Nicolas Asfouri/AFP
Nicolas Asfouri/AFP

Algemas e medicina chinesa contra o coronavírus

Moradores de Xinjiang enfrentam duras medidas, apesar de região não registrar casos

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 03h30

PEQUIM - Primeiro vieram os avisos de que as autoridades chinesas haviam declarado estado de “tempo de guerra”. Em seguida, as autoridades começaram a ir de porta em porta, fechando apartamentos e alertando os moradores para ficarem dentro.

Nas últimas semanas, o governo chinês impôs um bloqueio abrangente em toda a região de Xinjiang, no oeste da China, prendendo milhões de pessoas como parte do que as autoridades descrevem como um esforço para combater um novo surto do novo coronavírus.

Mas com as infecções em Xinjiang aparentemente sob controle e as restrições ainda em vigor mais de um mês após o início do surto, muitos residentes estão acusando o governo de agir com severidade.

Moradores da capital, Xinjiang, estão sendo forçados a tomar a medicina tradicional chinesa, sendo algemados em prédios e obrigados a permanecer dentro de casa por semanas como parte de uma série de medidas severas para combater o coronavírus, de acordo com postagens online.

Urumqi, a capital da região semiautônoma conhecida por suas medidas de segurança draconianas, enfrenta um bloqueio há mais de um mês após o surgimento de vários casos em julho, quando o surto havia sido contido em outros lugares da China.

Desde sexta-feira, os usuários da Internet inundaram as mídias sociais com reclamações sobre medidas excessivamente duras e quarentenas ampliadas em casa ou em locais designados, mesmo com os casos diminuindo. A cidade, que documentou 531 casos até meados de agosto, não registrou nenhum novo caso em oito dias consecutivos.

Os usuários da internet reclamaram que foram acorrentados a postes quando tentaram sair de casa. Um disse que eles foram mantidos em um centro de quarentena por dois meses e precisaram tomar o medicamento Lianhua Qingwen, um remédio à base de ervas que a China tem promovido como tratamento para covid-19.

“Não há casos aqui”, disse Daisy Luo, de 26 anos, vendedora de frutas que mora no norte de Xinjiang. “Os controles são muito rígidos.”

Luo, que disse ter perdido pelo menos US$ 1.400 em vendas por causa do bloqueio, recorreu às redes sociais esta semana para protestar contra as restrições, dizendo que se sentiu abandonada. “É inútil ter opiniões”, disse. “As pessoas não ousam falar.”

A raiva crescente representa um desafio para o Partido Comunista no poder. Com o vírus sob controle na maior parte do país e a vida começando a parecer relativamente normal em muitas cidades, o partido tenta projetar uma imagem de harmonia e divulgar sua abordagem de combate ao coronavírus como um modelo para o mundo.

O bloqueio, que segundo o governo afetou pelo menos 4 milhões de pessoas, reavivou as preocupações sobre os abusos dos direitos humanos em Xinjiang. O governo chinês passou anos aperfeiçoando um sistema de vigilância e controle em massa em Xinjiang e há muito impõe regras sociais draconianas aos grupos minoritários étnicos muçulmanos da região, que representam cerca de metade da população de 25 milhões.

Nas redes sociais, os moradores de Xinjiang têm divulgado nos últimos dias vídeos mostrando moradores algemados a postes de metal, supostamente por violar as regras de quarentena. Alguns residentes disseram que as autoridades os obrigaram a ingerir a medicina tradicional chinesa, apesar das dúvidas sobre sua eficácia contra o vírus. Outro vídeo amplamente divulgado mostrou moradores de Urumqi, uma cidade de 3,5 milhões de habitantes e capital de Xinjiang, gritando de suas casas em desespero.

“Isto é uma prisão ou jaula?” um usuário escreveu no Weibo, uma popular mídia social. “Isso é prevenção ou supressão?”

As autoridades chinesas não forneceram informações detalhadas sobre as restrições, sua amplitude ou justificativa. Pelo menos três cidades foram afetadas, segundo comunicados oficiais, mas o bloqueio é provavelmente mais extenso. Nas últimas semanas, residentes de pelo menos 9 jurisdições, cobrindo uma população de mais de 10 milhões, disseram estar confinados, segundo levantamento de postagens no Weibo e em outros sites. Autoridades de Xinjiang não responderam ontem a um pedido de comentários.

À medida que a raiva em relação ao bloqueio aumentou nos últimos dias, com residentes de outras partes da China se unindo às críticas ao governo, as autoridades agiram rapidamente para limitar a dissidência, censurando dezenas de postagens sobre Xinjiang.

As autoridades locais tentaram se apresentar como receptivas e transparentes. Na segunda-feira, em um gesto incomum, a mídia estatal publicou números de telefone de funcionários do governo e do Partido Comunista em Urumqi, encorajando moradores carentes a telefonar para eles e dizendo que estavam prontos para “resolver efetivamente as difíceis demandas das pessoas de todos os grupos étnicos.”

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Uma dessas autoridades, Liu Haijiang, líder distrital em Urumqi, disse em uma entrevista que não houve casos em seu distrito e os moradores ficaram satisfeitos com a resposta do governo. “Somos uma terra pura. As pessoas comuns são muito felizes”, declarou.

Liu disse não saber quando o bloqueio será suspenso. “Isso será decidido com base em nosso plano geral e na opinião dos especialistas”, disse.

Em Urumqi, as autoridades disseram na segunda-feira que reduziriam as restrições em alguns distritos, permitindo que os residentes deixassem suas casas e entrassem em complexos de apartamentos, de acordo com reportagens da imprensa chinesa. As autoridades não disseram quando o bloqueio total será suspenso.

Alguns ativistas de direitos humanos temem que o governo esteja repetindo os erros do bloqueio da cidade de Wuhan, onde surgiu o novo coronavírus, quando os moradores ficaram presos em suas casas e privados de acesso a cuidados de saúde. Moradores de Xinjiang disseram recentemente nas redes sociais que pessoas com outras doenças graves na região não conseguiram obter tratamento.

Muitos ativistas também estão preocupados com a possibilidade de o governo tentar usar a pandemia para expandir sua repressão aos uigures, um grupo étnico predominantemente muçulmano que vive em Xinjiang. Cerca de um milhão de uigures étnicos e membros de outras minorias muçulmanas foram mantidos em campos de internamento em Xinjiang nos últimos anos, atraindo crescente condenação global. / NYT

 

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