Tobias Schwarz / Efe
Tobias Schwarz / Efe

Alemão 'contador de Auschwitz' é condenado a 4 anos de prisão por ser cúmplice de mortes

Oskar Groening, 94 anos, coletava os pertences e ficava com o dinheiro de judeus que chegavam ao campo de concentração

O Estado de S. Paulo

15 de julho de 2015 | 09h35

LUENEBURG, ALEMANHA - Um alemão de 94 anos que trabalhou como contador no campo de concentração de Auschwitz foi condenado nesta quarta-feira, 15, a 4 anos de prisão por cumplicidade no assassinato de 300 mil pessoas, no que pode ser um dos últimos grandes julgamentos do Holocausto.

Oskar Groening não matou ninguém enquanto trabalhava no campo polonês ocupado pelos nazistas, mas os procuradores argumentaram que ele, sendo responsável pelas anotações bancárias de judeus recém-chegados ao local, ajudou a apoiar o regime responsável por assassinatos em massa.

O processo contra Groening foi aberto em abril com uma ampla confissão do réu, que admitiu sua cumplicidade nas mortes, correspondentes à chamada "Operação Hungria". Groening admitiu culpa moral, mas disse que cabia ao tribunal decidir se ele era legalmente culpado. Anteriormente, ele havia dito que só poderia pedir a Deus para perdoá-lo, à medida que não podia pedir isso para as vítimas do Holocausto.

O julgamento abordou a questão de pessoas que faziam parte da máquina nazista, mas não participaram ativamente na morte dos 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Até recentemente, o sistema de Justiça alemão considerava que essas pessoas não deveriam ser condenadas pelas mortes.

Groening entrou na SS da Alemanha nazista em 1941 e, um ano depois, começou a servir em Auschwitz, onde sua funçãoera coletar os pertences dos deportados após a chegada e encaminhá-los para o processo de seleção, que resultava no envio de muitos para câmaras de gás. Além disso, ele expropriava o dinheiro, a bagagem e os demais pertences dos que chegavam - o que contribuiu para o financiamento do Terceiro Reich.

O alemão negou ter participado diretamente da escolha de quem seria enviado às câmaras de gás ou permaneceria realizando trabalhos forçados. 

As acusações contra Groening se referem ao período entre maio e julho de 1944, quando 137 trens com cerca de 425 mil judeus da Hungria chegaram a Auschwitz. Pelo menos 300 mil destes judeus foram enviados para câmaras de gás, de acordo com a acusação.

O tribunal alemão superou o pedido da promotoria, que havia solicitado uma pena de três anos e meio de prisão, enquanto a defesa pedia a livre absolvição de Groening.

A Audiência de Lueneburg deve analisar agora se o "contador de Auschwitz" cumprirá a pena na prisão, em razão da avançada idade, 94 anos, e estado de saúde precário, fato que motivou várias interrupções do julgamento.

O processo, 70 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, é considerado um marco de justiça tardia contra crimes de guerra. Seu precedente mais direto foi a pena de cinco anos de prisão ditada em 2011 contra o ucraniano John Demjanjuk, que foi guarda voluntário no campo de Sobibor, na Polônia ocupada.

Com sua condenação, se criou jurisprudência para julgar por crimes de guerra não só os que atuavam diretamente nas mortes, mas também os considerados cúmplices. /EFE e REUTERS

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