'Alguém provocou o alto nível de polônio'

Em entrevista exclusiva ao Estado, os peritos suíços que analisaram amostras do corpo e do solo onde foi sepultado o líder palestino Yasser Arafat disseram que a impressionante quantidade de polônio não é obra do acaso. "Alguém esteve por trás disso", concordam François Bochud e Patrice Mangin.

Entrevista com

LAUSANNE, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2013 | 02h03

Qual a possibilidade de alguém ingerir polônio por acidente?

Mangin - Podemos afastar essa possibilidade. É uma substância tóxica. Portanto, se alguém ingeriu essa substância, uma terceira parte participou disso.

Como os senhores têm essa certeza em relação a Arafat?

Bochud - Tentamos imaginar todas as possibilidades. Poderia ser por meio de gás, mas chegamos à conclusão de que não era o caso. Pensamos que poderia ser pelo cigarro. Mas isso teria causado um nível bem inferior de polônio. Tentamos avaliar se veio da substância rádio-226, que poderia estar presente em alguns locais. Mas não a achamos.

É impossível determinar a origem do polônio?

Bochud - Tentamos fazer isso, mas não foi possível.

E como alguém pode ter ingerido a substância?

Mangin - Normalmente, isso ocorre com comida contaminada ou com uma bebida.

Uma autópsia logo após a morte teria mudado a história?

Mangin - Um material teria sido coletado e, mesmo que não fosse avaliado no momento para saber se havia polônio, como seria uma autópsia forense, as amostras teriam sido guardadas por mais tempo e nós agora poderíamos ter feito o exame.

Por que o sr. diz que o resultado apenas apoia de forma "moderada" a tese do envenenamento? O que falta para confirmação?

Bochud - Se tivéssemos encontrado um nível ainda mais alto de polônio, teria sido mais fácil dar um passo além. O que achamos é 20 vezes maior do que o normal. Fizemos testes como esse nos últimos dez anos e é a primeira vez que encontramos níveis tão elevados.

O polônio pode ter sido colocado no corpo depois da morte?

Bochud - Não parece ser o caso. O corpo estava muito protegido.

Havia algo de incomum no interior do caixão?

Mangin - Não.

O sr. sofreu alguma pressão política?

Mangin - Não. Nós pudemos atuar de forma totalmente independente e com todos os recursos que havíamos solicitado.

Mas o sr. sabe que essa conclusão tem um impacto político importante. Como se sente?

Mangin - Claro que sei. Demos uma contribuição para uma verdade histórica. / J.C.

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