Ghith Sy|EFE
Ghith Sy|EFE

Alepo deixa lições sobre a omissão do Ocidente

Quando os interesses prevalecem sobre os valores, as consequências podem ser atrozes

O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2016 | 16h00

Grozny, Dresden, Guernica: há cidades que fazem história com sua destruição. Alepo, que já foi o maior centro urbano da Síria, entrará para o grupo. Seu patrimônio histórico, que remonta ao século 12, foi reduzido a ruínas. Caças russos atacaram seus hospitais e escolas. Há mais de quatro anos, os habitantes da cidade são vítimas de mísseis, bombas, gás tóxico e fome. 

Ninguém sabe quantos dos milhares de civis ainda abrigados no último enclave árabe sunita de Alepo perecerão sob os escombros que até agora lhes serviram de escudo. A carnificina pôs por terra o princípio de que os inocentes devem ser poupados dos efeitos mais destrutivos da guerra. Em seu lugar, emergiu uma realidade bárbara e cruel, que ameaça tornar o mundo um lugar mais perigoso e instável.

Para se ter uma ideia da dimensão da tragédia de Alepo, é importante lembrar que nas primeiras manifestações contra o presidente da Síria, Bashar Assad, em 2011, os sunitas marchavam alegremente ao lado dos xiitas, cristãos e curdos. Desde o princípio, com o auxílio inestimável do Irã, Assad tratou de inviabilizar qualquer tentativa de resistência pacífica a seu regime, recorrendo à violência para radicalizar o povo sírio. 

No início, a acusação de que todos os rebeldes eram “terroristas” beirava o ridículo. Hoje, alguns deles de fato se enquadram na descrição. No desenrolar do conflito, sucederam-se alguns momentos críticos, em que as potências ocidentais poderiam ter intervindo, estabelecendo uma zona de exclusão aérea ou uma área protegida, onde os civis pudessem se refugiar, ou mesmo um programa para armar os rebeldes de maneira mais efetiva. 

No entanto, paralisado pelo legado do Iraque e do Afeganistão, o Ocidente hesitou. Com o passar dos meses, a carnificina recrudesceu e a necessidade de intervir se tornou mais urgente. Mas os riscos e a complexidade de uma operação militar também aumentaram consideravelmente. 

Com Assad prestes a cair, a Rússia resolveu meter sua colher, sem a menor consciência, e com efeitos devastadores. A queda de Alepo é prova de que Assad prevaleceu. Também evidencia a influência do Irã. Mas quem realmente saiu ganhando foi a Rússia, que voltou a ser um ator relevante no Oriente Médio.

Por sua vez, a derrota não é um golpe apenas para os adversários de Assad, mas também para a convicção ocidental de que, em política externa, os valores importam tanto quanto os interesses. 

Depois do genocídio de Ruanda, em 1994, quando o mundo assistiu de braços cruzados ao massacre dos tutsis, a comunidade internacional reconheceu ser seu dever atuar para coibir a selvageria da força bruta. Com os países-membros da ONU assumindo a responsabilidade de proteger as vítimas dos crimes de guerra, as convenções contra o uso de armas químicas e o assassinato indiscriminado de civis ganharam importância renovada.

Ruínas e cinzas. Esse ideal de internacionalismo liberal foi seriamente abalado. As campanhas militares que os Estados Unidos lideraram no Afeganistão e no Iraque mostraram que nem a nação mais poderosa da história é capaz de impor a democracia à força. Ainda que não tão evidente, o impacto da tragédia de Alepo é igualmente grave. 

Diante das atrocidades cometidas por Assad, as potências ocidentais se limitaram a proferir lugares-comuns diplomáticos. Esquivando-se de sair em defesa das coisas em que supostamente acredita, o Ocidente transmitiu a mensagem de que seus valores são apenas palavras, que podem ser impunemente ignoradas.

São muitos os responsáveis por isso. Em 2013, mesmo depois de Assad ter atacado áreas controladas pelos rebeldes com gás sarin, ultrapassando aquele que, segundo os americanos, seria o limite do tolerável, o Parlamento britânico votou contra a realização de ações militares, ainda que de alcance limitado. 

Com milhões de sírios buscando refúgio em países vizinhos, como Líbano e Jordânia, os europeus preferiram, em sua maioria, agir como se não tivessem nada a ver com o problema; quando não levantaram barreiras para impedir a entrada de refugiados.

A dose de responsabilidade de Barack Obama não é pequena. Para o presidente americano, a Síria era uma armadilha a ser evitada. Sua previsão de que a Rússia acabaria atolada no pântano sírio revelou-se um gigantesco erro de avaliação. 

Durante seu governo, Obama tentou fazer que o mundo trocasse um sistema em que, para defender seus valores, os EUA agiam frequentemente sozinhos, trazendo a reboque alguns países, como a Grã-Bretanha, por um arranjo em que todos os países arcassem com a tarefa de proteger as normas internacionais, uma vez que todos se beneficiam delas. 

Alepo dá a medida exata do fracasso dessa política. Com os EUA relutando em desempenhar seu papel, o vazio foi preenchido não por países responsáveis, preocupados em preservar a ordem internacional, mas por nações como Rússia e Irã, que enxergam na defesa dos valores ocidentais um plano maquiavélico para promover mudanças de regime em Moscou e Teerã.

Bem-vindos ao bazar. Em tese, o próximo presidente americano poderia tentar reverter a situação. Mas Donald Trump acha que as intervenções liberais são coisa de gente trouxa. 

A indicação de Rex Tillerson, principal executivo da multinacional de petróleo e gás ExxonMobil, para o Departamento de Estado, só reforça a mensagem que o republicano veiculou durante a campanha eleitoral: na Casa Branca, sua preocupação será realizar negociações em torno de interesses, não de valores. Negociar interesses é parte essencial da diplomacia - especialmente nas relações com adversários, como a Rússia e o Irã, e concorrentes, como a China. Mas uma política externa que passa de uma negociação a outra, sem ser orientada por uma estratégia e sem estar ancorada em valores, comporta graves riscos. 

Um deles é que os aliados sejam usados como moeda de troca. Trump já insinuou que, em contrapartida à redução no déficit comercial dos EUA com a China, pode abrir mão de seu apoio a Taiwan. Se Tillerson fechar um acordo abrangente com os amigos que tem na Rússia, envolvendo, por exemplo, a retirada das tropas americanas dos territórios da linha de frente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em troca de uma ação diplomática coordenada contra o Irã ou a China, isso deixaria os países bálticos expostos a agressões russas.

Uma ordem com base exclusivamente em interesses também corre o risco de ser imprevisível e instável. Se Trump não conseguir fazer negócio com a Rússia, a tensão entre os dois países pode se agravar rapidamente - e então a cabeça fria de Obama fará uma falta enorme. 

Quando o poder dita as regras do jogo, os países menores são excluídos das negociações ou têm de aceitar condições desfavoráveis, enquanto as grandes potências deitam e rolam. Sem uma estrutura que lhes sirva de referência, os acordos precisam ser frequentemente renegociados, com resultados incertos. A solução para problemas complexos, como as mudanças climáticas, torna-se ainda mais difícil.

O mundo está vendo o que acontece quando os valores não conseguem deter o caos e a anarquia da geopolítica. Na trágica e abandonada Alepo, os combates têm sido inclementes e atrozes. Quem mais sofre são os pobres e inocentes. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER 

© 2016 THE ECONOMIST 

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