''Alertei o governo sobre os protestos, agora ele tem o que merece''

Mohamed ElBaradei, ex-diretor da AIEA e membro da oposição

, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2011 | 00h00

Depois da revolução na Tunísia, observadores internacionais perguntam-se se os governos de outros países do Norte da África também poderão cair. Em uma entrevista concedida à revista Der Spiegel, Mohamed ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e integrante da oposição ao presidente egípcio, Hosni Mubarak, falou sobre as consequências para o governo do Egito e sua esperança de que o povo do país possa emular o exemplo dos tunisianos.

Na terça-feira, a oposição no Egito conclamou a realização de um Dia da Ira em todo o país. O sr. apoia os protestos?

Sim. Sou favorável a todas as reivindicações pacíficas de mudança. Meu apelo pela introdução de reformas não foi atendido pelo regime, o que deixa ao povo, como única opção, ir às ruas.

O sr. acredita que as manifestações levarão a uma mudança?

Elas marcam o começo de um processo histórico. Pela primeira vez na história recente do Egito, o povo está realmente disposto a ir às ruas. A cultura do medo cultivada pelo regime foi quebrada. Agora não há mais volta.

E o regime ficará simplesmente olhando sem fazer nada?

Espero que as forças de segurança não usem a violência contra os manifestantes. Peço ao presidente que não permita uma escalada da situação.

O sr. também irá às ruas?

Não, não quero roubar a vitória do povo que convocou os protestos. Mas o apoiarei de todas as maneiras possíveis. No momento, serei mais útil ao movimento em um plano estratégico, mesmo quando não estiver no Egito.

Como possível adversário de Mubarak nas eleições presidenciais de setembro, o sr. quer a mudança pelo voto. Não é muito tarde para isso agora?

É possível que meu país esteja enfrentando uma fase de instabilidade. A liberdade tem seu preço, mas qualquer pessoa concorda que a estabilidade deve ser nossa meta.

A autoimolação de um camelô desencadeou a revolução em Túnis. Várias pessoas já se imolaram no Egito, mas Mubarak parece irremovível.

Não se engane. Essa postura tranquila é mera aparência. Internamente, ele está muito nervoso. Ele nunca quis ouvir, e hoje também não está ouvindo. O regime não quer ver nem ouvir. Alertei Mubarak a respeito desses possíveis desdobramentos. Agora ele tem o que merece.

Será que ainda poderá impedir que os protestos se espalhem?

Para isso, Mubarak teria de renunciar a se candidatar às eleições e permitir uma Constituição democrática que torna possíveis eleições livres. E, naturalmente, a lei marcial que foi imposta no país nos últimos 29 anos teria de ser revogada. Sem essas concessões, o regime não sobreviverá.

Israel teme uma revolução no Egito. Em Jerusalém, muitos acreditam que, nesse caso, a Irmandade Muçulmana tomaria o poder e declararia guerra ao Estado judeu.

Devemos parar de demonizar a Irmandade Muçulmana. Não é correto acreditar que só nos resta escolher entre a opressão sob Mubarak e o caos dos extremistas religiosos. Tenho muitas divergências com a Irmandade Muçulmana. Mas ela não cometeu nenhum ato de violência nos últimos 50 anos. Se quisermos democracia e liberdade, teremos de incluir esse movimento em lugar de marginalizá-lo.

O sr. concorda com a teoria do efeito dominó, segundo a qual a revolução na Tunísia é apenas o começo?

Talvez estejamos vendo os primeiros sinais de uma Primavera Árabe (semelhante à chamada Primavera de Praga, a liberalização política da Checoslováquia, em 1968). Nossos vizinhos acompanham atentamente o que acontece no Egito, que sempre exerceu um papel pioneiro. Espero que meu país seja um dos primeiros nos quais a liberdade e a democracia desabrocharão. Nós, egípcios, deveríamos poder realizar o que os tunisianos conseguiram. / DER SPIEGEL

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