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História aos pedaços: Alemanha une cacos do terror comunista

Stasi transformou documentos em quebra-cabeças de milhões de peças para esconder repressão

Jamil Chade, enviado especial / Berlim, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 05h00

BERLIM - Em 4 de dezembro de 1989, enquanto ruía o governo comunista da Alemanha Oriental e o muro de Berlim já fazia parte do passado, centenas de cidadãos que jamais tinham se envolvido na política invadiram e ocuparam de forma pacífica os escritórios da temível Stasi, a polícia secreta da Alemanha comunista, em Erfurt.

Naquele dia, eles começaram a impedir os espiões de queimar 15 mil bolsas com papel picado, quase 114 quilômetros de arquivos com detalhes preciosos sobre a repressão imposta pela Stasi em 40 anos.

Começou então um lento processo de reconstrução dos arquivos. A estimativa dos historiadores alemães é que o serviço de espionagem criou um banco de dados de dimensões inéditas até então, com mais de 6 milhões de fichas individuais. Das 15 mil sacolas originais salvas pela população, menos de 100 já foram esvaziadas e reconstruídas.

Agora, o projeto de quase 30 anos vive um impasse. A tecnologia não conseguiu permitir um avanço do trabalho e ninguém sabe dizer quantas páginas destruídas ainda estão em sacos para serem resgatadas.

Os arquivistas que tentam montar esse quebra-cabeça constataram que os funcionários do Ministério de Segurança do Estado – o nome oficial da Stasi –, da mesma forma que organizaram um dos maiores esquemas de espionagem do século 20, agiram de maneira eficaz para não deixar rastros do que de fato ocorreu durante 40 anos da repressão. 

Historiadores alemães estimam que entre 10% e 40% de todos os arquivos desapareceram de forma definitiva. A perda só não foi maior por causa da ocupação dos prédios da Stasi pela população. “Eles destruíram muita coisa. Mas foram pegos em flagrante”, explicou ao Estado a representante da Comissão Federal para os Arquivos da Stasi, Dagmar Hovestadt. 

Ocupação

O movimento de ocupação começou em 3 de dezembro de 1989, quando um grupo de moradores de Erfurt se reuniu para colocar em 4 mil caixas de correios da região um panfleto em que se pedia que todos fossem no dia seguinte até os escritórios do Ministério de Segurança e parassem a destruição das provas de 40 anos de crimes cometidos pela Stasi. 

Os moradores já haviam apelado à polícia e ao prefeito, sem resultado. No dia 4, um trabalhador do setor de transportes, com seu caminhão, barrou a saída de serviço da Stasi para impedir que os sacos de papel continuassem a ser levados a um pátio e queimados.

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Centenas de pessoas entraram no edifício e descobriram, para sua surpresa, milhares de páginas de documentos sendo picotadas. O movimento deu início a uma onda de ocupações de prédios da Stasi em Suhl, em Leipzig e em 15 outras cidades. Em 15 de janeiro de 1990, a sede do Ministério em Berlim também seria ocupada. 

Assim que a reunificação ocorreu, em outubro de 1990, o governo deu início a um amplo projeto para resgatar e abrir os arquivos da Stasi. Um meticuloso trabalho começou para colar cada parte dos papéis rasgados. Inicialmente, os milhares de pedaços foram manipulados por arquivistas e historiadores à mão.

Em 2013, engenheiros desenvolveram algoritmos para permitir que a tarefa fosse realizada por computadores, com scanners que poderiam ajudar a identificar quais papéis iriam com quais pedaços picotados. 

O programa teria a capacidade de identificar papéis da mesma textura, cor e grafias similares, para facilitar o trabalho dos arquivistas. “Conseguimos reconstruir 80 mil páginas”, explicou Dagmar.

A partir desses documentos recuperados, os arquivistas conseguiram descobrir sobre escritores e intelectuais que foram perseguidos e até alianças clandestinas do governo do Leste com grupos terroristas estabelecidos na Alemanha Ocidental. Uma das cartas recuperadas conta ainda a história de um estudante austríaco de teologia que entregou colegas que tinham confessado planos de fugir para o Ocidente. Em troca, ele ganhou uma bolsa para completar seus estudos.

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Desde que a reconstrução começou, 7 milhões de consultas foram realizadas, das quais 2 milhões feitas por cidadãos que quiseram saber o que a espionagem fez com suas vidas. Mas há dois anos os pesquisadores aguardam um avanço na tecnologia para que o processo possa ser acelerado.

Ao Estado, Dagmar confirmou que o projeto de 8 milhões de euros teve de ser temporariamente suspenso até que se encontre uma nova forma de lidar com o papel picado. Enquanto isso, o trabalho avança a passos lentos, com uma pequena equipe que tenta montar o quebra-cabeça à mão. 

Para Dagmar, não restam dúvidas sobre a necessidade de manter o trabalho. “Esses arquivos são depósitos da memória de um país”, defendeu. “No século 20, a Alemanha viveu de forma diferente duas ditaduras. A Alemanha Ocidental teve sérias dificuldades para lidar com seu passado e a Era Hitler.

Quando a segunda ditadura acabou, na Alemanha Oriental, houve uma determinação de não repetir os mesmos erros. Havia uma decisão clara de que não se poderia esperar e tal realidade nunca mais poderia ser tolerada”, completou. O que poucos imaginavam é que o trabalho de reconstrução desse passado levaria quase o mesmo número de anos que vigorou a repressão da própria Stasi.

Repressão da Stasi durou 40 anos

O Ministério para Segurança do Estado, a famigerada Stasi – forma abreviada para Staatssicherheit – foi criada em 1949. Com quase 91 mil oficiais, a Stasi funcionava como instrumento de força do SED, o partido socialista alemão. Cabia a ela vigiar e oprimir qualquer tipo de oposição. Era o "escudo e a espada" do regime: foi polícia política, agência de contraespionagem, serviço de informação e órgão de instrução (judiciária ou policial) em processos criminais. Estima-se que a Stasi tinha quase 173 mil informantes.

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