AFP PHOTO / THAER MOHAMMED
AFP PHOTO / THAER MOHAMMED

Alepo sofre com mortes e destruições provocadas por intensos ataques aéreos

Bombardeios acontecem de forma incessante, prédios ficam totalmente destruídos e não há como socorrer os habitantes, mesmo que equipes de resgate insistam em fazê-lo usando inclusive as próprias mãos para socorrer os soterrados

O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2016 | 14h33

BEIRUTE - As bombas voltaram a cair nesta sexta-feira, 23, sobre os bairros rebeldes de Alepo, na Síria, onde intensos ataques aéreos do regime sírio e seu aliado russo causaram mortes e destruição como prelúdio de uma ampla operação terrestre.

A onda de ataques contra a parte da cidade onde vivem 250 mil habitantes acontece quando os chefes da diplomacia russa e americana devem se reunir em Nova York para abordar o restabelecimento de uma trégua no país, depois da que foi interrompida na segunda-feira.

Os bombardeios acontecem de forma incessante, os prédios ficam totalmente destruídos e não há como socorrer os habitantes, mesmo que equipes de resgates insistam em fazê-lo desesperadamente, usando as próprias mãos para socorrer os soterrados.

Dois centros dos chamados "capacetes brancos" (voluntários da oposição síria) foram atingidos pelos bombardeios e um deles ficou totalmente destruído. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), ao menos sete pessoas morreram nesses ataques, mas o balanço pode ser ainda maior porque muitas ainda estão sob os escombros.

Pelo menos 39 civis, entre eles mulheres e crianças, morreram nos bombardeios da aviação russa e síria contra zonas controladas pela oposição. Segundo o OSDH, 27 vítimas perderam a vida em Alepo, enquanto 12 - todos membros da mesma família - morreram em Shaqatin, ao oeste da cidade.

O Comando das Operações Militares em Alepo anunciou na noite de quinta-feira o início de operações nos bairros do leste da cidade e pediu aos civis que se mantenham afastados "das posições dos grupos terroristas", segundo o comunicado divulgado pela agência de notícias oficial Sana. O Observatório considerou que o objetivo da ofensiva do regime e das forças russas é dominar o bairro de Al Sukari e as áreas que ficam sob controle dos rebeldes de Al Ameria e Al Sheikh Said.

"Começamos as operações de reconhecimento e os bombardeios aéreos e de artilharia", informou uma fonte militar de alto escalão. "Podem durar horas ou dias antes de iniciarmos a operação terrestre, cujo desenvolvimento dependerá do resultado dos ataques e da situação em terra", acrescentou.

Outra fonte militar em Damasco destacou que "o objetivo da operação é estender as zonas de controle do Exército". "O número de combatentes (do regime) permite começar uma operação terrestre porque chegaram muitos reforços a Alepo", disse ainda. "O que está acontecendo é que Alepo está sendo atacada e todas as partes retomaram as armas", declarou na véspera, em Nova York, o enviado da ONU para a Síria, Staffan de Mistura.

Hospitais apoiados pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) relataram um aumento significativo no número de pacientes feridos, depois de dias de bombardeios incessantes contra a cidade sitiada. Em apenas dois dias, hospitais apoiados pela MSF informaram que receberam 145 feridos e registraram 23 mortes. A organização está profundamente preocupada com os efeitos do bombardeio indiscriminado de áreas civis em uma cidade já sufocada pelos efeitos do cerco.

“Nenhuma ajuda, incluindo suprimentos médicos urgentemente necessários, tem permissão de entrar. Estamos preocupados com o alto número de feridos registrados pelos hospitais que apoiamos, e sabemos que em muitas áreas eles não têm onde buscar ajuda e simplesmente são abandonados para morrer", disse Carlos Francisco, coordenador geral da MSF na Síria.

Dividida desde 2012 entre um setor pró-governamental e outro nas mãos dos insurgentes, Alepo é um alvo estratégico no conflito que já deixou mais de 300 mil mortos em cinco anos e meio de guerra. O Exército de Bashar Assad, que cerca a parte rebelde de Alepo há dois meses, quer se apoderar da antiga capital econômica da Síria.

Cúpula. Os chanceleres russo, Serguei Lavrov, e americano, John Kerry, se reúnem nesta sexta em Nova York para debater o restabelecimento de uma trégua. A reunião de emergência realizada na quinta-feira pelo Grupo Internacional de Apoio à Síria terminou sem um acordo.

Veja abaixo: Guerra na Síria já deixou mais de 300 mil mortos

Em um apelo sem precedentes, a ONU solicitou a Assad que permita distribuir os alimentos bloqueados na fronteira turco-síria, ressaltando que alguns perderão a validade na segunda-feira.

Apesar da violência, a ONU enviou um comboio humanitário a uma zona rebelde cercada na periferia de Damasco dois dias depois do bombardeio contra um comboio humanitário que matou 20 pessoas.

Kerry afirmou na quinta-feira que Moscou deve demonstrar "seriedade" para que possa se renovar o acordo de cessar-fogo. / AFP e EFE

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