas para o trânsito do combustível.

Exportadores

Em um Fórum dos Países Exportadores de Gás, em Doha, os países produtores de gás alertaram que têm capacidade limitada para aumentar rapidamente sua oferta para a Europa, e os preços não são claros.

O ministro de Energia do Catar, Saad Cherida al-Kaabi, afirmou que o Catar, um dos maiores exportadores de gás, garante sua “ajuda” à Europa, em caso de dificuldades de abastecimento. Mas ele esclareceu que se limitaria aos estoques disponíveis, uma vez que os produtores estão comprometidos com “contratos de longo prazo”.

Em sua opinião, “os volumes que podem ser redirecionados (para outros clientes) representam entre 10% e 15%" desses estoques. “A Rússia representa entre 30% e 40% da oferta da Europa e substituí-la rapidamente é quase impossível”, continuou. “Prever quais serão os preços, se vão subir, ou descer, está apenas nas mãos de Deus", disse o ministro à imprensa.

Sanções

A União Europeia e o Reino Unido também articulam uma primeira onda de sanções contra a Rússia após os anúncios de Vladimir Putin sobre a Ucrânia, em reuniões da Câmara dos Comuns, em Londres, e em um encontro com ministros das Relações Exteriores da União Europeia, em Paris.

Aos representantes britânicos, o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou sanções a cinco bancos russos (Rossiya, IS Bank, General Bank, promsvyazbank and the Black Sea Bank) e sações a três "indivíduos de alta renda" russos: Gennady Timchenko, Boris Rotenberg e Igor Rotenberg. De acordo com o jornal britânico The Guardian, todos os ativos dos sancionados no Reino Unido ficarão congelados e os três indivíduos estão proibidos de entrar no país ou de manter negócios com empresas ou prestadoras de serviço britânicas.

Timchenko é um bilionário com participações em diversas empresas, incluindo na companhia de gás Novatek, e uma das pessoas mais poderosas da Rússia, segundo a revista Forbes; Rotenberg, junto com seu irmão, Arkady Rotenberg, é proprietário do banco SMP Bank; e Igor Rotenberg, filho de Arkady Rotenberg, é controlador da empresa de energia Gazprom Bureniye. Todos possuem relações muito próximas com Vladimir Putin.

Antes da ida ao Parlamento, Johnson havia conversado com repórteres e anunciado que um pacote de sanções econômicas contra Moscou seria instituído "imediatamente". "Esta é, devo enfatizar, apenas a primeira enxurrada de sanções econômicas do Reino Unido contra a Rússia, porque esperamos, devo dizer, que haverá mais comportamentos irracionais russos por vir", declarou.

No caso das sanções britânicas, Johnson afirmou que elas seriam destinadas não apenas a entidades em Donbass, Luhansk e Donetsk, mas na própria Rússia "visando os interesses econômicos russos o máximo que pudermos". O Reino Unido já ameaçou cortar o acesso de empresas russas a dólares americanos e libras esterlinas, impedindo-as de levantar capital em Londres.

Também não foi especificado sobre quem incidirão as sanções, mas Johnson prometeu que não haverá lugar para os oligarcas russos se esconderem.O premiê também disse que os alvos podem incluir bancos russos.

Centenas de bilhões de dólares fluíram da Rússia para Londres e territórios ultramarinos do Reino Unido desde a queda da União Soviética em 1991, e Londres se tornou a cidade ocidental preferida dos super-ricos da Rússia e de outras ex-repúblicas soviéticas./ REUTERS E AP

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